OS PENSADORES
57
A
93»
NICOLAU MAQUIAVEL
O PRÍNCIPE
ESCRITOS
POLITICOS
Traduções de Lívio XAVIER
EDITOR: VICTOR CIVITA
Títulos originais:
Il Principe.
Del modo di trattare i popoli della Valdichiana ribellati.
Dalla Legazione al Duca Valentino.
Descrizione del modo tenuto dal Duca Valentino nello ammazzare Vitellozzo Vitelli, Oliverotto
da Fermo. il Signor Pagolo e il Dúca di Gravina Orsini.
Discorso sopra le cose di Alemagna e sopra ['Imperatore.
Rapporto di cose della Magna.
Ritratto delle cose dell"Alemagna.
Della natura dei francesi.
Ritratto della cose di Francia.
Discorso fatto al Magistrato dei Dieci Sopra le cose di Pisa.
Discorso sulla provisione del danaio.
Sommario delle cose della citta di Lucca.
|.º edição — Janeiro 1973
“O Copyright desta edição, 1973,
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo.
Traduções publicadas sob licença de
Athena Editora, São Paulo.
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“Nicolau Maquiavel
Ao magnífico Lorenzo, filho de Piero de Médicis
As mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as gra-
ças de um príncipe trazer-lhe os objetos que lhes são mais caros, ou
com os quais o vêem deleitar-se; assim, muitas vezes, eles são presen-
teados com cavalos, armas; tecidos de ouro, pedras preciosas e outros
ornamentos dignos de sua grandeza. Desejando eu oferecer a Vossa
Magnificência um testemunho qualquer de minha obrigação, não
achei, entre os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que
tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens
apreendido por uma longa experiência das coisas modernas e uma
continua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande diligência, '
longamente cogitado, examinando-as, agora mando a Vossa Magnifi-
cência, reduzidas a um pequeno volume.
E conquanto julgue indigna esta obra da presença de Vossa Magni-
ficência, não confio menos em que, por sua humanidade, deva ser
aceita, considerado que não lhe posso fazer maior presente que lhe
dar a faculdade de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo
“que, em tantos anos e à custa de tantos incômodos e perigos, hei
conhecido. Não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou
de palavras empoladas e floreios ou de qualquer outra lisonja ou
ornamento extrínseco com que muitos costumam descrever ou ornar
as próprias obras; porque não quis que coisa alguma seja seu ornato
e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do
assunto. Nem quero que se repute presunção o fato de um homem de
baixo e ínfimo estado discorrer e regular sobre o governo dos prínci-
pes; pois os que desenham os contornos dos países se colocam na
o $ MAQUIAVEL
planície para considerar a natureza dos montes, e para considerar a
das planícies ascendem aos montes, assim também para conhecer
bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer
a dos príncipes é necessário ser do povo.
Tome, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com a
intenção com que eu o mando. Se esta obra for diligentemente consi-
derada e lida, Vossa Magnificência conhecerá o meu extremo desejo
que alcance aquela grandeza que a Fortuna e outras qualidades lhe
prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice da sua altura, alguma
vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão suporto uma
grande e contínua má sorte.
CAPÍTULO 1
De quantas espécies são os principados e de quantos
modos se adquirem |
Todos os Estados, todos os
domínios que tem havido e que
. hã sobre os homens foram e são
repúblicas ou principados. Os
principados ou são hereditários,
cujo senhor é príncipe pelo san
gue, por longo tempo, ou são
novos. Os novos são totalmente
novos, como Milão com Fran-
cesco Sforza, ou são como mem-
bros acrescentados a um Estado
que um principe adquire por
herança, como o reino de Nápo-
les ao rei da Espanha. Estes
domínios assim adquiridos são,
ou acostumados à sujeição a um
principe, ou são livres, e são
adquiridos com tropas de outrem
ou próprias, pela fortuna ou pelo
mérito.
CAPÍTULO II |
Dos principados hereditários
Não tratarei das repúblicas,
pois em outros lugares falei a res-
peito .delas!. Referir-me-ei so-
mente aos principados, e procu-
rarei discutir e mostrar como
esses principados hereditários
podem ser governados e manti-
dos. Digo, assim, que nesta espé-
cie de Estados afeiçoados à fami-
lia de seu principe, são muito
menores as dificuldades de man-
tê-los, pois basta somente que
não seja abandonada a praxe dos
antecessores, e depois se contem-
porize com as situações particu-
lares, de modo que, se tal prín-
cipe é de engenho ordinário,
sempre se manterá no seu Esta-
do, se não houver uma força
extraordinária-.e excessiva que o
prive deste; e, mesmo que assim
Maquiavel refere-se aqui à sua obra “Dis-
corsi sopra la prima deca di Tito Livio”.
seja, O readquire, por pior que
seja o ocupante.
Temos na Itália, por exemplo,
o Duque de Ferrara?, o qual
resistiu ao ataque dos venezianos
em 1484, e aos do Papa Júlio em
1510, somente por ser antigo o
domínio da sua família. Porque o.
principe natural do país tem
menores ocasiões e menor neces-
sidade de ofender. É claro, pois,
que seja mais querido. Se ex-
traordinários defeitos não o
fazem odiado, é razoável que seja
naturalmente benquisto: da sua
gente. E na antiguidade e conti-
nuação do domínio gastam-se a
memória.e as causas das inova-
ções, pois uma transformação
poderá ser sempre acompanhada
da edificação de outra.
2 Ver. no índice dos nomes citados o nome
D'Este.
CapítTuLO HI
Dos principados mistos :
Mas a dificuldade consiste nos
principados novos. Primeiro, se
não se trata de principado intei-
ramente novo, mas sim de mem-
bro ajuntado a um Estado heredi-
tário (caso em que este pode
chamar-se um principado misto),
as suas variações nascem princi-
palmente de uma dificuldade
comum a todos os principados
novos, a saber, que os homens
mudam de boa vontade de se-
nhor, supondo melhorar, e esta
crença os faz tomar armas contra
o senhor atual. De fato, enga-
nam-se e vêem por experiência
própria haverem piorado. Isso
-«depende de outra necessidade
natural e ordinária que faz com
que um novo principe careça
ofender os novos súditos com a
sua tropa e por meio de infindas
injúrias, que acarreta uma recen-
te conquista.
Assim, são teus inimigos todos
aqueles que se sentem ofendidos
pelo fato de ocupares o princi-
pado; e também não podes con-
servar como amigos aqueles que
te puseram ali, pois estes não
podem ser satisfeitos como pen-
savam. Não poderás usar contra
eles remédios fortes, obrigado
que estás para com eles, pois
mesmo que sejas fortíssimo nos
exércitos, necessitas do favor dos
habitantes para entrar numa pro-
vincia. Por isso, Luis XII, rei de
França, ocupou Milão rapida-
“mente e rapidamente a perdeu,
bastando para isso as forças de
Ludovico Sforza, pois a popula-
ção que havia aberto as portas ao
rei da França, caindo em si do
seu engano quanto ao bem que
esperava daquele príncipe, não o
pôde suportar. É bem verdade .
que, sendo conquistados segunda
vez, os países rebelados se per-
dem com mais dificuldade: o
16 MAQUIAVEL
principe, tendo por pretexto a
rebelião, hesita menos no assegu-
rar a punição dos revoltosos,
esclarecer as suspeitas, prover às
suas próprias fraquezas. Assim,
para que a França perdesse
Milão, foi bastante a primeira
“vez que o duque Ludovico amea-
çasse as fronteiras, mas a segun-
da vez foi necessário que toda a
gente fosse inimiga e que os exér-
citos franceses fossem aniqui-
lados ou expulsos da Itália. De-
corre isso das referidas razões.
Não obstante, foi-lhe tomada pri-
meira e segunda vez. As razões
gerais da primeira estão expos-
tas: resta discorrer sobre as da
segunda, e ver que remédios hou-
vera a França de empregar para
manter melhor a conquista.
Estes Estados conquistados e
anexados a um Estado antigo, se
são da mesma província e da
mesma língua, são facilmente
sujeitos, máxime quando não
estão acostumados a viver livres.
Basta, para que se assegure a
posse desses Estados, fazer desa-
parecer a linha do príncipe que
os dominava, pois mantendo-se.
nas outras coisas a condição
antiga, e não havendo dispari-
dade de costumes, os homens
vivem calmamente. Assim se viu
na França no caso da Borgonha,
Bretanha, Gasconha e Norman-
dia?, e, ainda que haja alguma
dessemelhança na língua, os cos-
tumes são idênticos, de sorte que
esses Estados podem viver juntos
muito facilmente. O conquista-
dor, para mantê-los, deve ter
duas regras: primeiro, fazer ex-
tinguir o sangue do antigo prínci-
pe; segundo, não alterar as leis
nem os impostos. De tal modo,
num prazo muito breve, ter-se-á
feito a união ao antigo Estado.
Mas, quando se conquista uma
província de língua, costumes e
leis diferentes, começam então as
dificuldades, sendo necessária
uma grande habilidade e boa
sorte para poder conservá-la. Um
dos meios mais eficazes é ir o
príncipe habitá-la. Se se está pre-
sente, vêem-se nascer as desor-
dens, e pode-se remediá-las com
presteza; no caso contrário, só se
terã notícia -delas quando não
houver mais remédio. Além
disso, a província conquistada
não será espoliada pelos lugar -
tenentes. Os súditos ficarão satis-
feitos com o mais fácil recurso ao
3 A Normandia uniu-se à coroa de França em
1204; 'a Gasconha em 1453; a Borgonha em
1477, pela morte de Carlos, o Temerário; a
Bretanha uniu-se virtualmente à coroa pelo
casamento de Ana da Bretanha com Carlos
VIII, pois cabia aquela a sucessão, por morte
do último representante masculino da linha di-
reta da casa reinante. Oficialmente, porêm, foi
anexada à coroa de França por ocasião do
casamento de Cláudia, filha de Ana e Luís
XII, com Francisco 1.
1
O PRÍNCIPE 17
principe: assim, terão maiores
' razões de amá-lo, se é o caso, ou
de temê-lo. Os ataques externos
serão mais custosos e o principe
só muito dificilmente perderá
essa província.
" Outro remédio eficaz é organi-
zar colônias, em um ou dois luga-
res, as quais serão uma espécie
de grilhões postos à província,
pois é necessário fazer isso, ou
ter lá muita força armada. Com
as colônias não se gasta muito, e
sem grande despesa podem ser
feitas e mantidas. Os únicos
prejudicados com elas serão
aqueles a quem se tomam os
campos e as casas, para dá-los
aos novos habitantes. Mas os
prejudicados sendo minoria na
população do Estado, e dispersos
e reduzidos à pobreza, não pode-
rão causar dano ao principe, e os
outros que não foram prejudi-
cados deverão por isso aquietar-
se, por medo de que lhes acon-
teça o mesmo. Enfim, acho que
essas colônias não custam muito
e são fiéis; ofendem menos, é
também os ofendidos não podem
ser nocivos ao príncipe, como se
explicou acima. Deve-se notar
que os homens devem ser mima-
dos ou exterminados, pois se se
vingam de ofensas leves, das gra-
ves já não podem fazê-lo. Assim,
a injúria que se faz deve ser tal,
que não se tema a vingança.
"Mas conservando, em vez de
colônias, força armada, gasta-se
muito mais, e tem de ser despen-
dida nela toda a receita da
província. A conquista torna-se,
pois, perda, e ofende muito mais,
porque prejudica todo o Estado
com as mudanças de alojamento
das tropas. Estes incômodos
todos os sentem, e todos por fim
se tornam inimigos que podem
fazer mal, ainda batidos na pró-
pria casa. Por todas as razões,
pois, é inútil conservar força
armada, ao contrário de manter
colônias.
Também numa província dife-
rente por sua língua, costumes e
leis, faça-se o príncipe de chefe e
defensor dos mais fracos, e trate
de enfraquecer os poderosos da
própria província, além de guar-
dar-se de que entre por acaso um
estrangeiro tão poderoso quanto
ele.
Pois acontecerá sempre que os
habitantes da província, movidos
pela ambição ou pelo temor, cha-
mem estrangeiros poderosos.
Assim, os etólios chamaram à
Grécia os romanos, que sempre
foram chamados pelos naturais
das províncias conquistadas.
E a ordem das coisas é que
quando um estrangeiro poderoso
chegue a uma província, todos
aqueles que se acham enfraque-
cidos lhe dêem adesão, movidos
| PA a |
18 MAQUIAVEL
pela inveja do que lhes é senhor.
Por isso mesmo, não custa traba-
lho algum lhes alcançar o apoio;
e de boa vontade farão bloco de-
pois com o Estado conquistado.
Há o perigo de ficarem eles
muito fortes e com demasiada
autoridade; facilmente então fica-
.riam árbitros da província, aba-
tendo os poderosos com as pró-
prias forças do conquistador.
Aquele que não se dirigir bem, a
este respeito, perderá depressa a
sua conquista, € enquanto não a
perder terá infindas dificuldades
e dissabores.
Os romanos, nas províncias
que conquistaram, observaram
boa política a respeito. Fizeram
colônias, fomentaram os menos
poderosos sem aumentar a força
destes, abateram os mais podero-
sos, e não deixaram que os
estrangeiros poderosos tomassem
força. Sirva-me de exemplo a
província da Grécia. Roma sus-
tentou os aqueus e os etólios,
abateu o reino dos macedônios,
expulsou Antíoco. Mas nem os
méritos dos primeiros e dos se-
gundos permitiram-lhes aumen-
tar os. seus domínios; também
Filipe? não persuadiu os roma-
nos de que deviam ser seus ami-
gos, nem a Antíoco deixaram
4 Ver no índice dos nomes citados o nome de
Filipe V, rei da Macedonia.
conservar domínio algum. Por-
que os romanos nestes casos fize-
ram o que todo príncipe prudente
deve fazer: não só remediar o
presente, mas prever os casos
futuros e preveni-los com toda a
perícia, de forma que se lhes
possa facilmente levar corretivo,
e não deixar que se aproximem
os acontecimentos, pois deste
modo o remédio não chega a
tempo, tendo-se tornado incurá-
vel a moléstia. Da tísica dizem os
médicos que, a princípio, é fácil
de curar e difícil de conhecer,
mas com o correr dos tempos, se
não foi reconhecida e medicada,
torna-se fácil de conhecer e dificil
de curar. Assim se dá com as coi-
sas do Estado: conhecendo-se os
males com antecedência, o que
não é dado senão aos homens
prudentes, rapidamente são cura-
dos: mas quando, por se terem
ignorado, se têm deixado aumen-
tar, a ponto de serem conhecidos
de todos, não haverá mais remé-
dio aqueles males.
Os romanos, vendo de longe as
perturbações, sempre as remedia-
ram e nunca as deixaram seguir O
seu curso, para evitar guerras,
pois sabiam que a guerra não se
evita, mas se é protelada redunda.
sempre em proveito de outros.
Assim, empreenderam a guerra
contra Filipe e Antíoco, na Gré-
cia, para não ter de fazê-la na Itá-
O PRÍNCIPE 19
lia; podiam tê-la evitado, mas
não o quiseram. Não lhes agra-
dava fiar-se no tempo para resol-
ver as questões, como aos sábios
da nossa época, mas só se louva-
vam na própria virtude e prudên-
cia, porque o tempo leva por
diante todas as coisas, e pode
mudar o bem em mal e trans-
formar o mal em bem.
Mas voltemos à França e exa-
minemos como procedeu ela em
situações semelhantes. Falarei de
Luíisº e não de Carlos*, pois
aquele conservou por mais tempo
possessões na Itália, e se viu me-
lhor a medida dos seus progres-
sos. Vereis que ele fez o contrário
do que se deve fazer para conser-
var a conquista de um Estado
diferente. O Rei Luis foi levado à
Itália pela ambição dos venezia-
nos, que quiseram, por esse meio,
ganhar o Estado: da Lombardia.
Não quero censurar o partido to-
mado pelo rei. Quando tomou pé
na Itália, e não tendo amigos
nesta província, e antes pelo
contrário, pelos precedentes do
Rei Carlos, sendo-lhe trancadas
todas as portas, foi ele forçado a
ter as amizades que podia. E
seria bem sucedido na decisão
tomada, se em outros manejos
não tivesse praticado algum erro.
5 Luís XII.
6 Carlos VIII.
Conquistada pois a Lombardia, o
rei recuperou a reputação que
Carlos perdera; Gênova cedeu,
os florentinos tornaram-se seus
amigos, o Marquês de Mântua, o
Duque de Ferrara, Bentivoglio, a
Senhora de Forli, o Senhor de
Faenza, de Pescaro, de Rimini,
de Camerino, de Piombino, os
luqueses, os pisdes e sieneses,
todos foram ao encontro da sua
amizade. Os venezianos puderam
então considerar a temeridade da
própria resolução, pois para ad-
quirir dois tratos de terra, na
Lombardia, fizeram o rei senhor:
de dois terços da Itália. Veja-se
agora quanto era fácil ao rei
manter na Itália a sua reputação,
se, tendo observado as regras
referidas, tivesse assegurado a
defesa de todos aqueles amigos
seus, OS quais, sendo numerosos,
careciam todos de estar com ele.
Por meio de tais aliados, o Rer
Luís poderia facilmente assegu-
rar-se contra aqueles que se ti-
nham conservado fortes.
Mas logo que se achou em
Milão, fez justamente o contrá-
rio, ajudando o Papa Alexandre
a ocupar a Romanha. Nem pen-
sou que, com essa deliberação, se
enfraquecia a si próprio, pois
afastava dele os amigos e aqueles
que se lhe tinham lançado ao
seio, e fortificava a Igreja, ajun-
. tando ao poder espiritual, que já
20 MAQUIAVEL |
lhe dá tanta autoridade, uma tão
grande cópia de poder temporal.
Cometido o primeiro erro, foi
compelido a continuar prati-
cando outros, a ponto de, para
pôr termo à ambição de Alexan-
dre, e para que este não se tor-
nasse senhor da Toscana, ser
obrigado a vir pessoalmente à
Itália. Não lhe bastou fazer forte
a Igreja e perder os próprios ami-
gos; por querer o reino de Nápo-
les, dividiu-o com o rei da Espa-
nha”. E de árbitro da Itália como
dantes, para aí levou um sócio ao
qual os descontentes e ambicio-
sos recorressem contra ele pró-
prio. E, em vez de deixar naquele
reino um rei que lhe fosse sujeito,
tirou-o para colocar um que o
podia expulsar dali.
O desejo de conquistar é coisa
verdadeiramente natural e ordi-
nária e os homens que podem
fazê-lo serão sempre louvados e'
não censurados. Mas se não
podem e querem fazê-lo, de qual-
quer modo, é que estão em erro, e
são merecedores de censura. Se a
França tinha forças para assaltar
Nápoles, devia fazê-lo; se não
podia, não devia dividi-la. E se a
divisão que fez da Lombardia
com os venezianos mereceu ser
desculpada, pois com ela pôs pê
7 Yer no indice dos nomes citados o nome
Fernando, o Católico.
|
na Itália, a divisão de Nápoles -
merece censura, porque não tem
a escusa da necessidade. |
O Rei Luis cometera estes
cinco erros: tinha abatido os
menos poderosos, aumentado a
potência de um poderoso na Itá-
lia, trazido um estrangeiro pode-
rosíssimo, não tinha vindo habi-
tar a Itália e não mandou
colônias para aí. Estes erros, em
“vida sua, podiam não prejudicá-
lo, se não tivesse cometido o
sexto — o de se apoderar de
territórios dos venezianos, pois,
mesmo que não houvesse fortifi-
cado a Igreja e não houvesse
intrometido a Espanha nas coisas
da Itália, era razoável diminui-
los. Mas, tendo tomado essas
deliberações, não devia o rei con-
sentir na ruína deles, pois manti- .
nham a distância os que queriam
conquistar a Lombardia. E isso
porque, enquanto os venezianos
tivessem força, não teriam con-
sentido em que outros senão eles
próprios tivessem o domínio da
província, e os outros não que-
riam tirá-la da França para dá-la
aos venezianos. E se alguém dis-
sesse: o Rei Luís cedeu a Roma-
nha a Alexandre e um reino à.
Espanha, para evitar uma guerra
— respondo que não se deve con-
sentir em um mal para evitar
uma guerra, pois não se evita esta
e sim apenas se adia, para pró-
O PRÍNCIPE, 21
pria desvantagem. Se alguns ale-
gassem a palavra que o rei deu ao
papa de empreender aquela con-
quista em troca da dissolução do
seu matrimônio e do chapéu
cardinalício ao arcebispo de
Ruão, respondo mais adiante
como, na minha opinião, se deve
guardar a palavra dos príncipes.
Assim pois, o Rei Luís perdeu a
Lombardia por não haver obser-
vado nenhum dos princípios ob-
. servados pelos outros que con-
quistaram províncias e as
conservaram. Não é milagre isso,
mas em Nantes, ao arcebispo de
Ruãoº, quando Valentino
8 Ver no índice dos nomes citados o nome de
Amboise (d”).
nome popular de César Borgia,
filho do Papa Alexandre — ocu-
pava a Romanha, dizendo-me ele
que os italianos não entendiam
de guerra, expliquei-lhe que os
franceses não entendiam do Esta-
do, pois se entendessem não te-
riam consentido à Igreja tanta
grandeza. E por experiência viu-
se que a grandeza, na Itália, da
Igreja e da Espanha, foi obra da
França. E a ruína desta foi cau-
sada por ambas.
Conclui-se daí uma regra
geral, que nunca ou muito rara-
mente falha: quando alguém é
causa do poder de outrem, arrui-
na-se, pois aquele poder vem de
astúcia ou força, e qualquer des-
tas é suspeita ao novo poderoso.
CAPÍTULO IV
Por que razão o reino de Dario, ocupado
por Alexandre, não se rebelou
contra os sucessores deste
Consideradas as dificuldades
com que se há de contar para
conservar um Estado recém-con-
quistado, poderia parecer razão
de espanto o fato de que, tendo
Alexandre Magno ficado, em
poucos anos; senhor da Ásia, €
morrido logo depois de ocupar
aqueles Estados, estes não se te-
nham rebelado como seria razoá-
vel. Os sucessores de Alexandre,
contudo, se mantiveram e não
tiveram para isso outra dificul-
dade senão a que entre eles sur-
giu da própria ambição. Replica-
rei que os principados cuja
memória se conserva foram go-
vernados de dois modos diversos:
ou por um príncipe ajudado por
ministros que no governo não são
senão servos que o exercem so-
mente por graça .e concessão do
senhor; ou por um príncipe e
barões, os quais não por graça
daquele, mas por antiguidade de
sangue, têm essa qualidade.
Estes barões possuem o domí-
nio e súditos próprios, os quais
os reconhecem como senhores e
lhes votam natural afeição. Na-
queles Estados que são governa-
dos por um príncipe com seus
servidores, o senhor tem mais
autoridade, porque em toda a sua
província não há quem seja reco-
nhecido como superior a ele. E se
obedecem a outrem, fazem-no
por força dos cargos que exerce e
não lhe dedicam a menor estima.
Os exemplos destas duas espé-
cies: de governo são, em nossos
tempos — o grão-turco e o reina-
do de França. O governo turco é
exercido por um senhor que, divi-
dindo o seu reino em sandjaks,
dispõe de servidores que muda e
desloca como bem lhe parece. O
rei de França está colocado em
24 MAQUIAVEL
meio de uma multidão de senho-
res cujo domínio é tradicional e
que são, em seus distritos, reco-
nhecidos e amados por seus súdi-
tos. São poderosos e o rei não
pode privá-los de suas regalias,
sem grave perigo para ele pró-
prio. Quem considera, pois, estas
duas situações, encontrará difi-
culdade em conquistar o Estado
turco. Sem embargo, uma vez
vencedor, ser-lhe-ã muito fácil
.conservá-lo. A causa das dificul-
dades de ocupá-lo está em que
não é possível ser chamado por
principes daquele reino, nem es-
perar que se possa facilitar a
empresa com a rebelião daqueles
que lhes estão ao redor. E isso,
em virtude das razões já aponta-
das. É que, sendo todos escravos,
mais dificilmente podem ser cor-
rompidos, e, quando se corrom-
pessem, poucas vantagens se po-
deriam obter, uma vez que eles
não poderiam arrastar a massa
popular, o que se explica também
pelas razões enunciadas. Con-
clui-se daí que quem se puser em
marcha contra a: Turquia precisa
preocupar-se com o encontrá-la
unida, convindo-lhe mais confiar
nas próprias forças do que nas
desordens dos outros. Mas, ven-
cida e desorganizada na luta, de
modo que não lhe fosse possível
refazer os exércitos, não seria:
necessário preocupar-se senão
com o sangue do príncipe. Extin-
to este, não restaria mais a quem
temer, pois os outros não têm
domínio sobre o povo. E, assim
como o vencedor, antes da vitó-
ria, nada podia esperar dele, não
deve temê-lo depois da conquista.
Acontece o contrário nos rei-
nos governados como a França.
É possível entrar-se com facili-
dade, conseguindo aliança com
algum barão do reino, pois sem-
pre se encontram descontentes ou
gente desejosa de fazer inova-
ções. Tais elementos poderiam,
pelos motivos expostos, abrir-te
caminho naquele reino e facili-
tar-te a. vitória. Mas, depois, para
te manteres, aparecem inúmeras
dificuldades criadas não só pelos
que oprimiste, como também
pelos que de início auxiliaram a
tua empresa. Não é suficiente o
sangue do príncipe. Permanecem
aqueles senhores, barões podero-
sos, que se tornam cabeças de
novas rebeliões. E, não sendo
possível nem contentá-los nem
fazê-los desaparecer, perderás o
Estado na primeira oportunidade
que se lhes apresente.
Agora, se se considerar a natu-
reza do governo de Dario, encon-
trar-se-à semelhança com a do
sultão da Turquia. Se a Alexan-
dre foi necessário desbaratar o
inimigo em bloco, depois da vitó-
O PRÍNCIPE 25
ria, morto Dario, teve o Estado
seguro, de acordo com as consi-
derações que anteriormente ex-
pendi. E os sucessores de Alexan-
dre, se se houvessem mantido
unidos, poderiam gozar ociosos
aquele reino; não houve aí outros
tumultos senão os que eles pró-
prios suscitaram. Quanto aos
Estados organizados como o da
França, é impossível conquistá-
los com tanta facilidade. Expli-
cam-se dessa forma as frequentes
rebeliões da Espanha, da França
e da Grécia quando conquistadas
pelos romanos. Existiam aí nu-
- merosos principados, e enquanto
perdurou a lembrança deles os
romanos nunca puderam estar
absolutamente seguros da posse;
apagada, porém, a memória da-
queles principados, em vista da
potência e duração do império,
surgiu a segurança completa dos
possuidores. Conseguiram tam-
bém os romanos, quando mais
tarde lutaram entre si, arrastar
parte daquelas províncias, segun-
do a autoridade que cada um
havia . conseguido impor. E as
províncias, pela razão muito sim-
ples de que fora extinto o sangue
de seus antigos senhores, reco-
nheciam apenas os romanos.
Consideradas, pois, estas coisas
todas, não se. espantará ninguém
da facilidade que Alexandre teve
em consolidar sua vitória na
Ásia, e das dificuldades com que
outros esbarraram para conser-'
var os reinos conquistados, como
aconteceu a Pirro. São contin-
gências originadas não do valor
ou do desvalor do vencedor, mas
da diversidade dos povos venci-
dos.
”
CAPÍTULO V
Da maneira de conservar cidades ou principados que,
antes da ocupação, se regiam por leis próprias
Quando se conquistam Esta-
dos habituados a reger-se por leis
próprias e em liberdade, há três
modos de manter-se a sua posse:
primeiro — arruiná-los; segundo
— 1r habitá-los; terceiro — dei-
xá-los viver com suas leis, arreca-
dando um tributo e criando um.
governo de poucos, que se con-
servem amigos. Tendo sido esse
governo criado por aquele princi-
pe, sabe que não poderá viver
sem a sua amizade e o seu poder
e, naturalmente, tudo fará para
mantê-lo. Por intermédio dos
seus próprios cidadãos, muito
mais facilmente se conservará o
governo duma cidade acostu-
mada à liberdade, do que de
qualquer outra forma. Sirva-nos
de exemplo a história dos espar-
tanos e dos romanos. Os primei-
ros criaram em Atenas e Tebas
um governo oligárquico: perde-
y
ram-nas novamente”. Os roma-
nos, para manter-se na posse de
Cápua, Cartago e Numância,
destruíram-nas!º. E não as per-
deram. Mas quiseram governar a
Grécia como os espartanos, tor-
nando-a livre e mantendo-lhe as
suas leis. Não o conseguiram e
foram obrigados a destruir mui-
tas cidades para conservar-se no
poder. É que, em verdade, não há
garantia de posse mais segura do
que a ruína. Quem se torna se-
nhor de uma cidade tradicional-
mente livre e não a destrói será
º Esparta, para assegurar a sua hegemonia
sobre os Estados da Grécia, teve de restaurar
as oligarquias, isto é, alimentou as antigas fac-
ções conservadoras. Assim, em Atenas (404
a.C.), o partido reacionário conseguiu formar
um governo provisório composto de trinta
membros, o qual inaugurou o terror e era
garantido pela ocupação militar espartana.
Condições análogas aproximaram Tebas de
Atenas, aliaram-se as duas. O exército espar-
tano (378) voltou a Esparta, sem vitória.
1º Episódio das guerras romanas.
e | MAQUIAVEL
destruido por ela. Tais cidades
têm sempre por bandeira, nas
rebeliões, a liberdade e suas anti-
gas leis, que não esquecem
nunca, nem com o correr do
tempo, nem por influência dos
benefícios recebidos. Por muito
que se faça, quaisquer que sejam
as precauções tomadas, se não se
promovem o dissídio e a desagre-
gação dos habitantes, não dei-
xam eles de sé lembrar daqueles
princípios e, em toda oportuni-
dade, em qualquer situação, a
eles recorrem, como fez Pisa,
cem anos depois de estar sob o
Jugo dos florentinos!!. Mas,
11 No mesmo ano em que Carlos VIII inva-
dia a península (1494), Pisa rebelava-se, os
pisões lançaram ao Arno o “Marzocco” (o es-
cudo da República). Durou a guerra entre Flo-
rença e Pisa quinze anos, sendo por fim esta
obrigada a render-se. Maquiavel teve papel
importante nas negociações da paz.
quando as cidades ou as provín-
cias estão habituadas a viver sob
o domínio de um príncipe, extinta
a sua geração — como estejam
acostumados a obedecer e, ao
faltar-lhes o principe antigo, não
atinem em eleger, entre eles mes-
mos, um novo principe —, não
sabem viver livres. São, assim,
pouco afeitos a tomar das armas
e, nessas coridições, com mais
facilidade poder-se-á ganhar a es-
tima do povo e assegurar-se sua
fidelidade. Nas repúblicas, há
mais vida, o ódio é mais podero-
80, maior é o desejo de vingança.
Não deixam nem podem deixar
repousar a memória. da antiga
liberdade.
Assim, para conservar uma
república conquistada, o cami-
nho mais seguro é destruí-la ou
habitá-la pessoalmente. |
CaríTULO VI
Dos principados novos que se conquistam pelas
armas e-nobremente
Não deve causar estranheza a
ninguém o fato de eu citar longos
exemplos, muitas vezes a respeito
dos principes e dos Estados,
durante a exposição que passo a
fazer dos principados absoluta-
mente novos. Os homens trilham
quase sempre estradas já percor-
ridas. Um homem prudente deve
assim escolher os caminhos já
percorridos pelos grandes ho-
mens e imitá-los; assim, mesmo
que não seja possivel seguir fiel-
mente esse caminho, nem pela
imitação alcançar totalmente as
virtudes dos grandes, sempre se
aproveita muita coisa. Deve pro-
ceder como os seteiros prudentes
que, querendo atingir um ponto
muito distante, e conhecendo a
capacidade do arco, fazem a
mira em altura superior à do
ponto visado. Não o fazem, evi-
dentemente, para que a flecha
atinja tal altura: valem-se da
mira elevada apenas para ferir
com segurança o lugar designado
muito mais abaixo.
Nos principados novos, gover-
nados por príncipes novos, na
luta pela conservação da posse,
as dificuldades estão na razão di-
reta da capacidade de quem os
conguistou. E porque o fato de
elevar-se alguém a príncipe pres-
supõe valor ou boa sorte, eviden-
temente qualquer destas razões
tem a propriedade de mitigar
muitas dificuldades. Todavia, é
comum observar que muitos que
foram menos afortunados se
mantiveram mais tempo no
poder. Traz muitas facilidades,
ainda, o fato de o principe novo
ser obrigado a habitar o Estado
conquistado por não ter outros:
domínios. E para exemplo dos -
que foram príncipes pelo seu
valor e não por boa sorte, .cito
como maiores Moisés, Ciro, Rô-
mulo; Teseu. E se bem que Moi-
sés não deva ser mencionado por
30
ter sido um mero executor das or-
dens de Deus, deve, contudo, ser
admirado unicamente pela graça
que o fazia digno de falar ao
Criador. Consideremos, porém,
Ciro e outros que adquiriram e
fundaram reinos. Haveis de
achá-los todos admiráveis. E se
se considerarem os seus atos e or-
dens particulares, eles não são
discrepantes daqueles de Moisés,
que teve tão alto preceptor. E
examinando-lhes a vida e as
ações, conclui-se que eles não
receberam da fortuna mais do
que a ocasião de poder amoldar
as- coisas como melhor lhes
aprouve. Sem aquela ocasião,
suas qualidades pessoais se te-
riam apagado, e sem essas virtu-
des a ocasião lhes teria sido va.
Portanto, era necessário a Moisés
encontrar o povo de Israel, no
Egito, escravizado e oprimido
pelos egípcios, a fim de que, para
se libertar da escravidão,
dispusesse a segui-lo. Convinha
que Rômulo não encontrasse re-
fúgio em ' Alba e tivesse sido
exposto ao nascer, para que se
tornasse rei de Roma e fundador
de uma pátria.
Era necessário que Ciro en-
contrasse os persas descontentes
do império dos medas e os medas
muito efeminados e amolecidos
por uma longa paz. Teseu não
teria podido revelar suas virtudes
se não tivesse encontrado os ate-
Se
!
MAQUIAVEL
nienses dispersos. Tais oportuni-
dades, portanto, tornaram felizes
a esses homens; e foram as suas
virtudes que lhes deram o conhe-
cimento daquelas oportunidades.
Graças a isso, a sua pátria sé
honrou e se tornou feliz.
Aqueles que, por suas virtudes,
semelhantemente a estes, se tor-
nam príncipes, conquistam o
principado com dificuldade, mas
se mantêm facilmente. As dificul-
dades que encontram na con-
quista do principado nascem, em
parte, da nova ordem legal e cos-
tumes que são forçados a intro-
duzir para a fundação do seu Es-
tado e da sua própria segurança.
Deve-se considerar aqui que não
há coisa mais difícil, nem de
êxito mais duvidoso, nem mais ,
perigosa, do que o estabeleci- .
mento de novas leis. O novo”
legislador terá por inimigos todos
aqueles a quem as leis antigas
beneficiavam, e terá timidos de-
fensores nos que forem benefi-
ciados pelo novo estado de coi-
sas. Essa fraqueza nasce parte do
medo. dos adversários, parte da
incredulidade dos homens, que
não acreditam na verdade das
coisas novas senão depois de
uma firme experiência. Daí resul-
ta que os adversários, quando
têm ocasião de assaltar, o fazem
fervorosamente, como sectários,
e os outros o defendem sem entu-
O PRÍNCIPE ça 31
siasmo e periclita a defesa do
príncipe.
É necessário, pois, querendo
expor bem claramente esta parte,
examinar se esses inovadores
agem por si próprios, firme-
mente, ou se dependem de ou-
trem, isto é, se para conduzir sua
obra precisam de rogar ou se,
verdadeiramente, podem forçar.
No primeiro caso, são sempre
mal sucedidos e não conseguem
coisa alguma. Mas, quando não
dependem de ninguém, contam
apenas consigo mesmos e podem
forçar, raramente deixam de al-
cançar êxito. Destarte todos os
profetas armados venceram e os
desarmados fracassaram. Por-
que, além do que já se disse, a
natureza dos povos é vária, sendo
fácil persuadi-los de uma coisa,
mas sendo dificil firmá-los na
persuasão. Convém, pois, provi-
denciar para que, quando não
acreditarem mais, se possa fazê-
los crer à força. Moisés, Ciro,
Teseu e Rômulo não teriam con-
seguido fazer observar por muito
tempo suas constituições se esti-
vessem desarmados. É o que, nos
tempos que correm, aconteceu a
Frei Girolamo Savonarola, o
qual fracassou na. sua tentativa
de reforma quando o povo come-
çou a não lhe dar crédito. E ele
não tinha meios para manter fir-
mes aqueles que haviam acredi-
tado, nem para fazer com que os
rão de
incrédulos acreditassem. Pessoas
nessas condições lutam com
grandes dificuldades para condu-
zir-se, estando no seu caminho
todos os perigos que só pela
coragem podem ser superados.
Vencidas as dificuldades, come-
çam a ser venerados, e, extermi-
nados os que invejavam suas
qualidades, tornam-se potentes,
seguros, honrados, felizes. A tão
altos exemplos quero juntar
outro menor, mas que tem rela-
ção com aqueles e bastará para
todos os semelhantes. É o de Hie-
- Siracusa. Tornando-se
de Siracusa, está entre
da sorte, não tiveram
mais do que a ocasião. Estando
OS siracusanos oprimidos, elege-
ram-no para seu capitão. Nesse
posto mereceu tornar-se príncipe.
E foi de tanta virtude, mesmo na
vida privada, que dele se disse:
“quod nihil illi deerat regnandum
praeter regnum!? ”.
Extinguiu a antiga milícia, or-
ganizou a nova, deixou as amiza-
des antigas, conquistou outras, e,
como tivesse amizades e solda-
dos seus, pôde, sobre tais alicer-
ces, edificar as obras que quis,
tanto que teve muito trabalho
para conquistar, mas pouco para
manter-se.
principe
os que,
12 “Que não lhe faltava para ser rei senão um
remo.”
.CapíTuLO VII
Dos principados novos que se conquistam com armas
e virtudes de outrem |
Aqueles que somente por for-
tuna se tornam príncipes pouco
trabalho têm para isso, é claro,
mas se mantêm muito penosa-
mente. Não têm nenhuma dificul-
dade em alcançar o posto, porque
para aí voam; surge, porêm, toda
sorte de dificuldades depois da
chegada. É o que acontece quan-
do o Estado foi concedido ao
principe, ou por dinheiro, ou por
graça de quem o concede. Assim
foi na Grécia, nas cidades da
Jônia e do Hejesponto, onde
houve príncipes feitos por Dario
para manterem sua glória e segu-
rança. É ainda como se faziam
aqueles imperadores que, de sim-
ples cidadãos, subiam ao trono
pela corrupção dos soldados.
Tais príncipes estão na depen-
dência exclusiva da vontade e
boa fortuna de quem lhes conce-
deu o Estado, isto é, de duas coi-
sas extremamente volúveis e ins-
táveis. E não sabem -ou não
podem manter o principado: não
sabem porque; se não são ho-
mens de grande engenho e virtu-
de, não é razoável que, tendo vi-
vido sempre em condições
diferentes, saibam comandar;
não podem, porque não contam
com forças que lhes sejam ami-
“gas e fiéis. Além disso, os Esta-
dos que surgem de súbito, como
todas as outras coisas da natu-
reza que se desenvolvem muito
depressa, não podem ter raizes
ou membros proporcionados, e,
ao primeiro golpe da adversi-
dade, aniquilam-se; a não ser que
aqueles príncipes, como já se
disse, saibam preparar-se para
conservar aquilo que a sorte lhes
pôs no regaço, e estabeleçam
solidamente as bases fundadas
anteriormente por outros.
Destes dois meios de se tornar
príncipe — pelo valor ou pela
fortuna — quero apresentar dois
exemplos atuais: Francesco Sfor-
34 MAQUIAVEL
za e César Bórgia. Francesco,
pelos meios devidos, e por grande
valor, de simples particular se
tornou duque de Milão e pôde
manter facilmente aquilo que
havia conquistado à custa de afa-
nosos trabalhos. Por outro lado,
César Bórgia, chamado pelo
povo Duque Valentino, adquiriu
o Estado com a fortuna do pai e
sem esta o perdeu, não obstante
houvesse feito tudo quanto devia
fazer um homem prudente e valo-
roso a fim de que criasse raizes
nos Estados que as armas € a for-
tuna de outrem lhe haviam con-
cedido.
É que, como já disse acima,
quem não prepara as bases antes,
poderá fazer depois esse traba-
lho, se tem grande capacidade,
anda que com aborrecimento
para o arquiteto e perigo para o
edifício. Se se considerarem,
então, todos os progressos do
duque, ver-se-ã que ele traçou
grandes alicerces para a sua futu-
ra potência. Não julgo que seja
supérfluo discorrer a respeito,
porque eu não saberia regras
melhores para oferecer a um
principe novo do que o exemplo
das ações do duque. E se seu
modo de agir não lhe aproveitou
não foi sua culpa e sim por força
de extremos reveses da sorte.
Alexandre VI encontrou grandes
dificuldades imediatas e remotas
para o engrandecimento do filho.
Primeiro, não encontrava meio
de poder torná-lo senhor de
algum Estado que não fosse Esta-
do da Igreja, e sabia que, se ten-
tasse apoderar-se de um destes, o
duque de Milão e os venezianos
não lho consentiriam, uma vez
que Faenza e Rimini estavam já
sob a proteção dos venezianos.
Via, além disso, as tropas da Itá-
lia e especialmente aquelas de
que se teria podido servir estarem
em mãos de quem devia temer a
grandeza do papa; e nelas não
podia fiar-se, pertencendo todas
aos Orsini e Colonna e seus
partidários. Era necessário, por-
tanto, que se perturbasse aquela
ordem e fossem desorganizados
os Estados destes para se tornar
possível a conquista de um deles.
Isto não lhe foi dificil, pois os
venezianos, movidos por outras
razões, se decidiram a facilitar a
volta dos franceses à Itália, a que
não fez oposição, e até tornou
mais fácil com a dissolução do
primeiro matrimônio do Rei
Luís. O rei entrou, portanto, na
Itália com o auxílio dos venezia-
nos e consentimento de Alexan-
dre. Logo que o rei chegou a
Milão, o papa teve tropa para a
conquista da Romanha, empresa
tornada possível só pela fama do
rei. Tendo o duque conquistado a
Romanha e batido os Colonna,
O PRÍNCIPE 35
querendo manter aquela e prosse-
guir, encontrava dois impedimen-
tos: um, as suas tropas que não
lhe pareciam fiéis, e o outro, a
vontade da França. Temia o
duque lhe faltassem as tropas dos
Orsini, das quais se valera, e não
só o impedissem de conquistar
como lhe arrancassem a terra já
conquistada, e, além disso, que o
rei não lhe fizesse o mesmo. Dos
Orsini confirmaram-se as suas
suspeitas quando, depois de ter
entrado em Faenza, assaltou Bo-
lonha, e notou a sua frieza naque-
le assalto. Relativamente as in-
tenções do rei, conheceu-as
quando, conquistado o ducado de
Urbino, assaltou a Toscana: o rei
fez com que desistisse dessa
empresa. Por isso o duque delibe-
rou não depender mais das armas
e fortuna de outrem. E a primeira
coisa que fez foi enfraquecer as
facções dos Orsini e Colonna em
Roma. De todos os aderentes
destes, que fossem gentis-ho-
mens, procurou o apoio, tornan-
do-os gentis-homens seus e lhes
dando grandes pensões em di
nheiro, e honrou-os, - segundo
suas qualidades, com postos de
comando e de governo, de modo
que, em poucos meses, a afeição
que nutriam pelos partidos se
extinguiu totalmente, passando
toda para o duque. Depois, espe-
rou a ocasião de extinguir os che-
fes dos Orsini, estando já disper-
sos os da casa de Colonna. Não
tardou a se apresentar tal oportu-
nidade e o duque soube bem
aproveitar-se dela. Com efeito, os
Orsini, tendo-se apercebido tarde
demais que o poder do duque e o
da Igreja trariam a sua ruína,
realizaram um conselho em Ma-
gione, no Perugino. Daí surgiram
a rebelião de Urbino e os tumul-
tos da Romanha, com inúmeros
perigos para o duque, que a todos
superou com o auxilio dos fran-
ceses. Tendo readquirido com
isso sua reputação, e não se fian-
do mais da França nem de outros
agentes externos, para não ter de
acrescer-lhes as forças, recorreu
à astúcia. E tão bem soube dissi-
mular as suas intenções que os
Orsini se reconciliaram com ele,
por intermédio do Signor Pago-
lo'%. Para assegurar-se melhor
deste, o duque não omitiu nenhu-
ma prova de amizade, dando-lhe
dinheiro, roupas < cavalos; 'tanto
assim que a ingenuidade dos Or-
sini levou-os a Sinigaglia, à dis-
crição do-duque. Extintos, pois
esses chefes, e reduzidos os seus
correligionários a amigos do
duque, havia este conseguido
muito bons alicerces para o seu
poder, conquistando toda a Ro-
13 Ver no indice dos nomes citados o nome
Orsini.
JE MAQUIAVEL
manha com o ducado de Urbino,
parecendo-lhe, além disso, ter
ganho a amizade da Romanha e
todos aqueles povós, que haviam
começado a gozar de prosperi-
dade. |
Como esta parte da ação do
- duque é digna de registro e de
imitação, não quero silenciar a
respeito. Logo que se apoderou
da Romanha, tendo-a encon-
trado, em geral, sujeita a fracos
senhores, que mais espoliavam
do que governavam os seus súdi-
tos, dando-lhes apenas motivo de
desunião (tanto que aquela pro-
víncia estava cheia de latrocínios,
de tumultos e. de toda sorte de
violências), julgou o duque que
era necessário, para torná-la pa-
ciífica e obediente ao braço régio,
dar-lhe bom governo. E ali colo-
cou, então, Ramiro de Orco,
homem cruel e expedito, ao qual
outorgou plenos poderes; Este,
em pouco tempo, conseguiu fazer
com que a Romanha se tornasse
pacífica e unida, tendo alcançado
ele mesmo grande reputação. O
duque julgou depois que já não
era necessária tanta autoridade,
pois temia que se tornasse odio-
sa. E constituiu um juizo civil no
centro da província, com um pre-
sidente ilustre e benquisto, e onde
cada cidade estava representada.
Sabendo que os rigores passados
haviam criado ódios contra ele
próprio, para apagá-los do ânimo
daqueles povos e conquistá-los a
todos, definitivamente, em tudo,
quis demonstrar que, se haviam
sido cometidas crueldades, não
procediam dele e sim da dureza
de caráter do ministro. E, em
vista disso, tendo ocasião, man-
dou exibillo certa manhã, em
Cesena, em praça pública, corta-
do em dois pedaços, tendo ao
lado um pedaço de pau e uma
faca ensangúentada. A feroci-
dade desse espetáculo fez com
que o povo ficasse a um tempo
satisfeito e espantado.
Voltemos, porém, ao ponto de
partida. Encontrando-se o duque
bastante poderoso e a coberto,
em parte, de perigos presentes,
por já terem tropas suas extin-
guido em grande parte as forças
vizinhas que o poderiam incomo-
dar, restava-lhe, querendo prosse-
guir nas conquistas, o temor ao
rei da França. Sábia que os seus
progressos não seriam suporta-
dos pelo rei, o qual se apercebera
tarde do seu erro. Começou, por
isso, a procurar amizades novas €
a tergiversar com a França, na
incursão que os franceses leva-
ram a efeito no reino de Nápoles
contra os espanhóis que assedia-
vam Gaeta. Queria assegurar-se
contra a França, o que lhe teria
sido fácil conseguir se Alexandre
vivesse. Esta foi a sua política
O PRÍNCIPE
quanto às coisas presentes. Mas,
-com relação ao futuro, tinha a
temer, primeiro, que o novo papa
lhe fosse hostil e procurasse
tirar-lhe o que. Alexandre lhe
dera. Pensou agir de quatro
modos: primeiro — extinguir a
linha de todos aqueles senhores
que despojara, para evitar protes-
tos de intervenção do papa; se-
gundo — conquistar todos os
gentis-homens de Roma, como
foi dito, para poder, com seu
auxílio, enfrentar o papa; terceiro
— aumentar o mais possível a
própria influência no Sacro Colé-
gio; quarto conquistar a
maior soma de poder antes da
morte do papa, a fim de poder
resistir por si mesmo a um Ppri-
meiro ataque. Dessas quatro coi-
sas, já realizara três, por ocasião
da morte de Alexandre. A quarta
estava quase terminada. Dos se-
nhores espoliados matou quantos
pôde alcançar, e foram pouquis-
simos os que se salvaram; havia
alcançado o apoio dos gentis-ho-
mens romanos e, no Sacro Colé-
gio, tinha formado um grande
partido. Quanto à nova conquis-
ta, havia designado tornar-se se-
nhor da Toscana e já possuia
Perúgia e Piombino e tomara a si
a proteção de Pisa. E logo que
não o preocupasse mais o temor
da França (por terem sido já
expulsos os franceses do reino de
37.
- Nápoles pelos espanhóis, de
modo que a ambos era necessário
procurar sua amizade), o duque
se precipitaria sobre Pisa. Depois
disso, Luca e Siena cederiam
logo, em parte movidas pelo ódio
aos florentinos, em parte pelo
medo. Os florentinos, então, não
teriam recurso algum. Se tivesse
conseguido isso (o que se daria
no ano mesmo em que Alexandre
morreu), conquistava o duque
tanta força e reputação que por si
mesmo se teria mantido e não
dependeria mais da fortuna e da
força de outrem e sim da sua pró-
pria força e capacidade. Mas
Alexandre morreu cinco anos de-
pois que César desembainhara a
espada. Deixou-o apenas com o
Estado: da Romanha consoli-
dado, e todos os outros no ar, sob
a pressão de dois poderosíssimos
exércitos inimigos, e doente de
morte. Havia, porém, no duque
tão grande energia e valor, bem
sabendo ele que os homens se
conquistam ou se exterminam, €
eram tão sólidos os alicerces
construídos para o seu poderio,
que, se não fora a pressão daque-
les exércitos, ou se ele estivesse
são, teria vencido qualquer difi-
culdade. De que as bases que pre-
parara eram boas teve as provas:
a Romanha esperou-o fielmente
mais de um mês; em Roma,
ainda que meio morto, esteve a
38 MAQUIAVEL
salvo; e se bem que os Baglioni,.
os Vitell e os Orsini para aí
tivessem acorrido, não puderam
organizar partido contra ele; e se
não póde fazer com que fosse
eleito papa'um partidário seu,
pôde pelo menos impedir que o
fosse um inimigo. Se não esti-
vesse doente quando Alexandre
morreu, tudo lhe teria sido fácil.
Disse-me ele, quando da eleição
de Júlio II, que pensara em tudo
que podia acontecer com a morte
do pai e para tudo encontrara
remédio. Só não previra, naquela
ocasião, que ele próprio estivesse
para morrer.
"Nas ações do duque, das quais
escolhi as que expus acima, não
encontro motivo de censura; pa-
rece-me, pelo contrário, que se
deve propó-lo como exemplo a
todos os que por fortuna e com
as armas de outrem ascendérem
ao poder. Pois, sendo ele de
ânimo forte e de alta ambição,
não podia governar de outra
forma. Aos seus desígnios se
opuseram apenas a brevidade da
vida de Alexandre e a sua própria
moléstia. Portanto, se julgas ne-
cessário, num principado novo,
assegurar-te contra os inimigos,
conquistar amigos, vencer ou
pela força ou pela astúcia, fazer-
te amado e temido do povo, ser
seguido e respeitado pelos solda-
dos, extinguir os que podem ou
devem ofender, renovar as anti-
gas instituições por novas leis,
ser severo € grato, magnânimo e
liberal, dissolver a milícia infiel,
criar uma nova, manter amizades
dos reis e dos príncipes, de modo
que te sejam solícitos no benefi-
cio e tementes de ofender-te, repi-
to que não encontrarás melhores
exemplos que nas ações do
duque. Só é possivel acusá-lo
quanto à criação de Júlio ponti-
fice, a qual escolha foi má, pois,
como se disse, não podendo fazer
papa a quem queria, podia evitar
que o fosse quem não quisesse.
Não deveria ele ter consentido ja-
mais no papado de um dos car-
deais a quem tivesse ofendido ou
que, feito pontífice, tivesse de
temê-lo. Pois os homens ofendem
ou por medo ou por ódio. Aqué-
les a quem ele ofendera eram,
entre outros, os cardeais de San
Pietro ad Vincula, Colonna, San
Giorgio, Ascânio!*. Todos os
outros, se se tornassem papas, ti-
nham por que temê-lo, exceto o
de Ruão e os espanhóis; estes por
força de aliança e obrigação,
aquele pela força do rei de Fran-
ça. O duque devia, portanto,
fazer com que fosse eleito papa
um espanhol; não o podendo,
devia consentir em que o papa
14 Ver no índice dos nomes citados os nomes
Júlio II, Colonna (Giovanni), Riario di Savona
(Raffaele) e Sforza (Ascânio).
k
O PRÍNCIPE 39
fosse o cardeal de Ruão e não de
San Pietro ad Vincula. Engana-se
quem acreditar que nas grandes
personagens os novos benefícios
fazem esquecer as antigas injú-
rias. O duque errou, pois, nessa
eleição, e foi ele mesmo o causa-
dor de sua ruína definitiva.
CapíruLO VIII
Dos que alcançaram o principado pelo crime
Hã duas maneiras de tornar-se
príncipe e que não se podem atri-
buir totalmente à fortuna ou ao
mérito. Não me parece bem, por-
tanto, deixar de falar nestes
casos, se bem que deles se pudes-
se falar mais detidamente onde se
trata das repúblicas. Estas ma-
neiras são: chegar ao principado
pela maldade, por vias celeradas,
contrárias a todas as leis huma-
nas e divinas; e tornar-se príncipe
por mercê do favor de seus
conterrâneos. Para nos referir-
mos ao primeiro destes modos,
apresentarei dois exemplos, um
antigo e outro moderno, sem
entrar, contudo, no mérito desta
parte, pois julgo que bastaria a
alguém imitá-los se estivesse em
condição de devê-lo fazer.
Agátocles Siciliano tornou-se
rei de Siracusa, sendo não só de
impura mas também de condição
abjeta. Filho de um oleiro, teve
sempre vida criminosa na sua
mocidade. Acompanhava as suas
maldades de tanto vigor de
ânimo e de corpo que, ingres-
sando na milícia, chegou a ser
pretor de Siracusa, por força
daquela maldade. Neste posto,
deliberou tornar-se príncipe e
manter, pela violência e sem
favor de outros, aquele poder que
lhe fora concedido por acordo
entre todos.
Acerca deste seu desígnio, en-
tendeu-se com Amilcar, cartagi-
nês, que estava com seus exérci-
tos na Sicília, e, certa manha,
reuniu o povo e o Senado de Sira-
cusa, como se ele tivesse de
consultá-lo sobre os negócios pú-
blicos. E a um sinal combinado
fez que seus soldados matassem
todos os senadores e os homens
mais ricos da cidade. Mortos
estes, apoderou-se do governo
daquela cidade e o conservou
sem nenhuma hostilidade por
parte dos cidadãos. E apesar de
os cartagineses haverem rompido
com ele duas vezes e, por fim,
42 MAQUIAVEL
assediado a cidade, pôde não só
defendê-la, como, deixando parte
de sua gente para garanti-la con-
tra os inimigos, com outra parte
assaltou a África; em breve
tempo libertou Siracusa do assé-
dio e reduziu os cartagineses a
uma condição miserável. Foram
estes coagidos a entrar em acor-
do com Agátocles, deixando-lhe
a Sicília e contentando-se com a
posse da África. Consideradas,
pois, suas ações e méritos, não se
encontrará coisa, ou, senão,
muito pouca, que se possa atri-
buir à fortuna. Como acima se
disse, não por favor de quem
quer que fosse, mas passando por
todos os postos conquistados na
milícia através de inúmeros dis-
sabores e perigos é que alcançou
o principado que manteve depois,
à força de tantas decisões auda-
zes e chejas-de perigo. Ainda que
não. se possa considerar ação
meritória a matança de seus
concidadãos, trair os amigos, não
ter fé, não ter piedade nem reli-
gião, com isso pode-se conquistar
o mando, mas não a glória: Mas,
considerada a habilidade de Agá-
tocles no entrar e sair dos peri-
gos, e sua fortaleza de ânimo no
suportar € superar as coisas ad-
versas, não há por que se deva
jJulgá-lo inferior a qualquer dos
mais ilustres capitães. Todavia, a
sua bárbara crueldade e desuma-
nidade e os seus inúmeros crimes
não permitem seja celebrado
entre os mais ilustres homens da
História. Não se pode, pois, atri-
buir à fortuna ou ao valor aquilo
que ele conseguiu sem uma e sem
outro.
Em nossos tempos, sob o rei-
nado de Alexandre VI, Oliverotto
da Fermo, que ficara órfão al-
guns anos antes, fora criado por
um tio materno, chamado Gio-
vanni Fogliani. Nos primeiros
tempos de sua juventude, dedi-
cou-se à vida militar, sob a dire-
ção de Paulo Vitelli, a fim de que,
afeito aquela disciplina, alcan-
çasse algum alto posto na mili-
cia. Morto Paulo, esteve sob o
comando de Vitellozzo, seu
irmão. E dentro de pouco tempo,
como fosse engenhoso, forte e
valoroso, tornou-se o primeiro
homem de sua corporação. Pare-
ceu-lhe, porém, coisa abjeta con-
tinuar a servir com outros, e,
auxiliado por alguns cidadãos de
Fermo, que preferiram a servidão
à liberdade de sua pátria, e com a
ajuda de Vitellozzo, quis ocupar
aquela cidade. E escreveu a Gio-
vanni Fogliani dizendo que,
como estivera muitos anos fora
de casa, desejava ir visitá-lo.e à
sua cidade para conhecer o seu
patrimônio; e como não traba-
lhara. senão para conseguir hon-
ras, a fim de que seus concida-
O PRÍNCIPE 43
dãos vissem que não perdera o
tempo em vão, queria ir em gran-
de pompa e acompanhado de
cem cavaleiros seus amigos e
servidores. Rogava ao tio que se
servisse de ordenar aos cidadãos
de Fermo que o recebessem com
homenagens; isso representaria
uma honra para o tio que o tinha
educado. Giovanni não deixou de
atender na menor coisa ao seu
sobrinho. Fê-lo receber com
grandes festas, alojou-o e à sua
comitiva na própria casa. Passa-
dos alguns dias, estando tudo
pronto para que ordenasse o
necessário à sua futura perfídia,
organizou um banquete solenis-
simo, para o qual convidou Gio-
vanni Fogliani e todos os homens
de maior destaque da cidade de
Fermo. Terminado o banquete e
os divertimentos da praxe, Olive-
rotto, propositadamente, encetou
uma conversa a respeito de as-
suntos graves, da grandeza do
Papa Alexandre e de César, seu
filho, e dos seus empreendi-
mentos.
Tendo Giovanni e os outros
expendido também considerações
a respeito, ele, a um dado mo-
mento, levantou-se e disse que
aquilo era coisa que se devia dis-
cutir em lugar mais reservado,
dirigindo-se a seguir para um
aposento ao lado. Todos os ou-
tros o seguiram. Logo que se
assentaram, saíram de esconde-
rjos soldados que mataram Gio-
vanni e todos os outros. Depois
desse homicídio coletivo, Olive-.
rotto montou a cavalo e percor-
reu a cidade e assediou o supre-
mo magistrado em seu palácio.
Aterrorizados, foram obrigados a
obedecê-lo e a formar um gover-
no do qual ele era o chefe. E,
mortos todos os que por descon-
tentes poderiam prejudicá-lo, re-
forçou-se por novas leis civis e
militares, de modo que, durante o
ano em que governou a proviín-
cia, não só conseguira assegu-
rar-se da cidade de Fermo, mas
também tornar-se temido por
todos os seus vizinhos. E seria
difícil tomar-lhe a cidade, como
aconteceu com Agatocles, se não
se tivesse deixado enganar por
César Bórgia, quando este, em
Sinigaglia, como: se disse antes,
aprisionou os Orsini e os Vitelli.
Assim, um ano depois de haver
cometido o parricídio, foi estran-
gulado juntamente com Vitel-
lozzo, que fora o mestre de suas
virtudes e ignomínias.
Poderia alguém surpreender-se
pelo fato de que Agátocles e
semelhantes, depois de tantas
traições e crueldades, pudessem
viver tranquilamente e a salvo em
sua pátria, e defender-se dos ini-
migos externos e de que os cida-
dãos não conspirassem contra
44
eles considerando-se tanto
mais que muitos outros não pu-
deram, por. sua crueldade, con-
servar o mando, nem nos tempos
n
de paz, nem nos tempos duvido-.
sos de guerra. Creio que isto seja
consequência de serem as cruel-
dades mal ou bem praticadas.
Bem usadas se podem chamar
aquelas (se é que se pode dizer
bem do mal) que são feitas, de.
uma só vez, pela necessidade de
prover alguém à própria seguran-
ça, e depois são postas à mar-
gem, transformando-se o mais
possível em vantagem para os sú-
ditos. Mal usadas são as que,
ainda que a princípio sejam pou-
cas, em vez de extinguirem-se,
crescem com o tempo. Os que
observam a primeira destas li-
nhas de conduta podem, com a.
ajuda de Deus'e dos homens,
encontrar remédio às suas conse-
quências, como aconteceu com
Agátocles. Aos outros é impos-
sível manter-sé. É de notar-se,
aqui, que, ao -apoderar-se dum
Estado, o conquistador deve de-
terminar as injúrias que precisa
MAQUIAVEL
levar a efeito, e executá-las todas
de uma só vez, para não ter que
renová-las dia a dia. Deste modo,
poderá incutir confiança nos ho-
mens e conquistar-lhes o apoio
beneficiando-os. Quem age por
outra forma, ou por timidez ou
por força de maus conselhos, tem
sempre necessidade de estar com
a faca na mão e não poderá
nunca confiar em seus súditos,
porque estes, por sua vez, não se
podem fiar nele, mercê das suas
recentes e contínuas injúrias. As
injúrias devem ser feitas todas de
uma vez, a fim de que, tomando-
se-lhes menos o gosto, ofendam
menos. E os benefícios devem ser
realizados pouco a pouco, para
que sejam mais bem saboreados.
Sobretudo, um príncipe deve
viver com seus súditos de modo
que nenhum acidente, bom ou
mau; o faça variar, porque,
vindo, com tempos adversos, as
necessidades, não terás tempo de
fazer o mal; e o bem que fazes
não te beneficia, pois julga-se for-
çado, e ninguém te agradecerá a
sua prática. à
CAPÍTULO IX
Do principado civil
Mas, analisando outro caso,
quando um cidadão, não por
suas crueldades ou outra qual-
quer intolerável violência, e sim
pelo favor dos concidadãos, se
torna príncipe de sua pátria — o
que se pode chamar principado
civil (e para chegar a isso não é
necessário grandes méritos nem
muita sorte, mas antes uma astú-
cia feliz), digo que se chega a esse
principado ou pelo favor do povo
ou pelo favor dos poderosos. É
que em todas as cidades se
encontram estas duas tendências
diversas e isto nasce do fato de
que o povo não deseja ser gover-
nado nem oprimido pelos gran-
des, e estes desejam governar e
oprimir o povo. Destes dois ape-
tites diferentes nasce nas cidades
um destes três efeitos: princi-
pado, liberdade, desordem.
O principado é estabelecido
pelo povo ou pelos grandes, se-
gundo a oportunidade que tiver
uma destas partes; percebendo os
grandes que não podem resistir
ao povo, começam a dar reputa-
ção a um dos seus elementos e o
fazem principe, para poder, sob
sua sombra, satisfazer seus apeti-
tes. O povo também, vendo que
não pode resistir aos grandes, dá
reputação a um cidadão e o elege
principe para estar defendido
com a sua autoridade. O que
ascende ao principado com a
ajuda dos poderosos se mantém
com mais dificuldade do que
aquele que é eleito pelo próprio
povo; encontra-se aquele. com
muita gente ao redor, que lhe pa-
rece sua igual, e por isso não a
pode comandar nem manejar
como entender. Mas o que alcan-
ça o principado pelo favor popu-
lar encontra-se sozinho e, ao
redor, ou não tem ninguém, ou
muito poucos que não estejam
preparados para obedecê-lo.
Além disso, não se pode honesta-
mente satisfazer aos grandes sem
injúria para os outros, mas O
46 MAQUIAVEL
povo pode ser satisfeito. Porque
o objetivo do povo é mais hones-
to do que o dos poderosos; estes
querem oprimir e aquele não ser
oprimido. Contra a hostilidade
do povo o príncipe não se pode
assegurar nunca, porque são mui-
tos; com relação aos grandes, é
possível porque são poucos. O
pior que um principe pode espe-
rar do povo hostil é ser abando-
nado por ele. Mas, da inimizade
dos grandes, não deve temer só
que o abandonem, como também
que o ataquem, pois têm estes
maior alcance de vistas e maior
astúcia, e têm sempre tempo de
salvar-se, procurando aproxi-
mar-se dos prováveis vitoriosos.
Precisa ainda o principe de viver
sempre com o povo, mas pode
prescindir perfeitamente dos
grandes, pois pode fazer e desfa-
zer, cada dia, e dar-lhes ou
fazer-lhes perder influência, à sua
vontade.
E, para esclarecer melhor esta
parte, direi dos dois grupos prin-
cipais em que se podem classi-
ficar os grandes: os que proce-
dem de tal modo que se ligam em
tudo à tua fortuna, ou os que
agem diversamente. Aqueles que
se obrigam para contigo e não
são rapaces devem ser respei-
tados e amados. Os que não se
obrigam daquela forma devem
ser examinados sob dois aspec-:
tos; se agem assim por pusilani-
midade e defeito natural de cará-
ter, deverás servir-te deles,
especialmente se podem dar-te
bons conselhos, porque em tem-
pos felizes isso te honrará e nos
adversos nada terás que temer.
Mas, quando não se obrigam
para contigo, deliberadamente e
pór ambição, é sinal de que pen-
sam mais em si próprios do que
em ti. O príncipe deve, então,
manter-se em guarda e temê-los
como se fossem inimigos desco-
bertos, porque sempre, na adver-
sidade, ajudarão a arruinar-te.
Quem se torna príncipe me-
diante o favor do povo deve man-
ter-se seu amigo, o que é muito
fácil, uma vez que este deseja
apenas não ser oprimido. Mas
quem se tornar príncipe contra a
opinião popular, por favor dos -
grandes, deve, antes de mais
nada, procurar conquistar o
povo.
Ser-lhe-ã fácil isso, uma vez
que se tenha ocupado em prote-
gê-lo. E como os homens, quando
recebem beneficios de quem só
esperavam mal, se obrigam mais
para com o benfeitor, torna-se o
povo logo mais seu amigo do que
se o príncipe houvesse sido leva-
do ao poder por favor seu. Isso
pode ser conseguido pelo prin-
cipe de muitas maneiras, das
quais não se pode traçar uma
O PRÍNCIPE 47
regra certa porque elas variam
conforme as circunstâncias. Dei-
xà-la-ei de parte, por isso. Con-
cluirei somente que é necessário
a um príncipe que o povo lhe
vote amizade; do contrário, fra-
cassará nas adversidades. Nábis,
príncipe dos espartanos, supor-
tou o longo assédio de toda a
Grécia e de um exército. romano
fendeu a pátria e o Estado. Bas-
tou-lhe apenas, quando o perigo
sobreveio, assegurar-se de pou-
cos; não lhe bastaria isso, se o
povo fosse seu inimigo. E a quem
estiver contra esta minha opl-
nião, baseado naquele velho pro-
vérbio que diz que quem se apóia
no povo tem alicerces de barro,
direi que isso é verdade quando
um cidadão acredita que o povo
o liberte quando estiver, por
acaso, oprimido pelos inimigos
ou pelos magistrados. Nesse
caso, são frequentes os enganos,
como os Gracos em Roma e
Messer! * Giorgio Scali em Flo-
rença. Tratando-se, porém, dum
principe que saiba comandar e
seja homem de coragem, que não
se abata nas adversidades, não se
esqueça das outras precauções e
tenha com seu próprio valor -e
conduta incutido confiança no
15 Título que se dava a senhores, prelados e
Juristas até o século XVI. (N. do E.)
povo, jamais será enganado por
este e verá que reforçou os seus
alicerces.
Principados dessa espécie cor-
rem perigo quando estão a pique
de mudar de um governo civil
para um absoluto; porque esses
príncipes ou governam por si
próprios ou por intermédio de
“magistrados.
poderosíssimo, e contra eles de-.
Neste último caso, a sua esta-
bilidade é precária e incerta, por-
' que dependem completamente da
vontade dos cidadãos prepostos.
nas magistraturas, os quais, mã-
xime em tempos adversos, podem
lhe arrebatar'o Estado com gran-
de facilidade, movendo-lhe guer-
ra ou não lhe prestando obediên-
cia. E o príncipe já não poderá,
nos perigos, reconquistar a auto-
ridade absoluta, porque os cida-
daos e os súditos, habituados a
' seguir as ordens dos magistrados,
não estão, naquela emergência,
para obedecer à sua. E o prínci-
pe, nos tempos incertos, quase
não'terá gente em que se possa
fiar, não podendo basear-se no
que observa em ocasiões nor-
mais, quando os cidadãos têm
necessidade do Estado. Então,
todos correm ao seu encontro,
todos prometem, e não há quem
não queira morrer por ele, quan-
do a morte, está longe; mas na
adversidade, quando o Estado
necessita dos cidadãos, encon-
48 MAQUIAVEL
tram-se poucos. E essa expe-
riência é tanto mais perigosa
quando é certo que não é possível
fazê-la senão uma vez. Conclui-
se dai que um príncipe prudente
deve cogitar da maneira de fa-
zer-se sempre necessário aos seus
súditos e de precisarem estes do
Estado; depois, ser-lhe-ão sempre
fiéis.
CAPÍTULO X
Como se devem medir as forças
de todos os principados
Convém fazer, ao se examina-
rem as qualidades destes princi-
pados, uma outra consideração:
“se um príncipe possui tanta força
em seu Estado que se possa man-
ter por si mesmo em caso de
necessidade, ou se precisa do
auxílio de terceiros. Para bem
esclarecer esta parte, direi que
Julgo capazes de se manter por si
os príncipes que podem, em vista
de ter abundância de homens ou
de dinheiro, formar um exército
forte e fazer frente a qualquer
assaltante, e que também julgo.
terem sempre necessidade de ou-
trem os que não podem enfrentar
o inimigo em campo aberto, pre-
cisando de refugiar-se por detrás
dos muros da cidade para poder
defendê-la. Já se falou do pri-
meiro caso, e mais adiante ajun-
taremos o que é necessário. No
segundo caso, não se pode fazer
mais do que exortar esses prínci-
pes a fortificar e municiar o pró-
prio Estado sem se preocupar
com o resto. E quem estiver bem
fortificado e se tenha conduzido
com relação aos governados
como acima.se expôs — e se
falará ainda — sempre será ata-
cado com hesitação. Os homens
são sempre contrários aos em-
preendimentos onde exista difi-
culdade; e não se pode ver facili-
dade no assalto a quem possui
um Estado forte e não é odiado
pelo povo.
As cidades da Alemanha são
extremamente livres, têm pouco
território e obedecem ao impera-
dor quandô querem, e não temem
nem a ele nem a qualquer outro
poderoso que lhes esteja - ao
redor, pois estão fortificadas de
forma que obriga a refletir que
expugná-las deve ser tarefa abor-
recida e dificil. Todas possuem
ao redor valas e muros adequa-
dos, possuem boa artilharia e têm.
sempre nos celeiros públicos o
50 MAQUIAVEL
que comer e beber e combustível
para um ano. Além disso, para
que a plebe nunca sofra fome,
têm sempre, em comum, por um
ano, trabalho para lhe dar naque-
las atividades que sejam o nervo
e a vida da cidade e indústrias
das quais a plebe se sustente.
Mais ainda: estimam grande-
mente os exercícios militares que
são regidos por boas leis.
Assim, um príncipe que tenha
uma cidade forte e não se torne
odiado não pode ser atacado, e,
mesmo que o fosse, o atacante
regressaria de cabeça baixa. Por-
que .as coisas do mundo são
assim tão variadas que seria
impossível que alguém permane-
cesse ociosamente um ano a asse-
diá-lo. A quem replicasse que, se
O povo tem suas propriedades
fora da cidade e as visse arder,
não haveria paciência capaz de
resistir, e que o longo assédio e o
próprio egoismo dos súditos fa-
riam com que se esquêcessem do
príncipe, responderia eu que um
príncipe corajoso e forte superará
sempre todas aquelas dificulda-
des, ora dando aos súditos a
esperança de que o mal não se
prolongará, ora incutindo-lhes o
temor da crueldade do inimigo, e
assegurando-se com destreza dos
que lhe parecessem muito teme-
rários. Além disso, é razoável
considerar que o inimigo deverá
incendiar e arruinar o país logo
depois de sua chegada, quando o
ânimo do povo está ainda aque-
cido e decidido à defesa; por isso,
o príncipe deve ter tanto menos
dúvida, porque depois de alguns
dias os ânimos se arrefecem, os
danos já são uma realidade e não
há mais remédio; então o povo
vem unir-se mais ao príncipe,
parecendo-lhe que este lhe deve
uma obrigação, pois arderam as
casas e arruinaram-se as proprie-
dades em benefício dele. E a
natureza dos homens faz com
que se obriguem tanto - pelos
benefícios feitos como pelos rece-
bidos. Em conclusão, consideran-
do-se bem tudo, não será dificil a
um príncipe prudente assegurar-
se do seu povo, durante um
cerco, quer antes, quer depois
deste, uma vez que não lhe faltem
viveres nem meios de defesa.
CapíTULO XI
Os principados eclesiásticos
Resta-nos somente, agora,
falar dos principados eclesiás-
ticos. Diante destes, surge toda
sorte de dificuldades, antes de
que se possuam, porque são
conquistados ou pelo mérito ou
por fortuna. Mantêm-se, porém,
sem qualquer das duas, porque
são sustentados pela rotina da
religião. As suas instituições tor-
nam-se tão fortes e de tal natu-
reza que sustentam os seus prin-
cipes no poder, vivam e
procedam eles como bem enten-
derem. Só estes possuem Estados
e não os defendem; só estes pos-
suem súditos que não governam.
E os seus Estados, apesar de
indefesos, não lhes são arrebata-
dos; os súditos, embora não
sejam governados, não cuidam
de alijar o príncipe nem o podem
fazer. Somente esses principados,
portanto, São, por natureza, segu-
ros e felizes. E sendo eles regidos
por poderes superiores, aos quais
a razão humana não atinge, dei-
xarei de falar a respeito; estabele-
cidos e mantidos por Deus tais
Estados, seria de homem presun-
çoso e temerário agir de outra
forma. Contudo, se alguém me
perguntasse dos motivos por que .
“a Igreja alcançou tanta grandeza
no poder temporal, diria que,
antes de Alexandre, os potenta-
dos italianos (e não somente
potentados, mas qualquer barão
ou senhor, apesar de insignifi-
cante) pouca importância davam
ao poder temporal da Igreja. E
agora até um rei de França o re-
ceia e foi expulso da Itália pelo
papa, que conseguiu ainda arruil-
nar OS venezianos, o que apesar
de conhecido não é inoportuno
relembrar. .
Antes que Carlos, rei da Fran-
ça, invadisse a Itália, esta provín-
cia estava sob o império do'papa,
venezianos, rei de Nápoles,
duque de Milão e florentinos.
Estes. governos deviam ter dois
cuidados principais: um — que o
52 MAQUIAVEL
-
estrangeiro não entrasse na Itália
com tropas; outro — que ne-
nhum deles estendesse os seus
domínios. Aqueles que mais se
deviam vigiar eram o papa e os
venezianos. E para deter a estes
era necessária a união de todos
os outros, como aconteceu na de-
fesa de Ferrara; e para pôr em
xeque o poder do papa, haveriam
de servir os barões de Roma, os
quais, por estarem divididos em
duas facções — Orsini e Colon-
na —, viviam em constante
disputa. E estando sempre de
armas na mão, aos olhos do pró-
prio pontífice, tornavam o papa-
do fraco e inseguro. E se bem que
às vezes surgisse um papa animo-
so, como foi Xisto, a sua fortuna
e o seu saber não bastavam para
livrá-lo dessa dificuldade. A bre-
vidade dos pontificados é a razão
disso, pois nos dez anos que, em
média, um papa reinava, conse-
guia, embora à custa de grande
trabalho, rebaixar uma das fac-
ções. Não obstante, se um deles
havia conseguido quase que ex-
tinguir os Colonna, por exemplo,
seguia-se um outro papa, inimigo
dos Orsini, que favorecia a volta
dos Colonna, e não tinha tempo
também de destruir os Orsini.
Por isso o poder temporal do
papa foi pouco estimado na Itá-
lia. Surgiu depois Alexandre VI,
o qual, de todos os pontífices que
já existiram, demonstrou como
um papa se podia fazer valer,
pelo dinheiro e pela força, e,
valendo-se do Duque Valentino
como instrumento, e quando da
vinda dos franceses, fez tudo
quanto já referi acima, a respeito
da ação do duque. É apesar de o
seu intento não ser o de tornar a
Igreja poderosa, tudo quanto o
duque realizou foi pela grandeza
desta, a qual, depois da morte de
Alexandre e morto também o
duque, foi a herdeira dos traba-
lhos que este realizara. Veio de-
pois o Papa Júlio e encontrou a
Igreja forte, na posse de toda a
Romanha, sendo que, pelas in-
vestidas de Alexandre, haviam
sido extintos os barões de Roma
e anuladas as facções referidas.
Encontrou ainda o caminho aber-
to para acumular dinheiro, o que
nunca fora feito antes de Alexan-
dre. Julio não só prosseguiu em
tais trabalhos, como ainda os
acresceu. E pensou em conquis-
tar Bolonha, liquidar os venezia-
nos e expulsar os franceses da
Itália. Alcançou êxito em todas
essas empresas, e é tão mais
digno de louvor quanto se sabe
que fez tudo isso com a preocu-
pação de engrandecer a Igreja e
não um determinado indivíduo.
Manteve ainda os dois partidos
dos Orsini e dos Colonna, nas
O PRÍNCIPE 53
mesmas condições em que os
encontrou; e apesar de que entre
eles houvesse alguns chefes capa-
zes de provocar alterações; nada
fizeram; duas coisas os mantive-
ram inativos: o poder da Igreja,
que os abatia, e o fato de não
terem eles partidários no Sacro '
Colégio, pois os cardeais são ori-
gem dos tumultos entre as fac-
ções. Não haverá paz entre estas
se tiverem cardeais, porque estes,
tanto em Roma como fora da
cidade, fomentam os partidos e
“os barões são forçados a defen-
dé-los. Assim, da ambição dos
prelados, nascem as discórdias e
os tumultos entre os barões. Sua
Santidade, o Papa Leão, encon-
trou, pois, o pontificado podero-
síssimo. E espera-se que, se al-
guns tornaram o papado
poderoso pelas armas, o atual
pontífice, pela sua bondade e inú-
meras outras virtudes, o torne
ainda mais forte e venerando.
CaPpíTULO XII
Dos gêneros de milícia e dos soldados mercenários
Tendo eu falado com porme-
nor de todas as causas da boa ou
má sorte dos principados, e con-
siderado as causas da sua boa ou
má sorte, demonstrando os meios
por que se puderam conquistar e
manter, resta-me agora falar a
respeito dos meios ofensivos e
defensivos que neles se podem
achar necessários. Dissemos
acima que é necessário a um
príncipe estabelecer sólidos fun-
damentos; sem isso, é certa a sua
ruína. E as principais bases que
os Estados têm, sejam novos, ve-
lhos ou mistos, são boas leis e
boas armas. E como não podem
existir boas leis onde não hã
armas boas, e onde há boas
armas convém que existam boas
leis, referir-me-ei apenas às
armas. Direi, pois, que as forças
com que um príncipe mantém o
seu Estado são próprias ou mer-
cenárias, auxiliares ou mistas. As
mercenárias e auxiliares são inú-
teis e perigosas. Se alguém tiver o
seu Estado apoiado em tal classe
de forças, não estará nunca segu-
ro; não são unidas aos príncipes,
são ambiciosas, indisciplinadas,
infiéis, insolentes para com os
amigos, mas covardes perante os
inimigos, não temem a Deus,
nem dão fé aos homens, e o prin-
cipe só adia a própria ruína na
medida em que adia o ataque.
Assim, o Estado é espoliado por
elas na paz, e, na guerra, pelos
inimigos. A razão disso é que
não têm outro amor nem outra
força que as mantenha em
campo, senão uma pequena paga,
o que não basta para fazer com
que queiram morrer por ti. Que-
rem muito ser teus soldados
enquanto não fazes a guerra,
mas, se esta vier, fogem ou se
despedem. Não me será muito
difícil explicá-lo, pois a atual
ruína da Itália não é causada por
outra coisa senão porque durante
muitos anos esteve apoiada em
armas mercenárias. Estas chega-
56 MAQUIAVEL
ram a fazer algo em benefício de
alguns e pareciam valorosas
quando combatiam umas às ou-
tras, mas, chegado o estrangeiro,
logo mostraram ' o que eram.
Facilimo foi, por isso, a Carlos,
rei de França, conquistar a giz a
Kália inteira! º; dizia a verdade
quem dizia que a culpa toda era
nossa, mas não a que pensava e
sim a de que foram causa os
erros expostos acima. E como
“eram culpados os príncipes,
foram eles que sofreram a pena.
Quero, contudo, demonstrar
mais claramente a má qualidade
destas tropas. Os capitães merce-
nários ou são grandes militares
ou não são nada; se o forem, não
te poderás fiar neles, porque aspi-
rarão sempre à própria glória, ou
abatendo a ti, que és o seu
patrão, ou oprimindo a outrem
contra a tua vontade. Se não
forem grandes capitães, arrui-
nar-te-ão por isso mesmo. E se
alguém responder que, merce-
nário ou não, quem estiver com a
força agirá sempre da mesma
forma, replicarei que as tropas
devem ser usadas por um priín-
cipe ou por uma república. O
8 Commines, cronista francês, refere que ao
Papa Alexandre VI se atribuía o dito segundo
o qual “os franceses ao invadir a Itália toma-
ram do giz para marcar os: seus acampamen-
tos, e não de espadas para combater”, que-
rendo significar a falta de resistência dos
Estados italianos. '
príncipe em pessoa é quem deve
constituir-se capitão, a república
deve mandar para esse posto um
de seus cidadãos e, quando for
mfeliz na escolha, deve iogo
substituí-lo. E, se se revelar um
homem de valor no seu posto,
deve a república assegurar-se,
mediante leis, contra o Capitão,
para que não exorbite ele das
suas funções. À experiência ensi-
na que os príncipes, agindo por si '
mesmos, e as repúblicas armadas
alcançam prandes progressos, ao
passo que as armas mercenárias
só causam danos. Mais dificil-
mente um cidadão de uma repú-
blica que tenha tropa própria
alcança o poder absoluto do que
nó caso da república apoiada em
tropa mercenária. Roma e Espar-
ta estiveram durante muitos sécu-
los armadas e livres. Os suíços '
são armadíssimos e libérrimos.
Exemplo das forças mercenárias
antigas são os cartagineses, que
quase foram abatidos pelos mer-
cenários, quando terminou a pri-
meira guerra com os: romanos,
conquanto os exércitos cartagi-
neses tivessem por chefes cida-
daãos de Cartago. Filipe da Mace-
dônia foi feito pelos tebanos
capitão da sua gente, depois da
morte de Epaminondas; e depois
da vitória tirou-lhes a liberdade.
Os milaneses, morto o Duque
Filipe, assalariaram Francesco
O PRÍNCIPE 57
Sforza para que atacasse os vene-
zianos; e, vencido o inimigo em
Caravaggio, Sforza juntou-se aos
inimigos para oprimir os milane-
ses, seus patrões. Já Muzio Sfor-
za, seu pai, servindo à Rainha
Joana de Nápoles, deixou-a, em
certo momento, sem exército.
Para não perder o reino, foi ela
obrigada a lançar-se aos braços
do rei de Aragão. E se os vene-
zianos é florentinos, pelo contrá-
rio, alargaram seu império com
tropas mercenárias, seus capitães
não se tornaram príncipes e os
defenderam sempre, tem-se que
os florentinos, neste caso, foram
favorecidos pela sorte, pois dos
capitães de valor a quem podiam
temer, alguns não venceram, ou-
tros tiveram de lutar contra ti-
vais, outros ainda dirigiram
a ambição em outros rumos. O
que não venceu foi Giovanni
Aucut! ?, do qual, por não ter
vencido, não se pôde conhecer a
fidelidade, mas ninguém deixará
de reconhecer que, se vencesse,
os florentinos estariam à sua
mercê. Sforza teve sempre contra
si os partidários de Braccio,
vigiando-se eles mutuamente.
Francesco voltou sua ambição
para a Lombardia; Braccio, con-
tra a Igreja e o reino de Nápoles.
17 Ver no indice dos nomes citados o nome
Hawkwood (Sir John).
Vejamos, porém, o que aconte-
ceu há pouco tempo. Os floren-
tinos fizeram Paulo Vitell seu
capitão, homem muito prudente e
que, de simples particular, alcan-
çara altíssima reputação. Se este
conquistasse Pisa, não haverá
quem negue que ele teria opri-
mido os florentinos; porque, se
tivesse ficado servindo aos seus
inimigos, aqueles não teriam re-
médio contra isso; e, se o manti-
vessem, teriam de obedecer-lhe.
Se considerarmos os progressos
dos venezianos, ver-se-á que ope-
raram segura e gloriosamente,
enquanto eles mesmos fizeram a
guerra, o que se deu antes de a
sua atenção voltar-se para as
conquistas em terra firme. Aí,
com o auxílio dos gentis-homens
e com a plebe armada, operaram
valorosamente, mas, quando co-:
meçaram a combater em terra,
deixaram essa excelente regra e
seguiram os costumes de guerra
da Itália. E no princípio de sua
ação em terra, por. não terem
muito Estado e por terem grande
reputação, não tinham muito que
temer de seus capitães. Am-
pliando os seus domínios sob a
direção de Carmignola, tiveram a
prova desse erro. Pois que, ten-
do-o como grande capitão, quan-
do venceram sob o seu comando
o duque de Milão, e vendo depois
que estava arrefecendo nas coisas
58 MAQUIAVEL
de guerra, julgaram que sob o seu
comando não mais poderiam ter
vitórias, pois lhe faltava a vonta-
de de vencer; e como não pudes-
sem pô-lo em disponibilidade,
para não perder o que haviam
conquistado, tiveram de matá-lo
para assegurar-se contra ele. Ti-:
veram depois, por capitães, Bar- :
tolomeu de Bérgamo, Roberto de
Sao Severino, Conde de Piti-
gliano e outros que tais; quanto a
estes, só tinham que temer as
suas derrotas, não suas conquis-
tas, como aconteceu depois em
Vailá, onde, em um só dia, perde-
“ram o que, em oitocentos anos, à
custa de tantos trabalhos, haviam
conquistado. Essas tropas dão
apenas lentas, tardias e precárias
conquistas, mas rápidas e espan-
tosas perdas. E como citei estes
exemplos da Itália, que foi gover-
nada muitos anos com armas
mercenárias, continuarei a discu-
tir o assunto sob um aspecto
mais geral, a fim de que, conhe-
cendo-se as suas origens e o seu
desenvolvimento, seja possível
corrigir melhor o erro de usar
essas tropas. Deveis saber então
que, começando nestes últimos
tempos o império a ser repelido
da Itália, e tendo o papa maior
autoridade no poder temporal, o
país foi retalhado em mais Esta-
dos; porque muitas das maiores
cidades tomaram armas contra a
nobreza que as tinha subjugado,
ajudada pelo imperador. Ao
passo que a Igreja favorecia as
cidades para aumentar o seu
poder temporal. Assim, em mui-
tas cidades, simples particulares
se tornaram príncipes. O resul-
tado é que, tendo a Itália ficado,
quase toda, em poder da Igreja e
de algumas repúblicas, e os pa-
dres e os cidadãos destas não
estando habituados a manejar
armas, começaram a aliciar mer-
cenários estrangeiros para o ser-
viço militar. O primeiro que
granjeou fama no comando dessa
espécie de tropa foi Alberico da
Conio, romanholo. Braccio e
Sforza, que, em seus tempos,
foram árbitros da Itália, foram
saídos, como muitos, da escola
daquele. Depois vieram todos os
outros que têm comandado estas .
milícias até nossos tempos. E
como consequência disso, a Itália
foi invadida por Carlos, depre-
dada pór Luís, atacada por Fer-
nando e infamada pelos suíços. A
primeira coisa que fizeram os
condottieri foi procurar anular a
importância da infantaria, para
realçar a importância própria.
Agiram assim porque, não tendo
Estado próprio e dependendo
sempre da sua profissão, se tives-
sem pouca infantaria, não conse-
guiriam fama, e se muita, não
poderiam sustentá-la. Reduzi-
O PRÍNCIPE 59
ram-se portanto quase exclusiva-
mente à cavalaria, pois, com
pequeno número de cavaleiros,
achavam apoio e honras, sem
grandes encargos. Isso chegou a
- tal ponto que, num exército de
vinte mil homens, não havia dois
mil infantes.
Empregavam, ademais, os ca-
pitães todos os meios para afas-
tar, de si e dos soldados, o medo
e o trabalho, poupando-se nos
combates e fazendo-se prender
uns aos outros sem resgate. Não
atacavam as cidades de noite e os
que defendiam as cidades não
atacavam os sitiantes, e nem que-
riam combater no inverno. Tudo
isso lhes era permitido pelo seu
código militar, que, como se
disse, tinha o objetivo de evitar
trabalhos e perigos. E assim
escravizaram e infamaram a Itá-
lia.
CarpíruLo XIII
“Das tropas auxiliares, mistas e nativas
As tropas auxiliares, que não.
são mais do que armas inúteis,
são as que manda em teu auxílio
algum poderoso, como fez em
tempos não muito remotos o
Papa Júlio; tendo ele tido, na
expedição contra Ferrara, triste
prova dos exércitos mercenários,
voltou-se para as tropas auxilia-
res, combinando com Fernando,
rei de Espanha, que os infantes e
cavaleiros deste fossem ajudá-lo.
Tais tropas podem ser úteis e
boas por si próprias, mas quase
sempre acarretam prejuízos ao
que as solicita, pois, se perderem,
estará anulado, se vencerem, es-
tará seu prisioneiro. E, muito em-
bora a história antiga esteja cheia
destes exemplos, eu não quero
sair deste, ainda recente, do Papa
Júlio II, cuja decisão de abando-
nar-se nas mãos de um estran-
geiro, só pela vontade de con-
quistar Ferrara, não se pode
considerar uma boa deliberação.
Mas a boa fortuna do papa origi-
nou um terceiro acontecimento, a
fim de que ele não colhesse os
frutos da sua má escolha; é que
tendo sido as forças auxiliares
desbaratadas em Ravena, e sur-
gindo os suíços, que expulsaram
os vencedores, excedendo qual-
quer. expectativa do papa e de
outros, não ficou ele preso pelos
inimigos, que haviam fugido,
nem pelos seus aliados, tendo
vencido com outras forças que
não as próprias. Os florentinos,
que estavam desarmados, leva-
ram dez mil franceses a Pisa,
para expugná-la: e nisso encon-
traram mais perigo do que em
quaisquer de seus próprios traba-
lhos, em todos os tempos. O
imperador de Constantinopla,
para opor-se aos seus vizinhos,
pôs dez mil turcos na Grécia, os
quais, terminada a guerra, não
mais quiseram partir, o que foi o
começo da servidão da Grécia
62 MAQUIAVEL
aos infiéis! 8. Valha-se, portanto,
destas tropas quem não quiser
vencer, porque são muito mais
perigosas do que as mercenárias.
Com aquelas, a ruína é certa;
são unidas e votadas inteira-
mente à obediência a outros.
Quanto as forças mercenárias,
depois da vitória, precisam de
mais tempo e de melhor oportu-
nidade de prejudicar-te, pois não
constituem um corpo perfeita-
mente unido e, além disso, foram
organizadas e são pagas por ti;
nestas, se constituíres chefe a um
terceiro, não poderá este ter
desde logo tanta autoridade que
te possa ofender gravemente. Em
resumo, nas tropas mercenárias,
o que é perigoso é a covardia;
nas auxiliares, 0 valor.
Os príncipes prudentes repeli-
ram sempre tais forças, para
valer-se das suas próprias, prefe-
rindo antes perder com estas a
vencer com auxílio das outras,
considerando falsa a vitória con-
quistada com forças alheias. Não
deixarei nunca de ter em mente o
exemplo de César Bórgia e suas
ações. Este duque entrou na
Romanha à custa de armas auxi-
liares, conduzindo tropas france-
sas, com as quais tomou Ímola e
18 O Imperador João Cantacuzene, em guerra
contra a facção dos Paleólogos, akou-se, em
1346, com o Sultão Orchan. Finda a guerra, os
turcos estabeleceram-se em Gallipoli.
Forli. Depois, como essas tropas
não lhe inspirassem confiança,
voltou-se às mercemárias, que,
Julgou, eram menos perigosas. E
tomou a seu serviço os Orsini e
Vitelli. Quando, tendo usado as
destes últimos, julgou-as dúbias e
infiéis, extinguiu-as, dedicando-se
às que eram verdadeiramente
suas. Pode-se daí concluir facil-
mente a diferença entre umas e
outras, considerada a transfor-
mação na fama do duque, de
quando tinha apenas os france-
ses, para quando empregava os
Orsini e Vitelli, e quando afinal
ficou com soldados seus e sob
seu próprio comando. Ver-se-á
que sua fama foi aumentando
sempre e nunca foi tão estimado
como quando se viu que ele era
senhor absoluto de suas tropas.
Eu não queria senão citar exem-
plos italianos ou recentes; apesar
disso, não quero deixar de falar
de Hierão Siracusano, já acima
referido. Este, como disse, inves-
tido das funções de chefe dos
exércitos siracusanos, percebeu
logo que a milícia mercenária
não era boa, por serem os chefes
semelhantes aos nossos, italia-
nos. Parecendo-lhe que não podia
mantê-los nem desfazer-se deles,
fé-los cortar em pedaços. Assim,
pôde fazer guerra, depois, com
tropas próprias. Quero ainda re-
cordar uma passagem do Antigo
O PRÍNCIPE 63
Testamento, referente a este as-
sunto. Oferecendo-se Davi a
Saul, para ir combater contra
Golias, grande provocador filis-
teu, Saul, para animá-lo, quis que
ele fosse com a armadura real.
Davi, logo que a pós sobre si,
repeliu-a, dizendo que não pode-
ria usar bem da sua própria
força, pois queria encontrar-se
com o inimigo valendo-se apenas
da funda e da faca para comba-
tê-lo. Enfim, as armas de outrem
ou te caem pelas costas, ou
pesam sobre ti, ou ainda te sufo-
cam. Carlos VII, pai do Rei Luís
XI, tendo, com a sua boa sorte e
valor, livrado a França do jugo
dos ingleses, conheceu a necessi-
dade de se armar com forças que
fossem suas, realmente, e tornou
obrigatório, no seu reino, o servi-
ço militar. O Rei Luís extinguiu,
depois, a arma de infantaria e
começou a ter suíços a soldo.
Esse erro, seguido de outros, foi,
como se vê agora, o motivo dos
perigos daquele reino. Tendo
dado reputação aos suíços, avil-
tou as próprias tropas, porque
desapareceu a infantaria e a sua
cavalaria foi subordinada à tropa
estrangeira, e, acostumando-se
elã a militar com suíços, não lhe
parece possível vencer sem eles,
Da nao bastarem os franceses
contra Os suíços, e sem Os suíços,
contra outros, não conseguiram
vencer. Os exércitos de França,
pois, têm sido mistos, compostos
de mercenários e soldados pró-
prios. São eles muito melhores
que as simples tropas auxiliares
ou mercenárias e muito inferiores
aos exércitos próprios.
Basta o exemplo dado, porque
o reino de França seria inven-
cível se se tivesse desenvolvido
ou pelo menos conservado o
regulamento militar de Carlos.
Mas a pouca prudência dos ho-
mens não descobre o veneno que
está escondido nas coisas que
bem lhes parecem ao princípio,
conforme disse acima, a respeito
das febres éticas.
Portanto, aquele que, num
principado, não conhecer os
males na sua origem não é verda-
deiramente sábio, o que é dado a
poucos. Se se considerar o come-
ço da decadência do Império
Romano, achar-se-á que foi moti-
vada somente por ter começado a
ter a soldo mercenários godos.
Desde então começaram a decli-
nar as forças do império e todo o:
valor dele lhes era levado à
conta. Concluo, pois, que, sem
possuir armas próprias, nenhum
principado está seguro," antes,
está à mercê da sorte, não exis-
tindo virtude que o defenda nas
adversidades. Foi sempre opinião
e sentença dos homens sábios —
“quod nihil sit tam infirmum aut
64 MAQUIAVEL
instabile quam fama potential
non sua vi nixa!'º” E as forças
próprias são aquelas compostas
de súditos ou de cidadãos, ou de
servos teus; todas as outras são
mercenárias ou auxiliares. E o
18 “Nada é tão instável quanto a fama de
poderio de um príncipe quando não apoiada
na própria força.”
modo de regulamentar os exérci-
tos próprios será fácil de encon-
trar-se se se analisarem os regula-
mentos dos quatro a quem me
referi, e se se considerar como
Filipe, pai de Alexandre Magno,
- e muitas repúblicas e principes se
armaram e regeram: e é a essas
ordens que me reporto inteira-
mente, durante esta exposição.
CapítuLo XIV
Dos deveres do principe para .com as suas tropas
Deve, pois, um príncipe não
ter outro objetivo nem outro
pensamento, nem ter qualquer
outra coisa como prática a não
ser a guerra, O seu regulamento e
sua disciplina, porque essa é a
única arte que se espera de quem
comanda. É ela de tanto poder
que não só mantém aqueles que
nasceram príncipes, mas muitas
vezes faz com que cidadãos de
condição particular ascendam
aquela qualidade. Ao contrário,
vê-se que perderam os seus Esta-
dos os príncipes. que se preocu-
param mais com os luxos da vida
do que com as armas. À primeira
causa que te fará perder o gover-
no é descurar desta arte e a razão
de poderes conquistá-lo é o pro-
fessá-la. Francesco Sforza, de
simples particular tornou-se
duque de Milão, pelo fato de ter-
Nie armado; ao passo que os seus
filhos, por fugir aos deveres das
armas, de duques passaram a
simples cidadãos. Porque, entre
at
as outras razões que te acarretam
males; o estar desarmado te obri-
ga a ser submisso, e isso é uma
das infâmias de que um príncipe
se deve guardar, como adiante se
dirá. Não há proporção alguma
entre um príncipe armado e um
desarmado, e não é razoável que
quem estã armado obedeça com
gosto a quem não está, e que o
principe desarmado viva seguro
entre servidores em armas. Ha-
vendo desdém, por parte de um, e
suspeita, de outro lado, não é
possivel que ajam de acordo. Um
príncipe que não entenda de mili-
cia, além de outras infelicidades,
como se disse, não pode ser esti-
'“mado pelos seus soldados nem
ter confiança neles.
Um príncipe, deve, pois, não
deixar nunca de se preocupar
coma arte da guerra e praticá-la
na paz ainda mais mesmo que na
guerra, e isto pode ser conse-
guido por duas formas: pela ação
ou apenas pelo pensamento.
66 MAQUIAVEL
Quanto à ação, além de manter
os soldados disciplinados e cons-
tantemente em exercício, deve:
estar sempre em grandes caça-
das, onde deverá habituar o
corpo aos incômodos naturais da
vida em campanha e aprender a
natureza dos lugares, saber como
surgem os montes, como afun-
dam os vales, como Jjazem as
planícies, e saber da natureza dos
rios e dos pântanos, empregando
nesse trabalho os melhores cuida-
dos. Esses conhecimentos são
úteis sob dois aspectos princi-
pais: primeiro, aprende o prin-
cipe a conhecer bem o seu país €
ficará conhecendo melhor os seus
meios de defesa; segundo, pelo
conhecimento e prática daqueles
sítios, conhecerá facilmente qual-
quer outro, novo, que lhe seja
necessário especular, pois que os
montes, os vales, as planícies, os
rios € OS pântanos que existem na
Toscana, por exemplo, apresen-
tam certas semelhanças com os
de outras províncias. Assim, pelo
conhecimento da geografia de
uma província, pode-se facil-
mente chegar ao conhecimento
de outra. E o príncipe que falha
nesse particular falha na primeira
qualidade que deve ter um capi-
tão, porque é esta que ensina a
entrar em contato com o inimigo,
acampar, conduzir os exércitos,
traçar os planos de batalha, e
assediar ou acampar com vanta-
gem. Filopêmenes, principe dos
aqueus, entre as outrás qualida-
des que lhe deram os escritores,
tinha esta de, nos tempos de paz,
não deixar de pensar nunca em
coisas de guerra. Quando pas-
seava no campo, com os amigos,
parava às vezes e os interrogava:
“Se OS inimigos estivessem sobre
aquele monte, e nós estivéssemos
aqui, com nossos exércitos, quem
teria maiores vantagens? Como
se poderia ir ao seu encontro,
observando a nossa formação?
Se nós quiséssemos retirar, como
deveríamos fazer? Se eles se reti-
rassem, como fariamos para se-
gui-los?” Enfim, formulava todas
as hipóteses que podem ocorrer
em campanha, ouvia-lhes a opi-
nião, dava a sua, corroborava-as
com razões e exemplos, de modo
que, mercê dessas contínuas cogi-
tações, quando estava à frente
dos exércitos, nunca surgia um
acidente que ele já não tivesse
previsto e para o qual, portanto,
não tivesse remédio.
Agora, quanto ao exercício do
pensamento, o príncipe deve ler
histórias de países e considerar
as ações dos grandes homens,
observar como se conduziram
nas guerras, examinar as razões
de suas vitórias e derrotas, para
poder fugir destas e imitar aque-
las; sobretudo, deve fazer como
O PRÍNCIPE 67
teriam feito em tempos idos cer-
tos grandes homens, que imita-
vam os que antes deles haviam
sido glorificados por suas ações,
como consta que Alexandre
Magno imitava a Aquiles, César
a Alexandre, Cipião a Ciro. E
quem ler a vida de Ciro, escrita
por Xenofonte, reconhecerá, de-
pois, na vida de Cipião, quanto
lhe foi valiosa aquela imitação e
quanto se assemelhava ele, na
abstinência, afabilidade, humani-
dade, liberalidade, ao que Xeno-
fonte disse de Ciro. Um príncipe
sábio deve observar estas coisas e
nunca ficar ocioso nos tempos de
paz; deve, sim, inteligentemente,
ir formando cabedal de que se
possa valer nas adversidades,
para estar sempre preparado a
resistir-lhes.
CapíTULO XV
Das razões por que os homens e, especialmente,
os principes são louvados ou vituperados
Resta examinar agora como
deve um principe comportar-se
com os seus súditos e seus ami-
gos. Como sei que muita gente já
escreveu a respeito desta matéria,
duvido que não seja considerado
presunçoso propondo-me exami-
ná-la também, tanto mais quanto,
ao tratar deste assunto, não me
afastarei grandemente dos princi-
pios estabelecidos pelos outros.
“Todavia, como é meu intento
escrever coisa útil para os que se
interessarem, pareceu-me mais
conveniente procurar a verdade
pelo efeito das coisas, do que
pelo que delas se possa imaginar.
E muita gente imaginou repú-
blicas e principados que nunca se
viram nem jamais foram reco-
nhecidos como verdadeiros. Vai
“tanta diferença entre o como se
vive e o modo por que se deveria
viver, que quem se preocupar
- com O que se deveria fazer em
vez do que se faz aprende antes a
ruína própria, do que o modo de
se preservar; e um. homem que
quiser fazer profissão de bondade
é natural que se arruíne entre tan-
tos que são maus.
Assim, é necessário a um prín-
cipe, para se manter, que aprenda
a poder ser mau e que se valha ou
deixe de valer-se disso segundo a
necessidade.
Deixando de parte, pois, as
coisas ignoradas relativamente
aos príncipes e falando a respeito
das que são reais, digo que todos
os homens, máxime os príncipes,
-por. estarem mais no alto, se
fazem notar através das qualida-
des que lhes acarretam reprova-
ção ou louvor. Isto é, alguns são
tidos como liberais, outros como
miseráveis (usando o termo tos-
cano misero, porque avaro, em
nossa língua, é ainda aquele que
deseja possuir pela rapinagem, e
miseri chamamos aos que se abs-
têm muito de usar o que pos-
70 MAQUIAVEL
suem); alguns são tidos como
pródigos, outros como rapaces;
alguns são cruéis e outros piedo-
sos; perjuros ou leais; efemina-
dos e pusilânimes ou truculentos
e animosos; humanitários ou so-
berbos; lascivos ou castos; estú-
pidos ou astutos; enérgicos ou
indecisos; graves ou levianos;
religiosos ou incrédulos, e assim
por diante. E eu sei que cada qual
reconhecerá que seria muito de
louvar que um príncipe pos-
suísse, entre todas as qualidades
referidas, as que são tidas como
boas; mas a condição humana é
tal, que não consente a posse
completa de todas elas, nem ao
menos a sua prática consistente;
é necessário que o príncipe seja
tão prudente que saiba evitar os
defeitos que lhe arrebatariam o
governo € praticar as qualidades
próprias para lhe assegurar a
posse deste, se lhe é possível;
mas, não podendo, com menor
preocupação, pode-se deixar que
as coisas sigam seu curso natu-
ral. E ainda não lhe importe
incorrer na fama de ter certos
defeitos, defeitos estes sem os
quais dificilmente poderia salvar
O governo, pois que, se se consi-
derar bem tudo, encontrar-se-ão
coisas que parecem virtudes e
que, se fossem praticadas, lhe
acarretariam a ruína, e outras
que poderão parecer vícios € que,
sendo seguidas, trazem a segu-
rança e o bem-estar do gover-
nante.
CapíTULO XVI
Da liberalidade e da parcimônia
Começando, portanto, pela
primeira das qualidades enume-
radas, direi em que condições o
ser julgado liberal é um bem. A
liberalidade usada para que
gozes da fama de liberal não é
uma virtude; se é ela praticada
virtuosamente e como devido,
será ignorada e não te livrarás da
mã fama do seu contrário.
Assim, se se quiser manter entre
os homens a fama de liberal, é
necessário não omitir nenhuma
demonstração de suntuosidade,
de tal-ríodo que, nessas condi-
ções, consumirá sempre um prín-
cipe, em semelhantes obras,
todas as suas rendas. E, no fim,
se quiser manter aquela fama,
precisará de gravar O povo ex-
traordinariamente, proceder
cruelmente no fisco e fazer tudo o
que se pode fazer para ter dinhei-
ro. Isso começará a torná-lo
odioso aos olhos dos súditos, e
uma vez empobrecido cairá na
desestima dos outros; de forma
que, tendo a sua liberalidade
acarretado prejuízo a muitos e
beneficiado a outros, começa o
principe a sentir os primeiros
reveses e periga em qualquer
circunstância que ócorra. Perce-
bendo isso, e querendo retrair-se,
o- príncipe é logo tachado de
avaro. Assim, pois, não podendo
usar dessa virtude sem dano pró-
prio, de modo que seja conheci-
da, deve ele, se é prudente, des-
prezar a pecha de avarento,
porque, com o tempo, poderá
demonstrar que é cada vez mais
liberal, pois o povo verá que a
parcimônia do príncipe faz com
que a sua receita. lhe baste,
podendo ele defender-se de quem
lhe move guerra, e também lan-
çar-se em empreendimentos sem
gravar o povo, e assim está sendo:
liberal para todos aqueles de
quem nada tira, os quais são inú-
meros, e miserável para aqueles a
quem não dá nada, que são muito
poucos. Em nossos tempos, não
ED) MAQUIAVEL
vimos que fizessem grandes coi-
sas senão os que foram conside-
rados miseráveis; Os outros arrui-
naram-se. O Papa Júlio II, como
se houvesse servido da fama de
liberal para chegar ao papado,
não pensou depois em mantê-la, e
isso para poder fazer guerra con-
tra o rei de França; entrou em
muitas campanhas sem onerar os
“seus com qualquer taxa extraor-
dinária, porque, para atender às
despesas supérfluas, bastou-lhe a
sua grande parcimônia. O atual
rei da Espanha, se fosse conside-
rado liberal, não teria começado
nem vencido tantos empreendi-
mentos.
Portanto, um príncipe deve
gastar pouco para não ser obri-
gado a roubar seus súditos; para
poder defender-se; para não se
empobrecer, tornando-se despre-
zivel; para não ser forçado a tor-
nar-se rapace; e pouco cuidado
lhe dê a pecha de miserável; pois
esse é um dos defeitos que lhe
dão a possibilidade de bem rei-
nar. E se alguém disser que
César, com sua liberalidade, as-
cendeu ao império, e muitos
outros, por serem considerados
liberais, alcançaram altos postos,
résponderei que ou já és príncipe
ou estás no caminho de o ser. No
primeiro caso, esta liberalidade é
prejudicial; no segundo caso, é
necessário ser considerado libe-
ral. E César era um dos que que-
riam alcançar o poder em Roma,
mas se, depois que o alcançou,
tivesse vivido mais tempo e pros-
seguido naquelas despesas e não
as tivesse reduzido, teria des-
truído o império. Se alguém repli-
casse que houve muitos príncipes
que fizeram grandes coisas com
os seus exércitos e têm fama de
liberais, responderia eu que ou o
principe gasta o que é seu, ou dos
seus súditos, ou o que é de
outrem. No primeiro caso deve
ser sóbrio, no outro, não deve '
esquecer nenhuma liberalidade. E
ao príncipe que marcha com seus
exércitos e que vive à custa de
presas de guerra, de saques e de
reféns, e maneja o que é dos
outros, é necessária essa liberali-
dade, porque de outra forma não
seria seguido pelos seus soldados.
E é possível seres muito mais
pródigo com aquilo que te não
pertence nem aos teus súditos,
como fizeram Ciro, César e Ale-
xandre, pois gastar o que é de ou-
trem não rebaixa, pelo contrário,
eleva a reputação. Gastar o que é
seu mesmo, isso sim, é nocivo. E
não há coisa que se destrua por si
própria como a liberalidade, pois
com seu uso continuado vais per-
dendo a faculdade de usá-la e te
tornas ou pobre e necessitado,
ou, para fugir da pobreza, rapace
e odioso. E dentre as:coisas de
O PRÍNCIPE
que um príncipe se deve guardar.
estão o ser necessitado ou odioso.
E a liberalidade conduz a uma ou
a outra coisa. Assim, pois, é mais
prudente ter fama de miserável, o
que acarreta má fama sem ódio,
do que, para conseguir a fama de
liberal, ser obrigado a incorrer
também na de rapace, o que
constitui uma infâmia odiosa.'
CapíruLo XVII
Da crueldade e da piedade — se é melhor
ser amado ou temido
Continuando na exposição das
qualidades acima referidas, tenho
a dizer que cada príncipe deve
desejar ser tido como piedoso e
não como cruel: apesar disso,
deve cuidar de empregar conve-
nientemente essa piedade. César
Bórgia era considerado cruel, e,
contudo, sua crueldade havia
reerguido a Romanha e conse-
guido uni-la e conduzi-la à paz e
à fé. O que, bem considerado,
mostrará que ele foi muito mais
piedoso do que o povo florentino,
o qual, para evitar a pecha de
cruel, deixou que Pistóia fosse
destruída?2º. Não deve, portanto,
importar ao príncipe a qualifica-
ção de cruel para manter os seus
súditos unidos e com fé, porque,
com raras exceções, é ele mais
2º Florença fomentava a discórdia entre as
facções rivais de Pistóia (Panciatichi e Cancel-
leri). Em 1502, uma série de motins determi-
nou a ocupação da cidade pelo governo
florentino.
piedoso do que aqueles que por
muita clemência deixam aconte-
cer desordens, das quais podem
nascer assassínios ou rapinagem.
É que estas consequências preju-
dicam todo um povo, € as execu-
ções que provêm do príncipe
ofendem apenas um indivíduo. E,
entre todos os príncipes; os novos
são os que menos podem fugir à
fama de cruéis, pois os Estados
novos são cheios de perigo. Diz
Virgílio, pela boca de Dido:
Res dura, et regni novitas me
talia cogunt Moliri, et late fines
custode tueri? 1.
Não deve ser, portanto, cré-
dulo o principe, nem precipitado,
e não deve amedrontar-se a si
próprio, e proceder equilibrada-
mente, com prudência e humani-
dade, de modo que a confiança
21 “A dura condição das coisas e o fato
mesmo de ser recente o meu reinado obrigam-
me ao rigor e a fortificar as fronteiras.”
76 | MAQUIAVEL
demasiada não o torne incauto e
a desconfiança excessiva não Oo
faça intolerável.
Nasce dai esta questão debati-
da: se será melhor ser amado que
temido ou vice-versa. Respon-
der-se-à que se desejaria ser uma
e outra coisa; mas como é dificil
reunir ao mesmo tempo as quali-
dades que dão aqueles resultados,
é muito mais seguro ser temido
que amado, quando se tenha que
falhar numa das duas. É que os
homens geralmente são ingratos,
volúveis, simuladores, covardes e
ambiciosos de dinheiro, e, en-
quanto lhes fizeres bem, todos
estão contigo, oferecem-te san-
gue, bens, vida, filhos, como
disse acima, desde que a necessi-
dade esteja longe de ti. Mas,
quando ela se avizinha, voltam-se
para outra parte. E o príncipe, se
confiou plenamente em palavras
e não tomou outras precauções,
estã arruinado. Pois as amizades
conquistadas por interesse, e.não
por grandeza e nobreza de cará-
ter, são compradas, mas não se
pode contar com elas no momen-
to necessário. E os homens hesi-
tam menos em ofender aos que se
fazem amar do que aos que se
fazem temer, porque o amor é
mantido por um vínculo de obri-
gação, o qual, devido a serem os
homens pérfidos, é rompido sem-
pre que lhes aprouver, ao passo
que o temor que se infunde é ali-
mentado pelo receio de castigo,
que é um sentimento que não se
abandona nunca. Deve, portanto,
o príncipe fazer-se temer de ma-
neira que, se não se fizer amado,
pelo menos evite o ódio, pois é
fácil ser ao mesmo tempo temido
e não odiado, o que sucederá
uma vez que se abstenha de se
apoderar dos bens e das mulheres
dos seus cidadãos e dos seus sú-
ditos, e, mesmo sendo obrigado a
derramar o sangue de alguém,
poderá fazê-lo quando houver
Justificativa conveniente e causa
manifesta. Deve, sobretudo, abs-
ter-se de se aproveitar dos bens
dos outros, porque os homens
esquecem mais depressa a morte
do pai do que a perda de seu -
patrimônio. Além disso, não fal-
tam nunca ocasiões para pilhar o
que é dos outros, e aquele que co-
meça a viver de rapinagem sem-
pre as encontra, o que já não su-
cede quanto às ocasiões de
derramar sangue.
Mas quando o principe está
em campanha e tem sob seu
comando grande cópia de solda-
dos, então é absolutamente ne-
cessário não se importar com a
fama de cruel, porque, sem ela,
não se conseguirá nunca manter
um exército unido e disposto a
qualquer ação. Entre as admirá-
veis ações de Aníbal, enumera-se
O PRÍNCIPE 77
esta: tendo um exército muito
numeroso, composto de homens
de todas as idades e nacionali-
dades, e militando em terras
alheias, não surgiu nunca desin-
teligência alguma no seu seio,
nem com relação ao príncipe,
tanto nos bons como nos tempos
adversos. Isso não se pode atri-
buir senão à sua desumana cruel-
dade, a qual, juntamente com
infinitas virtudes, o tornou sem-
pre venerando e terrível no con-
ceito de seus soldados. E estas
virtudes, por si sós, não basta-
riam para produzir aquele efeito,
se não fora aquela desumana
crueldade. E entre escritores
pouco comedidos, alguns se con-
tentam com admirar e louvar esta
sua qualidade, outros atribuem a
ela todos os triunfos que conquis-
tou. E para provar que as outras
virtudes, por si sós, não basta-
riam, pode-se tomar como exem-
plo Cipião, homem excepcional,
não somente nos seus tempos,
mas também na memória dos
fatos que a história conserva,
cujos exércitos se revoltaram
quando na Espanha; e este fato
tem a explicação na sua dema-
siada bondade, que havia conce-
dido aos soldados mais liberdade
- Outros.
do que a que convinha à disci-
plina militar. Foi, por isso, ad-
moestado severamente no Senado
por Fábio! Máximo, que O cha-.
mou “dê “corruptor da milícia
romana. Os locrenses, tendo sido
barbaramente abatidos por um
legado de Cipião, não foram vin-
gados pelo chefe romano, nem a
insolência daquele legado foi cas-
tigada, fatos esses que nasciam
do caráter bondoso de Cipião. E,
querendo alguém desculpá-lo no
Senado, disse haver muitos ho-
mens que sabiam mais não errar
do que corrigir os erros dos
Esse traço de caráter
teria, côm o tempo, destruído a
fama e a glória de Cipião se ele
tivesse continuado no comando,
mas, vivendo sob a direção do
Senado, esta sua qualidade preju-
dicial não somente foi anulada,
mas se lhe tornou benéfica.
Concluo, pois (voltando ao
assunto sobre se é melhor ser te-
mido ou amado), que um prin-
cipe sábio, amando os homens
como eles querem e sendo por
eles temido como ele quer, deve
basear-se sobre o que é seu e não
sobre o que é dos outros. Enfim,
deve somente procurar evitar ser
odiado, como foi dito.
CapítruLo XVIII
De que forma os principes devem
guardar a fé
Quanto seja louvável a um
principe. manter a fé e viver com -
integridade, não com astúcia,
todos o compreendem; contudo,
observa-se, pela experiência, em
nossos tempos, que houve prínci-
pes que fizeram grandes coisas,
mas em pouca conta tiveram a
palavra dada, e souberam, pela
astúcia, transtornar a cabeça dos
homens, superando, enfim, os
que foram leais.
Deveis saber, portanto, que
existem duas formas de se com-
bater: uma, pelas leis, outra, pela
força. A primeira é própria do
homem; a segunda, dos animais.
Como, porém, muitas vezes a pri-
meira não seja suficiente, é preci-
so recorrer à segunda. Ao prin-
cipe torna-se necessário, porém,
saber empregar conveniente-
mente o animal e o homem. Isto
foi ensinado à socapa aos prínci-
pes, pelos antigos escritores, que
relatam o que aconteceu com
Aquiles e outros .príncipes anti-
gos, entregues aos cuidados do
centauro Quiron, que os educou.
É que isso (ter um preceptor me-
tade animal e metade homem)
significã que o príncipe sabe
empregar uma e outra natureza.
E uma sem a outra é a origem da
instabilidade. Sendo, portanto,
um príncipe obrigado a bem ser-
vir-se da natureza da besta, deve
dela tirar as qualidades da raposa
e do leão, pois este não tem defe-
sa alguma contra os laços, e a
raposa, contra os lobos. Precisa,
pois, ser raposa para conhecer os
laços e leão para aterrorizar os
lobos. Os que se fizerem unica-
mente de leóes não serão bem
sucedidos. Por isso, um príncipe
prudente não pode nem deve
guardar a palavra dada quando
isso se lhe torne prejudicial e
quando as causas que o determi-
80 dae MAQUIAVEL
naram cessem de existir. Se os
homens todos fossem bons, este
preceito seria mau. Mas, dado
que são pérfidos e que não a
observariam a teu respeito, tam-
bém não és obrigado a cumpri-la
para com eles. Jamais faltaram
aos principes razões para dissi-
mular quebra da fé jurada. Disto
poder-se-iam dar inúmeros exem-
plos modernos, mostrando quan-
tas convenções e quantas pro-
messas se tornaram irritas e vas
pela infidelidade dos príncipes. E,
dentre estes, o que melhor soube
valer-se das qualidades da raposa
saiu-se melhor. Mas é necessário
disfarçar muito bem esta quali
dade e ser bom simulador e dissi-
mulador. E tão simples são os
homens, e obedecem tanto às
necessidades presentes, que aque-
le que engana sempre encontrará
quem se deixe enganar. Não
quero deixar de falar pelo menos
de um dos exemplos novos. Ale-
xandre VI não pensou e não fez
outra coisa Senão enganar os
homens, terído sempre encon-
trado ocasião para assim proce-
der. Jamais existiu homem que
possuísse maior segurança em
asseverar, e que afirmasse com
Juramentos mais solenes o que,
depois, não observaria. No en-
tanto, os enganos sempre lhe cor-
reram à medida dos seus desejos,
pois ele conhecia muito bem este
lado da natureza humana??2. ,
Contudo, o príncipe não preci-
sa possuir todas as qualidades
acima citadas, bastando que apa-
rente possuí-las. Antes, teria eu a
audácia de afirmar que, possuin-
do-as e usando-as todas, essas
qualidades seriam prejudiciais,
ao passo que, aparentando pos-
suí-las, são benéficas; por exem-
plo: de um lado, parecer ser efeti-
vamente piedoso, fiel, humano,
integro, religioso, e de outro, ter
o ânimo de, sendo obrigado pelas
circunstâncias a não o ser, tor-
nar-se o contrário. E há de se
entender o seguinte: que um priín-
cipe, e especialmente um príncipe
novo, não pode observar todas as
Coisas a que são obrigados os ho-
mens considerados bons, sendo
frequentemente forçado, para
manter O governo, a agir contra a
caridade, a fé, a humanidade, a
religião. É necessário, por isso,
que possua ânimo disposto a vol-
tar-se para a direção a que os
ventos e as variações da sorte o
impelirem, e, como disse mais
acima, não partir do bem, mas,
podendo, saber entrar para o
mal, se a isso estiver obrigado. O
22 Dizia-se de Alexandre VI que ele nunca
fazia o que dizia, ao passo que César Bórgia
nunca dizia O que ia fazer.
O PRÍNCIPE 81
príncipe deve, no entanto, ter
muito cuidado em não deixar
escapar da boca expressões que
não revelem as cinco qualidades
acima mencionadas, devendo
aparentar, à vista e ao ouvido, ser
todo piedade, fé, integridade, hu-
manidade, religião. Não há quali-
dade de que mais se careça do
que esta última. É que os ho-
mens, em geral, julgam mais
pelos olhos do que pelas mãos,
pois todos podem ver, mas pou-
cos são os que sabem sentir.
Todos vêem o que tu pareces,
mas poucos o que és realmente, e
estes poucos não têm a audácia
de contrariar a opinião dos que
têm por si a majestade do Estado.
Nas ações de todos os homens,
máxime dos príncipes, onde não
há tribunal para que recorrer, o
que importa é o êxito bom ou
mau. Procure, pois, um príncipe,
vencer e conservar o Estado. Os
meios que empregar serão sem-
pre Julgados honrosos e louvados
por todos, porque o vulgo é leva-
do pelas aparências e pelos resul-
tados dos fatos consumados, e o
mundo é constituído pelo vulgo, e
não haverá lugar para a minoria
se a maioria não tem onde se
apoiar. Um príncipe de nossos
tempos, cujo nome não convém
declarar, prega incessantemente a
paz e a fé, sendo, no entanto, ini-
migo acérrimo de uma e de
outra?* E qualquêr delas, se ele
efetivamente a observasse, ter-
lhe-ia arrebatado, mais de uma
vez, a reputação ou o Estado.
23 Alusão a Fernando, o Católico.
CAPÍTULO XIX
De como se deve evitar o ser
desprezado e odiado
Uma vez que me referi às mais
importantes das qualidades
acima mencionadas, das outras
quero falar ligeiramente, de um
modo geral. O príncipe procure
evitar, como foi dito anterior-
mente, o que o torne odioso ou
desprezível e, sempre que assim
agir, terá cumprido o seu dever €
não encontrará nenhum perigo
nos outros defeitos. O que princi-
palmente o torna odioso, como
disse acima, é o ser rapace e
usurpador dos bens e das mulhe-
res dos seus súditos. Desde que
não se tirem aos homens os bens
e a honra, vivem estes satisfeitos
e só se deverá combater a ambi-
ção de poucos, a qual se pode
sofrear de muitos modos e com
facilidade. Fá-lo desprezível o ser
considerado volúvel, leviano, efe-
minado, pusilânime, irresoluto. E
essas são coisas que devem ser
evitadas pelo príncipe como o
nauta evita um rochedo. Deve ele
procurar que em suas ações se
reconheça grandeza, coragem,
gravidade e fortaleza, e quanto às
ações privadas de seus súditos
deve fazer com que à sua sen-
tença seja irrevogável, conduzin-
do-se de tal forma que a ninguém
passe pela mente enganá-lo ou
fazê-lo mudar de idéia.
O príncipe que conseguir for-
mar tal opinião de si adquire
grande reputação; e contra quem
é reputado dificilmente se cons-
pira e dificilmente é atacado
enquanto for tido como excelente
e reverenciado pelos seus. Um
príncipe deve ter duas razões de
receio: uma de ordem interna,
por parte de seus súditos, outra
de ordem externa, por parte dos
poderosos de fora. Defender-se-á
destes com boas armas e com
bons aliados; e se tiver armas
“terá sempre bons amigos. As coi-
84 MAQUIAVEL
"sas internas, por sua vez, estarão
sempre estabilizadas se estabili-
zadas estiverem as de fora, salvo
se aquelas já não estiverem per-
turbadas por uma conspiração.
Mesmo quando as de fora se agi-
tassem, se o príncipe tivesse
agido e vivido como escrevi, e
não desalentasse, resistiria sem-
pre a qualquer ataque, como nar-
rei acima, relativamênte ao es-
partano Nábis. A respeito dos
súditos, porém, quando as ques-
tões externas estão em calma
deve sempre recear que conspi-
rem secretamente, perigo de que
o príncipe-se afasta se não se tor-
nou odiado ou desprezado, e se
tiver feito com que o povo esteja
satisfeito com ele: e isso é neces-
sário conseguir pelas formas a
que acima se fez.longa referência.
Ora, um dos remédios mais efica-
zes que um príncipe possui con-
tra as conspirações é não se tor-
nar odiado pela população, pois
quem conspira julga sempre que
vai satisfazer os desejos do povo
com a morte dó principe; se jul-
gar, porém, que com isso ofende-
rã o povo, não terá coragem de
tomar tal partido, porque as difi-
culdades com que os conspira-
dores teriam que lutar seriam
infinitas. Vê-se, pela experiência,
que muitas têm sido as conspira-
ções, mas que poucas delas tive-
ram êxito, pois quem conspira
não pode estar só, nem pode ter
como companheiros senão aque-
les que estiverem desgostosos. E
logo que revelas as tuas intenções
a um descontente, dar-lhe-ás mo-
tivo de contentamento, pois ele
pode esperar qualquer vantagem
de traição do segredo, e de forma
que, vendo deste lado só ganhos
certos, e, de outro, só vendo dúvi-
das e muitos perigos, somente um
amigo, como raros, ou um inimi-
go implacável do principe se
conservará fiel à conspiração.
Em suma, direi que, por parte do
conspirador, não há senão medo,
inveja e a suspeita da punição,
que o atormenta; por parte do
principe existe a majestade do
principado, as leis, a defesa dos
amigos e do Estado, que o res-
guardam: tanto que, acrescen-
tando a tudo isso a estima popu-
lar, é impossível que exista
alguêm tão temerário que se aba-
lance a conspirar. Ordinaria-.
mente, o que um conspirador re-
ceia antes de levar a efeito o mal
deverá recear também depois,
tendo o povo por inimigo, depois
do fato consumado, e não poderá
por isso esperar qualquer refúgio.
Poderia eu citar numerosos
exemplos desta matéria: limitar-
me-ei, porém, a um só, que nos
foi legado pela recordação de
nossos pais. Tendo sido assassi-
nado pelos Canneschi o senhor
O PRÍNCIPE 85
de Bolonha, Messer Aníbal Ben-
tivoglio, avó: do atual Messer
Aníbal, não ficando da família
senão Messer Giovanni, criança
de colo, O povo, logo depois do
homicídio, sublevou-se & matou
todos os Canneschi. Isso foi devi-
do à benevolência popular com a
qual a casa dos Bentivoglio con-
tava naquela época, benquerença
essa tão grande que, não tendo
restado em Bolonha um só mem-
bro daquela família, que pudesse, .
morto Aníbal, governar o Esta-
do, e havendo indício de que
havia em Florença um jovem
pertencente aquela família, e tido,
até então, como filho de um fer-
reiro, os bolonheses ali foram
procurá-lo e lhe entregaram o
governo da cidade, que foi gover-
nada por ele até que Messer Gio-
vanni alcançasse idade suficiente
para reinar.
Concluo, portanto, afirmando
que a um príncipe pouco devem
importar as conspirações se é
amado pelo povo, mas quando
este é seu inimigo e o odeia, deve
temer tudo e a todos. Os Estados
bem organizados e os príncipes
prudentes preocuparam-se sem-
pre em não reduzir os grandes ao
desespero e satisfázer e contentar
o povo, porque essa é uma das
questões mais importantes que .
um principe deve ter em mente.
Em nossos tempos, entre es rei-
nos bem organizados e governa-
dos, deve-se enumerar o de Fran-
ça. Encontram-se nele numerosas
boas instituições, das quais de-
pendem a liberdade e a segurança
do rei. A primeira delas é o Par-
lamento e a autoridade que pos-
sui, pois o homem que organizou
aquele reino, conhecendo, de um
lado, a ambição e a insolência
dos poderosos, e julgando neces-
sário pór-lhes um freio à boca
para corrigilos, e, de outro,
conhecendo o ódio do povo con-
tra os grandes, motivado pelo
medo, e querendo protegê-los,
não permitiu que essa tarefa
ficasse a cargo do rei, para
desculpá-lo da acusação dos
grandes quando favorecesse o
povo, e do povo quando favore-
cesse os poderosos. Por isso
constituiu um terceiro juízo que
fosse aquele que, sem responsabi-
lidade do rei, deprimisse os gran-
des e favorecesse: os menores.
Essa organização não podia ser
melhor nem mais prudente, nem
se pode negar que seja a melhor
causa de segurança do rei e do
reino. Pode-se daí tirar notável
instituição; os príncipes devem
encarregar a outrem da imposi-
ção de penas; os atos de graça,
pelo contrário, só a eles mesmos,
em pessoa, devem estar afetos.
Concluo novamente que um prín-
cipe deve estimar os grandes,
86 MAQUIAVEL
mas não se tornar odiado pelo
povo.
Poderia parecer a muitos, con-
siderando-se a vida e morte de
certos imperadores romanos, que
constituíssem exemplos contrá-
rios a esta minha opinião, sendo
que alguns deles, apesar de terem
vivido sempre exemplarmente e
demonstrado possuir grandes vir-
tudes, perderam o poder, ou
foram mortos pelos seus, que
contra ele conspiraram. Dese-
jando responder a estas objeções,
narrarei as causas da sua ruína,
que são diferentes das que aduzi,
procurando tomar particular-
mente em consideração aquelas
que parecem notáveis a quem lé
as ações daqueles tempos. Bas-
ta-me citar todos os imperadores
que se sucederam no governo,
desde o filósofo Marco Aurélio
até Maximino, os quais foram
Marco, seu filho Cômodo, Perti-
nax, Juliano, Severo, o filho deste
— Antonino, Caracala, Macrino,
Heliogábalo, Alexandre e Maxi-
mino. - Deve-se primeiramente
atentar em que, enquanto nos ou-
tros principados é necessário
lutar apenas contra a ambição
dos grandes e a insolência do
povo, os imperadores romanos ti-
nham pela frente uma terceira
dificuldade, que era a de ter que
suportar a crueldade e a rapaci-
dade dos soldados. Esta dificul-
dade era tão grande que se tor-
nou a causa da ruína de muitos,
pois é difícil satisfazer a um
tempo aos soldados e ao povo,
pois que este, amante da paz,
amava, consequentemente, os
principes modestos, e os soldados
estimavam o príncipe que pos-
suísse ânimo guerreiro e que
fosse insolente, cruel e rapace.
Queriam que ele usasse dessas
qualidades contra o povo para
"poder ganhar soldo dobrado e
dar largas à sua rapacidade e
crueldade. Isso fez com que os
imperadores que, por natureza ou
por habilidade, não tinham repu-
tação suficiente para refrear os
soldados nem o povo sempre se
arruinassem. E a maior parte
deles, especialmente os novos que
conquistavam o principado, ao
conhecerem a dificuldade desses
dois elementos, procuravam sa-
tisfazer aos soldados, não dando
- importância às ofensas ao povo;
era necessário tomar esse parti-
do, pois, não -sendo possivel aos
principes deixar de ser odiados
por alguém, deviam eles esfor-
çar-se antes de mais nada por
não ser odiados pela maioria. E
quando não o podem conseguir,
devem procurar, com muita habi-
lidade, fugir ao ódio das maiorias
mais poderosas. Por isso; os
imperadores que, por serem
novos, precisavam de favores
O PRÍNCIPE 87
extraordinários, aderiram aos
soldados antes de aderir ao povo,
o que se lhes tornava útil ou não,
conforme esse principe soubesse
manter à reputação entre eles.
Por estas causas referidas é que
Marco, Pertinax e Alexandre, ho-
mens de vida modesta, amantes
da justiça, inimigos da crueldade,
humanos e benignos, todos, com
exceção de Marco, tiveram triste
fim. Só este viveu e morreu
honradíssimo porque chegou ao
poder jure hereditario? * e não lhe
era necessário fazer reconhecer o
seu poder, nem pelo povo, nem
pelos soldados. Ademais, sendo
portador de muitas virtudes, que
o tornavam venerando, enquanto
viveu, sempre manteve a ambos,
povo e exército, em ordem, nos
seus justos termos, e nunca foi
odiado nem desprezado. Perti--
nax, porém, foi feito imperador
contra a vontade dos soldados,
os quais, tendo sido habituados a
viver licenciosamente sob o do-
mínio de Cômodo, não puderam
suportar a vida honesta que Per-
tinax tencionava impor-lhes. Por
isso, tendo ele despertado ódio, e
tendo-se ao ódio juntado o des-
prezo, pelo fato de ser velho, Per-
tinax arruinou-se logo nos princi-
pios de sua administração. E é de
notar-se aqui que o ódio se
24 Por direito hereditário.
adquire quer pelas boas, quer
pelas más ações. Por isso, um
príncipe, querendo manter o Es-
tado como disse mais acima, é
frequentemente obrigado a não
ser bom, porque quando aquela
maioria, povo, soldados ou gran-
des que sejam, de que tu julgas
ter necessidade para te manteres
no poder, é corrompida, convém:
que sigas o seu pendor para satis-
fazê-la, e, nesse caso, as boas
ações são prejudiciais. Mas fale-
mos de Alexandre, que foi tão
bondoso que entre os louvores
que se lhe atribuem está o de não
ter, durante os catorze anos que
manteve o império, mandado .
executar quem quer que fosse
sem prévio julgamento. Apesar
disso, sendo considerado efemi-
nado e homem que se deixava
dominar pela mãe e tendo por
isso caído no desprezo, o exército
conspirou e ele foi assassinado.
Falando, agora, de outro lado,
das qualidades de Cômodo, Seve-
ro, Antonino, Caracala e Maxi-
minó, vereis que foram extrema-
mente cruéis e rapaces. Para
satisfazer os soldados, não deixa-
ram de cometer nenhuma daque-
las injúrias que se pudessem
cometer contra o povo, e todos,
excetuando-se Severo, tiveram
triste fim. É que Severo foi tão
valoroso que, mantendo a amiza-
de dos soldados, embora opri-
88 MAQUIAVEL
mindo o povo, pôde sempre rei-
nar com felicidade, porque
aquelas suas virtudes o tornavam
tão admirável no conceito dos
soldados e do povo, que este fica-
va, de certa forma, atônito, e
aqueles, reverentes e satisfeitos.
Conhecendo Severo a ignávia do
Imperador Juliano, persuadiu o
exército, do qual era capitão na
Ilíria, de que era oportuno ir a
Roma, para vingar a morte de
Pertinax, assassinado pelos pre-
torianos, e, sob esse pretexto, sem
aparentar que aspirava ao poder,
conduziu o seu exército contra
Roma, e chegou à Itália antes
mesmo da notícia da sua partida.
Chegado a Roma, foi ele, pela
pressão do medo, eleito impera-
dor pelo Senado, e assassinado
Juliano. Depois disso, restavam
ainda duas dificuldades a Severo
para se assenhorear de todo o
Estado: uma, na Ásia, onde Pes-
cênio Negro, chefe dos exércitos
“asiáticos, se proclamara impera-
dor; e outra no Ocidente, onde
Albino também queria súbir ao
império. E como julgasse peri-'
goso declarar-se inimigo dos
dois, deliberou atacar Pescênio
Negro e enganar Albino. A este
escreveu que, tendo sido eleito
imperador pelo Senado, queria
“dividir com ele aquela honra;
mandou-lhe o título de César e,
por deliberação do Senado; tor-
nou-o seu colega. Albino julgou
que tais coisas fossem verdade,
mas Severo, depois de ter vencido
e morto Pescênio Negro e pacifi-
cado o Oriente, voltou a Roma e
se queixou no Senado de que
Albino, esquecido dos benefícios
dele recebidos, tentara matá-lo
traiçoeiramente e, por isso, era
obrigado a ir punir a ingratidão.
Depois, foi ao seu encontro, nas
Gálias, e lhe tirou o governo e a
vida. Quem examinar cuidadosa-
mente as ações deste homem aca-
bará por julgá-lo um ferocissimo
leão e uma astutíssima raposa e
verá que foi temido e reveren-
ciado por todos e não odiado
pelo exército, e não se admirará
se ele — homem novo — pôde
manter tão grande poder; é que a
sua alta reputação o defendeu
sempre daquele ódio que o povo
lhe poderia ter votado, em virtu-
de das suas rapinagens. E Anto-
nino, seu filho, foi também
homem que tinha excelente pro-
ceder, que o tornava maravilhoso
no conceito do povo e benquisto
pelos soldados, porque era mili-
tar, suportava otimamente qual-
quer fadiga e desprezava os man-
jares delicados e quaisquer
outros elementos de conforto:
isso era o suficiente para fazer
' Com que se tornasse estimado por
todos os exércitos. Não obstante,
sua ferocidade e crueldade foram
|
|
O PRÍNCIPE 89
tão grandes e inauditas, que man-
dou matar grande número de
particulares e assim sacrificou
grande parte do povo de Roma e
todo o de Alexandria, de tal
modo que se tornou muitíssimo
odiado por todos e começou a ser
temido também por aqueles que
com ele privaram e, afinal, foi
assassnado por um centurião,
em meio de seu exército. É de
notar-se neste ponto que tais
assassínios, deliberados por ho-
mens obstinados, são impossíveis
de evitar pelos príncipes, pois que
todo aquele que não temer a
morte poderá executá-los. Não
deve, porém, o principe temori-
“zar-se, porque são muito raros.
Deve apenas guardar-se de não
injuriar gravemente alguma das
pessoas de que se serve e que ele
tem junto a si, a serviço do seu
principado, como fez' Antonino.
Havia este assassinado indigna-
mente um irmão daquele centu-
rião, € ainda ameaçava este todo
dia; mas, apesar disso, conser-
vou-o na.sua guarda, O que vinha
a ser coisa-temerária e capaz de
arruiná-lo, como aconteceu.
Passemos agora a Cômodo, a
quem teria sido fácil manter o
poder, por tê-lo alcançado jure
hereditário, sendo filho de
Marco, e lhe bastava apenas se-
guir as pegadas do pai para con-
tentar o exército e o povo. Mas,
como era de índole cruel e bes-
tial, para poder usar da sua rapa-
cidade contra o povo, pôs-se a
favorecer os soldados e os tornou
licenciosos; por outra parte, não
se preocupando com a dignidade,
descendo frequentemente às are-
nas para combater com os gla-
diadores e fazendo outras coisas
vis, pouco dignas da majestade.
imperial, tornou-se desprezível
no conceito dos soldados. Ten-
do-se tornado, dessa forma, odia-
do por uns e desprezado por
outros, conspirou-se contra ele e
foi assassinado. Resta-nos narrar
as qualidades de Maximino. Este
foi homem extraordinariamente
belicoso, e, estando os exércitos
enfastiados com a passividade de
Alexandre, de que falei acima,
morto este, elegeram-no para o
governo. Maximino, porém, não
reinou por muito tempo, porque
duas coisas o tornaram odiado e
desprezado:. primeiro, ser de
baixa extração, pois já fora pas-
tor na Trácia (fato que era conhe-
cido por todos e o rebaixava
muito no conceito de toda a
gente); segundo, tendo, quando
da sua elevação ao império, adia-
do a sua ida a Roma para entrar
na posse da dignidade imperial,
dera de si fama de ser muito
cruel, pois, por intermédio dos
seus prefeitos, em Roma e em
toda a parte, perpetrara numero-
90 MAQUIAVEL
sas perversidades. Assim, movi-
do todo o mundo pelo desprezo
de sua baixa ascendência e cheio
de ódio pelo temor da sua feroci-
dade, surgiram as conspirações.
Revoltou-se primeiramente a
África; depois, o Senado e todo o
povo romano, e, mais tarde, toda
a Itália esteve contra ele. Juntou-
se a esse movimento o seu pró-
prio exército, o qual estava em
campanha, sitiando Aquiléia, e,
tendo encontrado dificuldade
para isso, enraivecido pela cruel-
dade do príncipe, suprimiu-o,
pois o viu cercado de inimigos €
já não o temia.
Não quero falar de Heliogá-
balo, nem de Macrino, nem de
Juliano, os quais, por terem sido
inteiramente menosprezados, ex-
tinguiram-se logo; não quero
falar destes, dizia, e sin passar à
conclusão deste assunto. Assim,
digo que os príncipes dos nossos
tempos no seu governo não têm
esta dificuldade de dar satisfa-
ções exorbitantes aos soldados,
pois, não obstante se deva ter
para com aqueles certa conside-
ração, rapidamente resolve-se a
situação, por não ter nenhum
desses príncipes um exército que
se tenha desenvolvido com os
governos e administrações das
províncias, como era nos exérci-
tos do Império: Romano. E, se
naquela época era necessário sa-
tisfazer mais aos soldados do que
ao povo, agora é mais necessário
a todos os príncipes — exceto ao
grão-turco e ao sultão do Egito
— satisfazer mais ao povo do
que ao exército, porque este é
menos poderoso do que aquele.
Excetuo o grão-turco pelo fato de
conservar este em torno de si
doze mil infantes e quinze mil
soldados de cavalaria, sendo que
disso dependem a segurança e o
poder do seu reino. É necessário,
portanto, que, em lugar de qual-
quer outra consideração para
com outrem, aquele seja amigo
dos exércitos. A mesma coisa su-
cede ao reino do sultão do Egito;
estando tudo nas mãos dos solda-
dos, convém também a ele man-
tê-los como seus amigos, sem se
preocupar com o povo.
E deve-se notar que este reina-
do do sultão é diferente de todos
os outros principados porque é
semelhante ao papado, o qual
não se pode classificar nem como
principado hereditário, nem
como principado novo, posto que
não são os filhos do príncipe an-
tigo que se tornam herdeiros e
ficam senhores, mas sim aqueles
que são elevados a esse posto por
aqueles que têm autoridade. E,
como isso seja uma antiga imsti-
tuição, não se pode chamar de
principado novo; e também por-
!
O PRÍNCIPE 91
que naqueles não existem as difi-
culdades existentes nestes, pois,
embora o principe seja novo, a
organização do Estado é velha. E
os govêrnantes são obrigados a
recebê-lo como se fossem senho-
res hereditários.
Voltemos, porém, ao nosso
assunto. Direi que quem conside-
rar o que acima referi verá como
o ódio ou o desprezo foram cau-
sas da ruína dos imperadores
mencionados e conhecerá tam-
bém os motivos por que, parte
daqueles procedendo de uma
forma, e outros, de maneira con-
trária, alguns deles terminaram
bem e outros tiveram triste fim; e
também por que a Pertinax e Ale-
xandre, por serem principes
novos, foi inútil e danoso querer
imitar Marco, que no principado
estava jure hereditario. Igual-
mente, por que a Caracala, Có-
modo e Maximino foi pernicioso
imitar a Severo, por não terem
possuído tanta virtude que bas-
tasse para que pudessem seguir-
lhe o caminho. Um príncipe
novo, num principado novo, não
pode, portanto, imitar as ações
de Marco, nem da mesma forma,
é necessário imitar as de Severo.
Deve, sim, aproveitar de Severo
as qualidades que forem necessá-
rias para fundar o seu Estado, e,
de Marco, aproveitar as que
sejam gloriosas e convenham
para manter um Estado que já es-
teja estabelecido e firme.
CAPÍTULO XX
e
Se as fortalezas e muitas outras coisas que dia a dia
são feitas pelo principe são úteis ou não
Alguns príncipes, para manter
seguramente o Estado, desarma-
ram os seus súditos, outros divi-
diram as cidades conquistadas
conservando facções para com-
bater-se mutuamente, outros ali-
mentaram inimizades contra si
mesmos, outros dedicaram-se à
conquista do apoio daqueles que
lhes eram suspeitos no início de
seu governo, alguns outros edifi-
caram fortalezas, outros, ainda,
as arruinaram. E, se bem que
todas estas coisas não se possam.
julgar em definitivo se não se
examinarem as particularidades
dos Estados onde se tivesse que
tomar qualquer destas delibera-
ções, falarei contudo de um
ponto de vista' geral, compatível
com a própria matéria.
Nunca um príncipe novo de-
sarmou os seus súditos, antes,
sempre que os encontrou desar-
mados, armou-os. Essas armas
ficarão tuas e se tornarão fiéis
aqueles que te eram suspeitos, .
mantêm-se fiéis aqueles que já o
eram, e de súditos se trans-
formam em teus auxiliares. E
como não se pode armar a todos
os súditos, uma vez que benefi-
cies aqueles a quem armas, podes
“agir mais seguramente com rela-
ção aos outros. A diferença de
tratamento para com aqueles
obriga-os para contigo, € os ou-
tros desculpar-te-ão julgando ne-
cessário que maior recompensa
tenham os que estão expostos a
maiores perigos e estão mais liga-
dos a ti por efeito mesmo dessas
obrigações.
Desarmando-os, principias por
ofendê-los, mostrando que duvi-
das deles, seja porque és covarde,
seja porque não confias neles.
Qualquer destas opiniões criará
ódio contra ti. E como não podes
ficar desarmado, convém que te
94 | MAQUIAVEL
voltes para a milícia mercenária,
cujas qualidades acima referi.
Mesmo que fosse boa, não pode
ter tanta força suficiente para te
defender dos inimigos poderosos,
e dos súditos suspeitos. Como
disse, um novo príncipe, num
principado novo, sempre organi-
zou a força armada. Destes
exemplos a história está cheia.
Mas quando um príncipe con-
quista um novo Estado que seja
anexado aos domínios, então é
necessário desarmar aquele Esta-
do, exceto aqueles que tenham
colaborado contigo para que o
conquistasses, e mesmo a estes é
necessário, com o tempo, tornar
apáticos e amolecidos, de modo
que todas as armas desse Estado
estejam com teus próprios solda-
dos, que viviam junto de ti no Es-
tado antigo.
Os nossos antepassados e
aqueles que eram tidos como pru-
dentes, costumavam dizer que
Pistóia tinha de ser mantida pela
divisão dos partidos, e Pisa pelas
fortalezas, e assim agiam de
maneira diversa nas cidades con-
quistadas para poder conservá-
las mais facilmente. Essa era a
política mais sábia provavel-
mente, naqueles tempos em que a
Itália estava de certo modo equi-
librada, mas não creio que possa
servir hoje como preceito; não
acredito que as divisões trouxes-
sem qualquer bem; antes, pelo
- contrário, acontece que, quando
o inimigo se avizinha, as cidades
divididas perdem-se logo, porque
a parte mais fraca aderirá às for-
ças externas e a outra não se
poderá manter. Os venezianos,
obedecendo, como creio, as ra-
zoes mencionadas, costumavam
fomentar as facções guelfas e
gibelinas nas cidades que esta-
vam sob o seu domínio. E, se
bem que não os deixassem chegar
atê à luta, alimentavam essas
discordâncias, para que, ocupa-
dos os cidadãos naquelas suas
diferenças, não se unissem contra
eles. Isso, como se viu, não lhes
deu bons resultados, porque,
tendo os venezianos sido desba-
ratados em Vailáã, algumas da-
quelas cidades tomaram ânimo e
lhes arrebataram todos os territó-
rios. Tal política revela, portanto,
fraqueza do principe, porque
num principado poderoso jamais
se permitirão semelhantes divi-
soes; elas são proveitosas apenas
nos tempos de paz, podendo-se
mediante esse sistema governar
os súditos mais facilmente. Em
vindo a guerra, porém, percebe-se
a sua falácia. Os príncipes se tor-
nam grandes, sem dúvida, quan-
do superam as dificuldades e a
oposição que se lhes movem.
Assim, a fortuna, máxime quan-
do quer engrandecer a um novo
!
O PRÍNCIPE 95
príncipe, o qual tem mais necessi-
dade de conquistar reputação do
que um hereditário, suscita-lhe
inimigos que o guerrejam a fim
de que tenha ele a oportunidade
de vencê-los e subir mais, valen-
do-se daquela escada que os pró-
prios inimigos lhe estendem.
Muitos julgam, por isso, que um
príncipe sábio, quando tiver oca-
sião, deve fomentar com astúcia
certas inimizades contra ele
mesmo, a fim de que pela vitória
sobre os inimigos mais se possa
engrandecer. Os príncipes, e prin-
cipalmente os recentes, têm en-
contrado mais fé e maiores utili-
dades nos homens que no início
do seu governo lhes eram suspei-
tos, do que naqueles que, naquela
ocasião, lhes haviam inspirado
confiança. Pandolfo Petrucci, se-
nhor de Siena, dirigia o Estado
mais com o auxílio daqueles de
quem suspeitara do que daqueles
em que tivera confiança. Mas de
tal matéria não é possível estabe-
lecer regras gerais, pois variam
muito as circunstâncias de cada
caso. Direi apenas que os ho-
mens que foram hostis à funda-
ção de um novo governo, para
manter-se, carecem eles mesmos
de apoio, e o príncipe sempre
poderá conquistá-los com grande
facilidade. Eles, por sua vez, são
forçados a servilo com tanto
maior lealdade quanto reconhe-
çam a necessidade de anular,
pelas ações, aquela péssima opi-,
nião que tinha o príncipe a seu
respeito. Assim, a este aproveil-
tam mais os serviços dos antigos
adversários do que os daqueles
que, por ter demasiada seguran-
ça, negligenciam os interesses do
príncipe.
Agora, como a matéria mesma
o proporciona, não quero deixar
de lembrar aos príncipes que te-
nham tomado recentemente a
direção de um Estado, mediante
o favor da população, que consi-
derem bem que razão os terá le-
vado a favorecê-los: e se ela não
for afeição natural para com eles,
e sim o descontentamento cóm o
antigo governo, ao principe só
muito dificilmente será possível
conservar a amizade daqueles,
pois será impossivel satisfazê-los.
E considerando bem, com os
exemplos que há das coisas anti-.
gas e modernas, relativamente à
razão deste fato, ver-se-á que ao
principe é muito mais fácil con-
quistar a amizade daqueles ho-
mens que estavam contentes com
o regime antigo, sendo, portanto,
seus inimigos, do que a daqueles
que, por descontentes, fizeram-se
seus amigos €e aliados, ajudando-
o na conquista do Estado.
Tem sido hábito dos príncipes,
para poder manter mais segura-
mente o seu Estado, edificar for-
96 MAQUIAVEL
talezas que sejam o bridão e o
freio dos que tivessem a intenção
de atacá-lo, e possuir um refúgio
seguro no caso de sofrer um ata-
que inesperado. Louvo este modo
de agir, porque é usado desde os
tempos remotos; apesar disso,
Messer Niccolo Vitell, em nos-
sos tempos, viu-se na contin-
gência de destruir duas fortalezas
na Cidade do Castelo para poder
manter aquele Estado. Guido
Ubaldo, duque de Urbino, recon-
quistando o seu domínio, de onde
fora expulso por César Bórgia,
destruiu, desde os alicerces, todas
as fortificações daquela provin-
cia, e julgou que sem elas seria
mais difícil perder o Estado no-
vamente. Os Bentivoglio, regres-
sando a Bolonha, tiveram o
mesmo procedimento. As fortale-
zas, portanto, são úteis ou não
segundo as circunstâncias, e se
fazem bem, por um lado, arruí-
nam-te por outro. Pode-se expli-
car este fato da seguinte maneira:
o príncipe que tiver mais medo
do seu povo do que dos estran-
geiros deve construir fortifica-
ções, mas aquele que tiver mais
temor dos estranhos do que do
povo não deve preocupar-se com
isso. O castelo de Milão, - edifi-
cado por Francesco Sforza, foi e
será maior motivo de perturba-
ções para a casa dos Sforza do
que outra coisa naquele Estado.
Mas ainda a melhor fortaleza que
possa existir é o não ser odiado
pelo povo, pois que, se tiveres
fortificações e fores odiado por
ele, elas não poderão salvar-te,
pois não faltam nunca aos povos
rebelados principes estrangeiros
que desejem ajudá-los. Em nos-
sos tempos, observa-se que as
fortalezas não deram proveito a
nenhum principe, a não ser à
Condessa de Forli, quando mor-
reu o Conde Girolamo?*º, seu
esposo, porque graças às fortale-
zas ê que pôde escapar à fúria
popular e esperar socorros de
Milão, conservando assim o seu
Estado. E a época era tal que os
de fora não podiam socorrer o
povo. Sem embargo, também à
Condessa de Forh as fortalezas
pouco adiantaram, quando César
Bórgia lhe assaltou o Estado e o
povo, inimigo daquela, formou
ao lado do conquistador. Portan-
to, quer nessa ocasião, quer
antes, teria sido mais seguro para
ela não ser odiada pelo povo do
que possuir fortalezas. Conside-
rando-se, pois, todas estas coisas,
louvarei os que construírem for-
talezas e também os que não as
construírem, e lamentarei aqueles
25 Ver no índice dos nomes citados o nome
Senhora de Forli
O PRÍNCIPE 97
que, fiando-se em tais meios de o fato de serem odiados pelo
defesa, não se preocuparem com povo.
“CAPÍTULO XXI
O que a um principe convém realizar
para ser estimado
Nada faz estimar tanto um
principe como os grandes em-
preendimentos e o dar de si raros
exemplos. “Temos, nos nossos
tempos, Fernando de Aragão,
atualmente rei de Espanha. A
“este príncipe pode-se chamar
quase que de novo, porque de um
rei fraco se tornou, pela fama .e
pela glória, o primeiro rei cristão;
e se considerardes as suas ações,
vereis que são todas altíssimas,
havendo algumas extraordi-
nárias. No começo de seu reina-
do, assaltou Granada, e esse
empreendimento constituiu a
base de seu Estado. Primeiro,
agiu despreocupadamente e com
a certeza de que não seria impe-
dido: os barões de Castela, com a
atenção presa na guerra referida,
não cogitavam de fazer inova-
ções. Fernando conquistava,
então, naquele meio, reputação e
autoridade sobre eles, que disso
não se apercebiam. Com dinheiro
da Igreja e do povo, pôde manter
exércitos e, por uma longa guer-
ra, assentar as bases do seu pró-
prio renome como militar. Além
“disso, para poder lançar-se em
maiores empresas, servindo-se
sempre da religião, dedicou-se a
uma piedosa crueldade expul-
sando e livrando seu reino dos
marranos, exemplo extremo de
piedade. Sob essa mesma capa de
religião, assaltou a África; levou
a efeito a expedição da Itália;
mais tarde, assaltou a França, e
assim sempre fez e urdiu grandes
coisas, que mantiveram sempre
em suspenso e cheios de admira-
ção os ânimos de seus súditos,
empolgados pela espera do suces-
so final desses feitos. E nasceram
estas suas ações de tal modo que,
entre uma e outra, nunca deu
tempo aos homens de poder agir
contra ele. É ainda muito conve-
100 MAQUIAVEL
niente a “um principe dar raros
exemplos quanto ao seu governo
(semelhante aqueles que se nar-
ram de Messer Bernabo de
Milão); quando alguém tenha
realizado qualquer coisa de ex-
traordinário, de bem ou de mal
na vida civil, para premiá-lo ou
punilo o príncipe deve agir de
modo tal que dê margem a largos
comentários. E, sobretudo, deve
um príncipe trabalhar no sentido
de, em cada ação, conquistar
fama de grande homem. É ainda
estimado um príncipe quando
sabe ser verdadeiro amigo e ver-
dadeiro inimigo, isto é, quando,
sem qualquer preocupação, age
abertamente em favor de alguém
contra um terceiro. Esse partido
será sempre mais útil do que o
conservar-se neutro, porque se
dois poderosos vizinhos teus se
puserem a brigar, ou são de qua-
lidade que, vencendo um deles,
tenhas que temer o vencedor, ou
não. Em qualquer caso ser-te-á
sempre mais útil descobrir-te e
fazer guerra de fato, porque no
- primeiro caso, se não te descobri-
res, serás sempre presa de quem
vencer, com grande prazer da-
quele que foi vencido, e não tens
razão nem coisa alguma em tua
defesa, nem quem te acolha.
Quem vence não quer amigos
suspeitos e que não ajudem nas
adversidades; quem perde não te
aceitará porque não quiseste, de
armas na mão, correr a mesma
sorte. Foi Antíoco para a Grécia
a chamado dos etólios para ex-
pulsar. os romanos. Antioco en-
viou embaixadores aos aqueus,
que eram aliados dos romanos,
para concitá-los a se manterem
neutros; por outro lado, os roma-
nos tratavam de persuadi-los
para que tomassem armas contra
aquele. Esta matéria veio a discu-
tir-se no concílio dos aqueus,
onde o delegado de Antíoco tra-
tava de fazer com que se manti-
vessem neutros, ao que o dele-
gado dos romanos respondeu:
Quod autem isti dicunt non inter-
ponendi vos bello, nihil magis
alienum rebus vestris est; sine
gratia, sine dignitate, praemium
victoris eritis2 8”. E acontecerá
sempre que aquele que não é teu
amigo pedir-te-à que sejas neutro
e aquele que é teu amigo pedirá
que tomes de armas abertamente.
E os príncipes irresolutos, para se
afastarem destes perigos, seguem,
as mais das vezes, aquela linha
neutra, e quase sempre são mal
sucedidos. Mas quando corajosa-
mente tomas partido franco por
um dos contendores, se aquele
com quem te ligaste vencer,
28 “Quanto à opinião de que não deveis inter-
vir na guerra, nada é mais nocivo aos vossos
próprios interesses, pois sem compensação e
ingloriamente. sereis presa do vencedor.”
O PRÍNCIPE
ainda que seja poderoso e que fi-
ques à sua mercê, terá ele obriga-
ções para contigo e é compelido
a ter amizade por ti; e os homens
não são nunca tão maus que
queiram oprimir a quem devem
ser gratos. Ademais, as vitórias
não são nunca tão completas que
o vencedor não tenha que levar
em conta outras considerações,
principalmente de justiça.
Mas, se aquele a quem ajudas
perder, serás socorrido por, ele
quando puder, e, nesse caso, fica-
rás ligado a uma fortuna que
pode ressurgir. No segundo caso,
quando os combatentes são tais
que não tenhas de te arrecear da
vitória de qualquer, a tua aliança
com um deles é tanto mais pru-
dente quanto assim provocarás a
ruína de um com o auxílio de
quem o deveria salvar, se fosse
sábio, e vencendo tu, o teu aliado
ficará à tua discrição € é impos-
sivel que não vença com a tua
ajuda.
Note-se agora que um príncipe
deve ter o cuidado de nao fazer
aliança com um que seja mais
poderoso, senão quando a neces-
sidade o compelir, como se expôs
acima, pois que, vencendo, ficará
prisioneiro do aliado; e os prínci-
pes devem evitar o mais que pos-
sam a situação de estar à mercê
de outrem. Os venezianos alia-
ram-se à França contra o duque
101
de Milão, e podiam deixar de efe-
tuar tal união; e desse fato resul-
tou a ruína deles. Mas quando
não se pode deixar de fazer alian-
ça, como aconteceu com os flo-
rentinos quando o papa e a Espa-
nha foram assaltar a Lombardia
pelas armas, então o príncipe
deve aderir, pelas razões acima.
Não pense nunca nenhum gover-
no poder tomar decisões absolu-
tamente certas; pense antes em
ter que tomá-las sempre incertas,
pois isto está na ordem das coi-
sas, que nunca deixa, quando se
procura evitar algum inconve-
niente, de incorrer em outro. A
prudência está justamente em
saber conhecer a natureza dos
inconvenientes e adotar o menos
prejudicial como sendo bom.
Deve ainda um principe mos-
trar-se amante .das virtudes e
honrar os que se revelam grandes
numa arte qualquer. Além disso,
deve animar os seus cidadãos a
exercer livremente as suas ativi-
dades, no comércio, na agricul-
tura e em qualquer outro terreno,
de modo que o agricultor não
deixe de enriquecer as suas pro-
priedades pelo temor de que lhe
sejam arrebatadas e o comer-
ciante não deixe de desenvolver o
seu negócio por medo de impos-
tos. Pelo contrário, deve instituir
prêmios para os que quiserem
102 MAQUIAVEL
realizar tais coisas e para todos
os que, por qualquer maneira,
pensarem em ampliar a sua cida-
de ou o seu Estado. Além disso,
deve, nas épocas propícias do
ano, proporcionar ao povo festas
e espetáculos. E como todas as
cidades estão divididas em artes
ou corporações de ofício, deve
ocupar-se muito destas, indo ao
seu encontro algumas vezes: dar
provas de afabilidade e munifi-
cência, mantendo sempre inte-
gral, contudo, a majestade da sua
dignidade, a qual não deve faltar
em nada.
CapítruLO XXII
Dos ministros dos principes
Não é de pequena importância
para um principe a escolha dos
seus ministros, os quais são bons
ou não segundo a prudência
daquele. E a primeira conjetura
que se faz, a respeito das qualida-
des de inteligência de um priínci-
pe, repousa na observação dos
homens que ele tem ao seu redor.
Quando estes são competentes e
fiéis, pode-se reputá-lo sábio,
porque soube reconhecer as qua-
lidades daqueles e mantê-los fiéis.
Mas quando não são assim, po-
de-se ajuizar sempre mal do
senhor, porque o primeiro erro
que cometeu está nessa escolha.
Não houve ninguém que, conhe-
cendo a Messer Antônio da Ve-
nafro como ministro de Pandolfo
Petrucci, senhor de Siena, não
Julgasse a este um homem de
muito valor pelo fato de ter esco-
lhido Venafro para seu ministro.
E como há três espécies de cabe-
ças — uma, que entende as coi-
sas por si mesma, outra que sabe
discernir o que os outros enten-
dem, e, finalmente, uma que não
entende nem por si nem sabe
ajuizar do trabalho dos outros (a
primeira é excelente, a segunda
muito boa e a terceira inútil) —,
estavam todos de acordo, neces-
sariamente, que,.se Pandolfo não
estava no primeiro caso, estava
pelo menos no segundo. Umia vez
que se tem capacidade para co-
nhecer o bem e o mal que outrem
diga ou pratique, ainda que não
tenha iniciativa própria, reconhe-
cem-se as boas e más qualidades
do ministro, exaltando as primet-
ras e corrigindo as segundas. O
ministro, assim, não pode ter
esperança de enganar o principe
e se conserva bom.
Mas, para que um príncipe
possa conhecer bem o ministro,
há este modo que não falha
nunca: quando vires que o minis-
tro pensa mais em si próprio do
104 MAQUIAVEL
que em ti, e que em todas as suas
ações procura tirar proveito pes-
soal, podes ter a certeza de que
ele não é bom, e nunca poderás
fiar-te nele; e aquele que tem em
mãos os negócios de Estado não
deve pensar nunca em si próprio,
mas sempre no príncipe, e nunca
“lembrar-lhe coisas que estejam
fora da esfera do Estado.
Por outra parte, o principe,
para assegurar-se do ministro,
deve pensar nele, honrando-o,
fazendo-o rico, obrigando-o para
consigo, fazendo-o participar de
honrarias e cargos, de modo que
as muitas honrarias não lhe
façam desejar outras, as muitas
riquezas não lhe façam desejar
maiores, € os muitos cargos não
lhe façam temer mutações. Quan-
do, pois, os ministros, e os prínci-
pes com relação a estes, são
assim, podem confiar uns nos
outros; de outra forma, o fim será
sempre mau para uns e outros.
CAPÍTULO XXI
De como se devem evitar os aduladores
Não quero deixar de tratar de
um capítulo importante sobre um
erro do qual os principes só com
dificuldade se defendem, se não.
são muito prudentes ou não
fazem boa escolha. Refiro-me
aos aduladores de que as cortes
estão cheias; porque os homens
se comprazem tanto nas coisas
próprias e de tal modo se enga-
nam nestas, que é com dificul-
dade que se defendem dessa
peste; querendo-se evitá-la, há o
perigo de se ser desconsiderado,
pois não há outro modo de guar-
dar-se da adulação, senão fazer
com que os homens entendam
não fazer-te ofensa por dizer a
verdade;, mas, quando todos
podem dizer-te a verdade, faltar-
te-ão ao respeito. Um principe
prudente deve, portanto, condu-
zir-se de uma terceira maneira,
escolhendo no seu Estado ho-
mens sábios, e só a estes deve dar
o direito de falar-lhe a verdade a
respeito, porém, apenas das coi-
sas que ele lhes perguntar. Deve
consultá-los a respeito de tudo e
ouvir-lhes a opinião e deliberar
depois como bem entender e com
conselhos daqueles, conduzir-se
de tal modo que eles percebam
que com quanto mais liberdade
falarem, mais facilmente as suas
opiniões serão seguidas. Proce-
dendo doutro modo, o principe
ou é precipitado pelos aduladores
ou varia muitas vezes de parecer;
daí se origina a falta de confian-
ça. Quero, a este propósito, adu-
zir um exemplo modemo: o
Bispo Lucas, homem de Maximi-
liano, o atual imperador, falando
de Sua Majestade, disse que este
não se aconselhava com pessoa
alguma, mas também nunca se
fiava unicamente no seu próprio
juízo; isso se explica: pelo fato de
ele não seguir nunca o conselho
acima, pois o imperador, sendo
homem discreto, não comunica
106
os seus desígnios a ninguém € a
ninguém pede parecer. Mas, na
ocasião de pôr em prática as suas
decisões, os desígnios começam a
ser conhecidos e manifestos, e,
pois, a ser contraditos pelos que
lhe estão em torno, e compreen-
de-se então facilmente que o
imperador se afasta do que tenha
resolvido. Daí resulta que as coi-
sas que faz num dia destrói no
outro, e que não se saiba nunca o
que ele quer, e ninguém pode pre-
ver as suas deliberações.
Um príncipe deve, portanto,
aconselhar-se sempre, mas quan-
do ele entender e não quando os
outros quiserem; antes, deve tirar
a vontade a todos de aconselhar
alguma coisa sem que ele solicite.
Todavia, deve perguntar muito e
ouvir pacientemente a verdade
acerca das coisas perguntadas.
Até, achando que alguém, por
qualquer temor, não lhe diga a
verdade, não deve o principe dei-
xar de mostrar o seu desprazer.
Muitos entendem que os princi-
pes que granjearam fama de pru-
dentes devem-no não à sua natu-
MAQUIAVEL
reza, mas aos bons conselhos dos
que lhes estão ao redor. É; um
erro manifesto, porque é regra
geral, que não falha nunca: um
principe que não seja prudente
por si mesmo não pode ser bem
aconselhado, se por acaso não
acatar o juizo de um só, muito
sábio, que entenda de tudo. Este
caso podia acontecer, mas dura-
ria pouco; porque aquele que
governasse de fato em breve
tempo lhe tomaria o Estado. Mas
aconselhando-se com mais de
um, um principe que não seja
sábio não terá nunca unidade de
conselhos e nem saberá por si
mesmo harmonizá-los. Cada um
dos conselheiros pensará como
quiser e ele não saberá corrigi-los
nem ajuizar a respeito. E não
pode ser de outra maneira, pois
os homens sair-te-ão sempre
maus, se por necessidade não se
fizerem bons. O que se conclui
daí é que os bons conselhos, de
onde quer que provenham, nas-
cem da prudência do príncipe e
não a prudência do príncipe dos
bons conselhos.
CAPÍTULO XXIV
Por que os príncipes de Itália
perderam seus Estados
Se forem observadas prudente-
mente as coisas referidas, o prin-
cipe novo parecerá de ascen-
dência antiga e se tornará assim
mais seguro e firme no Estado,
do que se ele de fato aí estivesse
há muito tempo. Um principe
recente é muito mais vigiado em
suas ações do que um hereditá-
rio, e quando essas ações revelam
virtude, atraem muito mais aos
homens e os obrigam muito mais
do que a antiguidade do sangue.
É que os homens são muito mais
sujeitos às coisas presentes do
que às passadas e, quando encon-
tram o bem naquelas, alegram-se
e nada mais procuram, antes,
tomarão a defesa do príncipe se
este não falhar nas outras coisas
às suas promessas. E ele dessa
forma terá a dupla glória de ter
fundado um principado novo e de
o ter ornado e fortalecido com
boas leis, boas armas e bons
exemplos, assim como um antigo
principe terá a dupla vergonha,
por ter, nascendo príncipe, perdi-
do o Estado pela sua pouca
prudência.
E, se se considerarem aqueles
senhores que, em nossos tempos,
na Itália, perderam seus Estados,
como o rei de Nápoles, duque de
Milão e outros, encontrar-se-ã
neles, primeiro, um defeito
comum quanto às armas, pelas
razões já mencionadas; depois se
verá que alguns deles ou foram
hostilizados pelo povo ou, no
caso contrário, não souberam
neutralizar os grandes, porque
sem estes defeitos não se perdem
Estados tão fortes que possam
pôr um exército em campo.
Filipe da Macedônia, não o
pai de Alexandre, mas o que foi
vencido por Tito Quinto, não
tinha domínios muito extensos,
108 MAQUIAVEL
em comparação à grandeza dos
romanos e da Grécia, que o
assaltaram: apesar disso, por ser
um bom militar e homem que
sabia não se tornar malquisto do
povo e assegurar-se dos podero-
sos, fez a guerra muitos anos
contra aqueles, e se, afinal, per-
deu algumas cidades, ficou-lhe
contudo o reino.
Assim, esses nossos príncipes
que possuíram, por muitos anos,
seus principados, para depois
perdê-los, não acusem a sorte,
mas sim a sua própria ignávia:
porque não tendo nunca nas boas
épocas pensado em que os tem-
pos poderiam mudar (e é comum
nos homens não se preocupar, na
bonança, com as tempestades),
quando vieram tempos adversos,
pensaram em fugir e não em
defender-se e esperaram qué as
populações fatigadas da inso-
lência dos vencedores os chamas-
sem novamente. Esse recurso é
bom, mas quando os outros fa-
lham; é bem mau, porém, deixar
os outros remédios em troca
desse.
Não desejarias cair só por cre-
res que encontrarias quem te
levantasse. Isso ou não acontece,
ou, se acontecer, não te dará
segurança, porque é fraco meio
de defesa o que não depende de
ti. E somente são bons, certos e
duradouros os meios de defesa
que dependem de ti mesmo e do
teu valor.
CAPÍTULO XXV
De quanto pode a fortuna nas coisas humanas
e de que modo se deve resistir-lhe
Não me é desconhecido que
muitos têm tido e têm a opinião
de que as coisas do mundo são
governadas pela fortuna é por
Deus, de sorte que a prudência '
dos homens não pode corrigi-las,
e mesmo não lhes traz remédio
algum. Por isso, poder-se-ia jul-
gar que não deve alguém incomo-
dar-se muito com elas, mas dei-
xar-se governar pela sorte. Esta
opinião é grandemente aceita nos
nossos tempos pela grande varia-
ção das coisas, o que se vê todo
dia, fora de toda conjetura huma-
na. Às vezes, pensando nisso, me
tenho inclinado a aceitá-la. Não
obstante, e porque o nosso livre
arbítrio não desapareça, penso
poder ser verdade que a fortuna
seja árbitra de metade de nossas
ações, mas que, ainda assim, ela
nos deixe governar quase a outra
metade. Comparo-a a um desses
rios impetuosos que, quando se
encolerizam, alagam as planícies,
destroem as àrvores, os edifícios,
arrastam montes de terra de um
lugar para outro: tudo foge dian-
te dele, tudo cede ao seu ímpeto,
sem poder obstar-lhe e, se bem
que as coisas se passem assim,
não é menos verdade que os
homens, quando volta a calma,
podem fazer reparos e barragens,
de modo que, em outra cheia,
aqueles rios correrão por um
canal e o seu ímpeto não será tão
livre nem tão danoso. Do mesmo
modo acontece com a fortuna; o
seu poder é manifesto onde não
existe resistência organizada, di-
rigindo ela a sua violência só
para onde não se fizeram diques
e reparos para contê-la.
E, se considerardes a Itália,
que é a sede e a origem destas
revoluções, vereis que é ela como
uma região sem diques e sem
nenhuma barreira; e que, se fos-
10
se convenientemente protegida
como a Alemanha, a Espanha e a
França, ou as cheias não causa-
riam as variações que há, ou
mesmo não se teriam verificado.
E com isso creio ter dito bastante
acerca dos obstáculos que se
podem opor à sorte, em geral.
Mas, restringindo-me aos
casos particulares, digo que se vê
hoje o sucesso de um príncipe e
amanhã a sua ruína, sem ter ha-
vido mudança na sua natureza,
nem em algumas das suas quali-
dades. Creio que a razão disso,
conforme o que se disse anterior-
mente, é que, quando um principe
se apóia totalmente na fortuna,
arruína-se segundo as variações
daquela. Também julgo feliz
aquele que combina o seu modo
de proceder com as particulari-
dades dos tempos, e infeliz o que
faz discordar dos tempos a sua
maneira de proceder. Em relação
aos caminhos que os levam à
finalidade que procuram, isto é,
glória e riquezas, costumam os
homens proceder de modos diver-
sos: um com circunspecção,
outro com impetuosidade, um
pela violência, outro pela astúcia,
um com paciência, outro com a
qualidade contrária, e cada um
por estes diversos modos pode
alcançar aqueles objetivos. Vê-se
que, de dois indivíduos cautelo-
sos, um chega ao seu desígnio e
MAQUIAVEL
outro não, e do mesmo modo,
dois igualmente felizes, com dois
modos diversos de agir, são um
circunspecto e outro impetuoso,
o que resulta apenas da natureza
particular da época, e com a qual
se conforma ou não o seu proce-
dimento. Assim, como disse, dois
agindo diferentemente alcançam
o mesmo efeito, e dois agindo
igualmente, um vai direto ao fim
e o outro não. Disso dependem
também as diferenças da prospe-
ridade, pois se um se conduz com
cautela e paciência e os tempos e
as coisas lhe são favoráveis, o
seu governo prospera e disso lhe
advém felicidade. Mas se os tem-
pos e as coisas mudam, ele se
arruíina, porque não alterou o
modo de proceder. Não se encon-
tra homem tão prudente que
saiba acomodar-se a isso, quer
por não se poder desviar daquilo
a que a natureza o impele, quer
porque, tendo alguém prosperado
num caminho, não pode resig-
nar-se a abandoná-lo. Ora, o
homem circunspecto, quando
chega a ocasião de ser impetuo-
so, não o sabe ser, e por isso se
arruina, porque, se mudasse de
natureza, conforme o tempo e as
coisas, não mudaria de sorte. O
Papa Júlio II procedeu em todas
as coisas impetuosamente, e' en-
controu tanto o tempo como as
coisas conformes aquele seu
O PRÍNCIPE
modo de proceder, de forma que
sempre alcançou êxito. Conside-
rai a primeira expedição que rea-
lizou em Bolonha quando ainda
vivia Messer Giovanni Bentivo-
glio. Os venezianos estavam con-
tra o papa; o rei de Espanha,
também. Enquanto ainda discu-
tia com a França a respeito da
expedição, começou a executá-la,
pessoalmente, com violência e
impetuosidade.
Essa atitude fez com que se
mantivessem inativos a Espanha
e OS venezianos: estes, por medo,
e aquela pelo desejo de recuperar
todo o reino de Nápoles. De
outro lado, fez-se seguir pelo rei
de França, porque, tendo visto
que ele começara a mover-se e
desejando conservar a sua amiza-
de para humilhar os venezianos,
julgou não poder negar-lhe a sua
gente sem com isso cometer uma
injúria manifesta. Júlio realizou,
portanto, com sua atitude impe-
tuosa o que nenhum outro pontt-
fice, com toda a humana prudên-
cia, poderia realizar, pois se, para
partir de Roma, esperasse ter
todos os planos assentados e
tudo organizado, como qualquer
outro pontífice teria feito, jamais
teria conseguido o que conseguiu,
AA
porque o rei de França teria:
arranjado mil desculpas, e os ou-
tros lhe teriam infundido mil
receios. Não quero falar das ou-
tras suas ações, todas iguais e
todas felizes. A brevidade do seu
reinado não lhe fez experimentar
reveses; se chegasse o tempo de
proceder com circunspecção,
ter-se-ia verificado a sua ruína,
pois que ele nunca se desviaria
do rumo para o qual o impelia
sua natureza. Concluo, portanto,
por dizer que, modificando-se a
sorte, e mantendo os homens,
obstinadamente, o seu modo de
agir, são felizes enquanto esse
modo de agir e as particulari-
dades dos tempos concordarem.
Não concordando, são infelizes.
Estou convencido de que é me-
lhor ser impetuoso do que cir-
cunspecto, porque a sorte é mu-
lher e, para dominá-la, é preciso
bater-lhe e contrariá-la. E é geral-
mente reconhecido que ela se
deixa dominar mais por estes do
que por aqueles que procedem
friamente. A sorte, como mulher,
é sempre amiga dos jovens, por-
que são menos circunspectos,
mais ferozes e com maior audá-
cia a dominam.
CarpíTULO XXVI
Exortação ao príncipe para livrar
a Itália das mãos dos bárbaros
Consideradas, pois, todas as
coisas acima referidas, e pen-
sando comigo mesmo se, na Itá-
«lia, os tempos presentes poderiam
prometer honras a um príncipe
novo e se havia matéria que
desse, a um que fosse prudente e
valoroso, oportunidade de intro-
duzir uma nova ordem que lhe
trouxesse fama e prosperidade
para O povo, pareceu-me que há
tantas coisas favoráveis a um
principe novo que não sei de
época mais propícia para a reali-
zação daqueles propósitos. E
como disse ter sido necessário,
para que se conhecesse a virtude
de Moisés, que o povo de Israel
estivesse escravizado no Egito;
para que se conhecesse a gran-
deza de alma de Ciro, que os per-
sas estivessem oprimidos pelos
medas; e para se conhecer' o
valor de Teseu, que os atenienses
estivessem dispersos — assim,
presentemente, querendo-se co-
nhecer o valor de um príncipe ita-
liano, seria necessário que a Itá-
lia chegasse ao ponto em que se
encontra agora. Que estivesse
mais escravizada do que os he-
breus, mais oprimida do que os
persas, mais desunida que os
atenienses, sem chefe, sem
ordem, batida, espoliada, lacera-
da, invadida, e que houvesse,
enfim, suportado toda sorte de
calamidades. E, se bem que te-
nham surgido, até aqui, certas
providências por parte de al-
guém, que se teria podido julgar
fossem inspiradas por Deus, para
a redenção do país, viu-se depois
como, no mais alto curso de suas
ações, foi abandonado pela fortu-
na? ”?. Assim, tendo ficado como
sem vida, espera a Itália aquele
que lhe possa curar as feridas e
ponha fim ao saque da Lombar-
dia, aos tributos do reino de Ná-
27 Provavelmente, alusão a César Bórgia.
114
poles e da Toscana, e que cure as
suas chagas já hã muito tempo
apodrecidas. Vê-se que ela roga a
Deus envie alguém que a redima
dessas crueldades e insolências
dos estrangeiros. Vê-se, ainda,
que se acha pronta e disposta a
seguir uma bandeira, uma vez
que haja quem a levante. E não
se vê, atualmente, em quem ela
possa esperar mais do que na
vossa ilustre casa, a qual, com a
fortuna e valor, favorecida por
Deus e pela Igreja — a cuja fren-
te estã agora —, poderá consti-
tuir-se cabeça desta redenção.
Isso não será muito dificil se vos
voltardes ao exame das ações e
vida daqueles de quem acima se
fez menção. E se bem que aqueles
homens tenham sido raros e
maravilhosos, foram, todavia,
homens, e as ocasiões que tive-
ram todos eles foram
menos favoráveis do que a: pre-
sente: porque os seus empreendi-
mentos não foram mais úteis do
que estes nem mais fáceis, nem
Deus foi mais amigo deles do que
vosso. É muito justa esta minha
asserção: “Justum enim est bel-
lum quibus necessarium, et pia
arma ubi nulla nisi armis spes
est?8”. Aqui tudo estã disposto
favoravelmente; e onde isto se
28 “Justa, na verdade, é a guerra, quando
necessária, e piedosas as armas quando só nas
armas reside a esperança.”
MAQUIAVEL
nota, não pode existir grande difi-
culdade para quem se dispuser a
agir como aqueles a que propus
como exemplo. Além disso,
vêem-se aqui extraordinárias
ações de Deus, como ainda não
se teve exemplo: o mar se abriu,
uma nuvem revelou o caminho,
da pedra brotou água, aqui cho-
veu o maná; tudo concorreu para
a vossa grandeza. O que resta a
fazer é tarefa que a vós compete.
Deus não quer fazer tudo, para
não nos tolher o livre arbítrio e
parte da glória que nos cabe. E
não é motivo para maravilhar-se
se algum dos já mencionados ita-
lianos não pôde fazer aquilo que
se pode esperar da vossa ilustre
casa e se, em tantas revoluções
da Itália, em tantos trabalhos de
guerra, parecer sempre que a vir-
tude militar se tenha extinguido
no país. A razão disso está em
que -as antigas instituições políti-
cas não eram boas e não houve
ninguém que tivesse sabido ar-
ranjar outras; e nuica coisa
nenhuma deu tanta honra a um
governante novo como as novas
leis e regulamentos que elabo-
rasse. Quando estes são bem fun-
dados e encerram grandeza,
fazem com que ele seja reveren-
ciado e admirado: e na Itália não
faltam motivos para a realização
desse trabalho.
Aqui existe bastante valor no
O PRÍNCIPE 115
povo, embora faltem chefes. Ob-
servai, nos duelos e nos torneios,
quanto os italianos são superio-
res em força, destreza e inteli-
gência. Mas tratando-se de exér-
citos, essas qualidades não
chegam a revelar-se. E tudo pro-
vém da fraqueza dos chefes, pois
aqueles que sabem não são obe-
decidos, e todos pensam saber
muito, não tendo aparecido até
agora nenhum cujo valor ou for-
tuna seja de tanto realce que
obrigue os outros a abrir-lhe,
caminho. É por isso que em tanto
tempo, em tantas guerras que se
fizeram nestes últimos vinte anos,
todo exército exclusivamente ita-
liano sempre se saiu mal. É o que
atestam Taro, depois Alexandria,
Câápua, Gênova, Vailá, Bolonha,
Mestre.
Querendo, pois, a vossa ilustre
casa seguir o exemplo daqueles
grandes homens e redimir suas
províncias, é necessário, antes de
mais nada, como verdadeira base
de qualquer empreendimento,
prover-se de tropas próprias, por-
que não existem outras mais fiéis
nem melhores. E embora cada
soldado possa ser bom, todos
Juntos tornar-se-ão melhores
anda, quando se virem coman-
dados pelo seu príncipe e por ele
honrados e bem tratados. É ne-
cessário, pois, preparar essas
armas, para se poder defender
dos estrangeiros com a própria
bravura italiana. E apesar de
serem consideradas formidáveis
as infantarias suíças e espanho-
las, ambas têm defeitos, de modo
que uma terceira potência que se
criasse poderia não somente
opor-se mas ter confiança na
vitória. Os espanhóis não podem
fazer frente à cavalaria e os sui-
ços deverão ter medo das forças
de infantaria quando as encon-
trarem tão obstinadas, tão fortes
quanto eles nos combates. Já se
viu e há de se ver ainda que os
espanhóis não podem fazer face a
uma cavalaria francesa e os sul-,
ços ser derrotados pela infantaria
espanhola. E se bem que deste úl-
“timo caso não se tenha tido
exemplo direto, teve-se uma
amostra na jornada de Ravena,
quando a infantaria espanhola
enfrentou a alema, que usa a
mesma tática da suíça: os espa-
nhóis, valendo-se da sua agilida-
de, e com o auxílio dos seus escu-
detes, haviam-se posto debaixo
das lanças dos alemães e estavam
certos de vencê-los, sem que estes
pudessem ter salvação. E se não
fosse o auxilio da cavalaria,
todos eles teriam sido chacina-
dos, efetivamente. Pode-se, por-
tanto, conhecendo os defeitos
destas duas espécies de infanta-
ria, Organizar uma terceira que
resista à cavalaria e não tema a
116
sua igual. E disso resultará a for-
mação de uma geração de guer-
reiros e a mudança de métodos. E
são essas coisas que, reorgani-
zadas, dão reputação e grandeza
a um príncipe novo.
Não se deve, portanto, deixar
passar-esta ocasião a fim de fazer
com que a Itália, depois de tanto
tempo, encontre um redentor.
Não tenho palavras para expri-
mir o amor e entusiasmo com
que seria ele recebido em todas
as províncias que sofreram ata-
ques e invasões estrangeiras, nem
com que sede de vingança, com
que fé obstinada, com que pieda-
de, com que lágrimas. Que portas
se lhe fechariam? Que povos lhe
negariam obediência? Que inveja
se lhe oporia? Qual italiano seria
MAQUIAVEL
capaz de lhe negar o seu favor?
Já estã fedendo, para todos, este
domínio de bárbaros. Tome, pois,
a vossa ilustre casa esta tarefa
com aquele ânimo e com aquela
fé com que se esposam as boas
causas, a fim de que, sob o seu
brasão, esta pátria seja enobre-
cida, e sob os seus auspícios se
verifique aquele dito de Petrarca:
Virtu contro a furore
Prendera l'arme; e fia il com-
[batter corto;
Ché lantico valore
Nelli italici cor non é ancor
[morto?º.
29 “A virtude tomará armas contra o furor e
será breve o combate, pois o antigo valor
ainda não está morto nos corações italianos.”
APENDICE
Carta de Maquiavel a Francesco Vettori
Magnifico oratori Florentino Francesco Vettori
apud Summum Pontificem et benefactori suo.
Magnífico embaixador. Tardas
jamais foram as graças divinas.
Digo isto porque me parecia não
ter perdido, mas enfraquecido a
vossa graça, tendo estado vós
tanto tempo sem escrever-me, e
eu estava em dúvida de onde
pudesse vir a razão. E a todas as
que me vinham à mente dava eu
pouca importância, salvo àquela
por que duvidava não houvésseis
deixado de escrever-me, porque
vos houvesse sido escrito que eu
não fosse bom conservador de
vossas cartas; e eu sabia que,
Filippo e Pagolo exclusive, ou-
tros por mim não as haviam
3º Ao magnífico orador e particular benfeitor
Florentino Francisco Vettori, Embaixador
Junto ao Sumo Pontífice. Roma. (N. do E.)
Romae?º.
visto. Tive pela última vossa de |
23 do mês passado, pelo que fico
contentissimo por ver quão orde-
nada e sossegadamente desempe-
nhais este ofício público e ani-
mo-vos a continuardes assim,
porque quem deixa seus cômodos
pelos dos outros perde os seus, e
daqueles não recebe satisfação. E
como a fortuna ordena todas as
coisas, é preciso deixá-la fazer,
deixar-se ficar e não lhe opor
embaraço, e esperar o tempo em
que ela consinta aos homens
fazer qualquer coisa, e então vos
ficará bem trabalhar mais, desve-
lar-se mais pelas coisas, e a mim
partir da cidade e dizer eis-me
aqui. Não posso, portanto, dese-
Jando render-vos iguais graças,
dizer-vos nesta carta outra coisa
118
que não seja a minha vida, e se
julgardes que deva trocá-la pela
vossa, ficarei contente em mudá-
la.
Permaneço na vila, e como
seguiram aqueles meus últimos
casos, não estive, para ajuntá-los
todos, mais de vinte dias em Flo-
rença. Tenho, até agora, apa-
nhado tordos a mão; levantava-
me antes do dia, trabalhava a
paina, afastava-me com um feixe
de gaiolas sobre mim, que pare-
cia o Geta quando ele voltava do
porto com os livros de Anfitrião;
apanhava pelo menos dois, no
máximo seis tordos. E assim esti-
ve todo o mês de setembro; de-
pois este entretenimento, ainda
que desprezível e estranho, fal-
tou, com desgosto meu, e dir-
vos-ei qual seja minha vida. Le-
vanto-me de manhã com o sol €
vou para um bosque meu onde
mando fazer lenha, e ali fico duas
horas a inspecionar as obras da
véspera, e a passar o tempo com
os lenhadores, que têm sempre
aborrecimento à mão ou entre si
ou com os vizinhos. E a respeito
deste bosque eu vos teria a dizer
mil belas coisas que me acontece-
ram, com Frosino da Panzano e
com outros que queriam destas
madeiras. E especialmente Frosi-
no, que mandou buscar certas
quantidades sem dizer-me nada, e
ao pagamento queria reter dez
MAQUIAVEL
liras, que dizia tinha a haver de
mim faz quatro anos, que me ga-
nhou no jogo de cricca em casa
de Antônio Guicciardini. Come-
cei a fazer o diabo, querendo acu-
sar de ladrão o carroceiro, que ali
fora mandado por ele, tandem
Giovanni Machiavelli entrou no
meio, e nos pôs de acordo. Bat-
tista Guicciardini, Filippo Gino-
rio, Tommaso del Bene e certos
outros cidadãos, quando aquela
ventania soprava, cada um me
encomendou uma medida. Pro-
meti a todos e mandei uma a
Tommaso, a qual voltou a Flo-
rença pela metade, porque para
medir havia ele, a mulher, a cria-
da, os filhos, que parecia o Gab-
bura quando na quinta-feira com
seus rapazes bate num boi. De
maneira que, visto em quem esta-
va o lucro, disse aos outros que
não tenho mais madeira; e todos
disso fizeram questão impor-
tante, e especialmente Battista,
que enumera esta entre as outras
desgraças de Prato. |
Saindo do bosque vou à fonte,
e daqui à caçada; tenho um livro
comigo, ou Dante ou Petrarca,
Ou um destes poetas menores,
como Tibulo, Ovídio e semelhan-
tes: leio aquelas suas amorosas
paixões e aqueles seus amores,
lembro-me dos meus, comprazo-
me neste pensamento. Vou depois
à hospedaria, à beira da estrada,
!
|
O PRÍNCIPE
falo aos que passam, pergunto
pelas novas das suas terras, ouço
uma porção de coisas, e noto os
vários gostos e diversas fantasias
dos homens. Chega enquanto
isso a hora de jantar e, com a
minha gente, como o que esta
minha. pobre vila e fraco patri-
mônio comportam. Terminada a
refeição, volto à hospedaria onde
está o estalajadeiro e, ordinaria-
mente, encontro-me com um
açougueiro, um moleiro, dois for-
neiros. Com estes eu me entrete-
nho o dia todo jogando cricca,
tric-tac, e depois daí nascem mil
contendas e infinitas insolências
e injúrias e o mais dás vezes se
disputa um quatitrino e somos
ouvidos, não raro, a gritar, de
San Casciano. Assim mergu-
lhado nesta piolheira, estou com
a cabeça mofada, desafogo a
malignidade do meu destino, e'
até me contentaria em que me
encontrásseis nesta estrada, para
ver se ele se envergonha. |
Chegando à noite, de volta a
casa, entro no meu escritório: e
na porta dispo as minhas roupas
cotidianas, sujas de barro e de
lama, e visto as roupas de corte
ou de cerimônia, e, vestido decen-
temente, penetro na antiga convi-
vência dos grandes homens do
passado; por eles acolhido com
bondade, nutro-me daquele ali-
mento que é o único que me é
119
apropriado e para Oo qual nasci.
Não me envergonho de falar com
eles, e lhes pergunto da razão das
suas ações, e eles humanamente
me respondem; e não sinto du-
rante quatro horas aborrecimento
algum, esqueço todos os desgos-
tos, não temo a pobreza, não me
perturba a morte: transfundo-me
neles por completo. E, como
disse Dante, não pode a ciência
daquele que não guardou o que
ouviu — noto aquilo de que pela
sua conversação fiz cabedal e
compus um opúsculo, De princi-
patibus, onde me aprofundo
quanto posso nas cogitações
deste tema, debatendo o que é
principado, de que espécies são,
como eles se conquistam, como
eles se mantêm, por que eles se
perdem; e se vos agradou alguma
vez alguma fantasia minha, esta
não vos deveria desagradar; e um
principe, e máxime um principe
novo, deveria recebê-lo com pra-
zer; portanto eu o dedico à
magnificência de Juliano. Filippo
Casavecchia o viu; poder-vos-á
pôr a par em parte e da coisa em
s1, e dos argumentos que tive que
suprimir, se bem que ainda eu o
aumente e corrija.
Vós desejaríeis, magnífico em-
baixador, que eu deixasse esta
vida e fosse gozar convosco a
vossa. Eu o farei de qualquer
120 MAQUIAVEL
maneira, mas o que me tenta
agora são meus negócios certos
que dentro de seis semanas terei
concluído. O que me deixa em
dúvida é que estão aí aqueles
Soderini, aos quais seria forçado,
indo aí, a visitá-los e a falar-lhes.
Duvidaria que ac meu regresso
eu não me pudesse apear em
casa, e descavalgasse no Bargel-
lo, porque embora este Estado
tenha fortissimas bases e grande
segurança, tamen ele é novo, e
por isto duvidoso, nem aí faltam
sabichões que, para aparecer,
como Pagolo Bertini, prejudica-
riam a outros e me deixariam as
preocupações. Rogo-vos que
tranguilizeis este meu temor, e
depois irei no tempo mencionado
a visitar-vos de qualquer modo.
Falei com Filippo sobre este
meu opúsculo, se seria conve-
niente dá-lo a público ou não;
caso conviesse, se seria bom que
eu o levasse ou que vó-lo man-
dasse. Se o nao desse fazia-me
duvidar de que, não só Juliano
não o lesse, mas também de que
este Ardinghelli se fizesse as hon-
ras deste meu último trabalho. Se
o desse me satisfaria a necessi-
dade que me prende, porque eu
me estou consumindo e não
posso ficar assim por mais tempo
sem me tornar desprezível por
pobreza. Ainda desejaria muito
que estes senhores Médicis come-
çassem a lembrar-se de mim se
tivessem que começar a fazer-me
voltear uma pedra; porque, se de-
pois não ganhasse o seu favor, eu
mesmo me lamentaria, pois que
quando lido o livro, ver-se-ia que
quinze anos que estive em estudo
da arte do Estado, não os dormi,
nem brinquei; e deveria a cada
um ser caro servir-se daquele que
às custas de outros fosse cheio de
experiência. E da minha fé não se
deveria duvidar, porque tenho
sempre observado a fé, não vou
agora rompê-la; e quem foi fiel e
bom quarenta e três anos, que eu
tenho, não deve poder mudar sua
natureza; e da minha fé e bonda-
de é testemunho a minha pobre-
za. |
Desejaria, portanto, que ainda
me escrevêsseis aquilo que sobre
esta matéria vos pareça, e a vós
me recomendo. Sis felix.
Die 10 Decembris 1513.
NicoLau MAQUIAVEL em Florença.
go
PARE
Ld
CRITOS POLÍTICOS
DO MODO DE TRATAR
OS POVOS DO VALE DO CHIANA
REBELADOS
Nota do Tradutor
Maquiavel, na sua qualidade de Secretário dos Dez, fora mandado,
em agosto de 1502, a Arezzo, logo depois da rebelião de que trata o
escrito Del Modo di Trattare, etc., a fim de informar-se pessoalmente
da situação e de prover à partida das tropas francesas com o auxílio
das quais pudera Florença vencer os rebeldes. É nesse breve escrito,
o qual Maquiavel supõe ser um discurso dirigido aos supremos
magistrados da república, que o secretário florentino tenta, pela pri-
meira vez, “erguer-se da prática da burocracia cotidiana às culminân-
cias da ciência”. (P. Villari, Niccolô Machiavelli e suoi tempi, Milão,
4.º ed., I, pág. 346.)
Lucio Fúrio Camilo, depois
de ter vencido os povos do Lácio,
os quais mais de uma vez se ha-
viam rebelado contra os roma-
nos, regressando a Roma apre-
sentou no Senado um projeto
sobre o que se deveria fazer das
terras e cidades dos latinos. As
palavras que ele empregou e a
sentença que o Senado deu é esta,
quase ad verbum!, como a apre-
senta Lívio: “Padres conscritos,
aquilo que no Lâcio se deveria
fazer com a guerra e com as
armas, tudo por bondade dos
deuses e pelo valor dos nossos
soldados, teve o seu fim. Morre-
ram em Peda e Astura os exérci-
tos inimigos; todas as terras e
cidades dos latinos, e Antium, ci-
dade dos volscos, tomadas pela
força ou por meio de pactos,
guardam-se para vós. Resta-nos
agora consultar (porque rebelan-
do-se eles frequentemente nos
põem em perigo) como devemos
segurar-nos para o futuro: ou
Quase literalmente. (N. do E.)
tornando-nos cruéis para com
eles, ou perdoando-lhes livre-
mente. Deus vos fez todo-pode-:
rosos para poder deliberar se se
deve manter o Lácio ou não, ou
poder perpetuamente dele vos
assegurardes. Pensai, pois, se
quereis acerbamente corrigir
aqueles que vos foram dados; ou
se quereis de todo arruinar o
Lácio e fazer um deserto daquela
região, de onde mais de uma vez
tendes tirado exércitos auxiliares
nos VOSSOS perigos; ou se quereis
com o exemplo dos vossos maio-
res aumentar a república romana,
fazendo vir habitar em Roma
aqueles que havieis vencido. E
assim se vos apresenta oportuni-
dade de aumentar gloriosamente
a cidade: mas eu só vos devo
dizer isto: que aquele império é
firmíssimo, que tem súditos fiéis
e afeiçoados ao seu principe. Mas.
aquilo que se deve deliberar deve
ser deliberado logo, tendo vós
tantos povos suspensos entre a
esperança e o medo, os quais é
preciso tirar desta ambiguidade,
Pq
130
e preocupá-los com penas ou
com prêmio. A minha tarefa foi
agir de modo que isso esteja em
vosso arbítrio: o que está feito.
Em vós está agora o deliberar o
que venha a ser cômodo e útil à
república”. Os príncipes do Sena-
do louvaram o relatório do côn-
sul; mas havendo causa diversa
nas cidades e terras rebeladas,
disseram: que não se podia acon-
selhar em geral, mas sim em par-
ticular a respeito de cada uma. E
tendo sido pelo cônsul proposta a
causa de cada uma das cidades,
foi deliberado pelos senadores
que os lanúvios fossem cidadãos
romanos e devolvidas a eles as
coisas sagradas que lhes haviam
sido tomadas na guerra. Torna-
ram, da mesma forma, cidadãos
romanos os aricinos, nomentanos
e pedanos; aos tusculanos foram
conservados os seus privilégios e
a culpa de sua rebelião recaiu em
poucos dos mais suspeitos. Mas
os veliternos foram cruelmente
castigados, por serem antigos
cidadãos romanos e se haverem
rebelado muitas vezes; assim foi
destruída a cidade e mandou-se a
todos os seus cidadãos que fos-
sem habitar em Roma. Em An-
tium, para assegurar-se dela,
mandaram habitantes novos a
seu propósito; tiraram-lhes todos
os navios e proibiram-nos de
construir outros.
MAQUIAVEL
Pode-se por esta deliberáção
considerar como os romanos no
julgamento destas suas cidades
rebeladas pensaram que fosse
preciso ou ganhar a sua con-
fiança pelos benefícios ou tratá-
los de modo a que jamais pudes-
sem duvidar; e por isto julgaram
danoso qualquer outro caminho
que se tomasse. E voltando aque-
le Julgamento, usaram eles dum e
doutro termo; beneficiando aque-
les de quem se podia esperar que
fosse possível reconciliar; € aque-
loutros de quem nada se podia
esperar, tratando de maneira que
nunca, em tempo algum, pudes-
sem incomodar. E quanto a esta
última, os romanos tinham dois
processos: um era o de arrasar as
cidades e mandar os seus habi-
tantes residir em Roma; o outro,
ou afastar os cidadãos antigos e
mandar novos habitantes; ou,
deixando os antigos, colocar tan-
tos novos, que aqueles nunca
pudessem maquinar nem delibe-
rar qualquer coisa contra o Sena-
do. Estes dois modos de garan-
tir-se usaram-nos ainda neste
Julgamento, destruindo Velitrae e
mandando novos habitantes a
Antium. Ouvi dizer que a história
é a mestra das nossas ações e má-
ximas dos príncipes: e o mundo
foi sempre, de certo modo, habi-
tado por homens que têm tido
sempre as mesmas paixões; e
ESCRITOS POLÍTICOS 131
sempre existiu quem serve e
quem manda, e quem serve de má
vontade e quem serve de bom
grado, e quem se rebela e se
rende.
Se alguém não acreditar nisso,
que se mire em Arezzo, O ano
passado, e em todas as cidades
do vale do Chiana, que fazem
coisa muito semelhante à que foi
praticada pelos povos latinos. Ali
se vê a rebelião e depois a rendi-
ção, como aqui; ainda que no
modo de rebelar-se e no de ren-
der-se haja muitas diferenças:
contudo são semelhantes a rebe-
lião e a rendição. Portanto, se é
verdade que a história ficaria a
mestra das nossas ações, não é
mal para quem devia punir e jul-
gar as cidades do vale do Chiana
tomar exemplo e imitar aqueles
que foram donos do mundo; má-
xime num caso em que eles vos
ensinam justamente como vos de-
veis conduzir para governar: por-
que como eles fizeram Julga-
mento diferente, por ser diferente
o pecado daqueles povos, assim
devíieis fazer vós, encontrando
também nos vossos rebelados
diferença de pecados. E se dissés-
seis: “nós o fizemos”, não nega-
ria no que se tivesse feito em
parte, mas que se faltou no mais
e no melhor. Eu julgo bem julga-
do que em Cortona, Castiglione,
Borgo, Foiano se hajam seguido
as lições, tenham elas sido adula-
das e vos tenhais preocupado em
reavê-las pelos benefícios; porque
acho semelhança no caso daque-
las cidades com os dos lanúvios,
arícios, nomentanos, tusculanos e
pedanos, os quais por parte dos
romanos mereciam tal julga-
mento. Mas eu não aprovo que os
aretinos, semelhantes aos veliter-
nos e anzianos, não tenham sido
tratados como eles. E se a sen-
tença dos romanos merece ser
elogiada, tanto mais a vossa deve
ser condenada. Antigamente, os
romanos julgaram que os povos
rebelados se devem ou beneficiar
ou extinguir e que qualquer outro
meio seja perigosissimo. A mim
não parece que vós aos aretinos
tenhais feito qualquer dessas co1-
sas. Porque não constitui benefi-
cio nenhum o fazê-los vir a Flo-
rença, depois de lhes haver
tomado as honras, vender as suas
propriedades, falar mal deles pu-
blicamente, ter mantido sob guar-
da as suas casas. Não se chama
garantir-se contra eles deixar de
pé os muros da cidade, deixar
que ali figuem os cinco sextos da
antiga população; não lhes dar
companhia de habitantes que os
possam subjugar, e não os gover-
nar de modo que, nos impedi-
mentos e guerras que vos tiverem
de ser movidas, não tenhais que
contar com maior despesa em
a
Arezzo, que ao encontro de qual-
quer inimigo que vos assaltar. A
experiência se viu em 1498,
quando Arezzo ainda não se
havia rebelado nem vos havieis
tornado tão cruéis com relação
aquela cidade: nem mesmo vindo
as forças dos venezianos em Bib-
biena, vós terieis a empenhar em
Arezzo, para tê-la quieta, as tro-
pas do duque de Milão e a com-
panhia do Conde Rinuccio.
Disso, se vós não houvésseis
duvidado, vos podteis servir em
Casentino contra os inimigos; e
não seria necessário tirar Paolo
Vitelli de Pisa para mandá-lo a
Casentino: o que, forçando-vos a
desconfiar dos aretinos, vos fez
levar muito mais perigo e muito
maior despesa do que a que
teríeis feito se eles vos tivessem
permanecido fiéis. Assim, de
acordo com aquilo que se viu
então, aquilo que se viu depois, e
o termo em que vós os trazeis,
disso se pode fazer seguramente
este juízo, que, se fósseis assalta-
dos (do que Deus guarde), ou
Arezzo se rebelaria, ou vos apre-
sentaria tal impedimento para
guardá-la, que a tornaria despesa
insuportável para a cidade.
Se vós pudésseis, no presente,
ser atacados ou não, e se há
quem tenha intenções
Arezzo ou não, tendo eu a res-
peito ouvido falar, não o quero
sobre
MAQUIAVEL
deixar para trás. E deixando de
discorrer sobre aqueles temores
que podeis ter dos principes ul-
tramontanos, conversemos sobre
o medo que nos está mais próxi-
mo.
Quem observou o duque vê
que ele, para manter os Estados -
que tem, nunca pensou fazer base
sobre amizades italianas, tendo
sempre estimado pouco os -vene-
zianos, e a vós menos: o que,
quando seja verdade, convém que
ele pense em tornar-se tão grande
Estado na Itália, que o torne se-
guro por si mesmo, e que faça
desejável por um outro potentado
a sua amizade. E quando este
seja o seu ânimo e que ele aspire
ao império da Toscana, como
mais próprio e apto para se fazer
um reino com os outros Estados
que tem (e de que ele tem este
projeto, julga-se de necessidade,
seja pelas coisas mencionadas,
seja pela sua ambição, e também
por terdes ficado indecisos quan-
to ao acordo e não ter ele nunca
desejado concluir alguma coisa
convosco), resta agora ver se O
tempo lhe é oportuno para reali-
zar estes seus desígnios.
E lembra-me ter ouvido dizer
ao Cardeal Soderini que, entre os
outros louvores que se podiam
dar de grande homem ao papa e
ao duque, estava este: que são
|
ESCRITOS POLÍTICOS
conhecedores da ocasião, e que a
sabem usar muito bem; opinião
esta que está provada pela expe-
riência das coisas conduzidas por
eles oportunamente. E se quisés-
semos discutir se agora é tempo
oportuno e seguro para que ele
vos ataque, eu diria que não.
133
Mas, considerando que o duque
não pode esperar que as coisas se
decidam, por lhe restar pouco
tempo com relação à brevidade
da vida do pontífice, é necessário
que ele use a primeira ocasião
que se lhe oferece e que entregue
da sua causa boa parte à sorte.
DA “LEGAÇÃO
AO DUQUE VALENTINO
Nota do Tradutor
Maquiavel, que conhecera, poucos meses antes, ao Duque Valenti-
no, quando acompanhou Francesco Soderini, na sua legação a Urbi-
no, foi de novo encarregado pelos “Dez” de entender-se com o duque.
Com efeito, Valentino, logo depois da Dieta de La Magione, manifes-
tara ao governo de Florença o desejo de manter boas relações com os
florentinos. Longamente discutida, foi dada afinal a Maquiavel a
commissione respectiva no dia 5 de outubro de 1502. As instruções
que levava davam-lhe também o encargo de agradecer ao duque o ter
restituído os tecidos confiscados aos mercadores florentinos nos seus
Estados, e o de pedir-lhe salvo-conduto para aqueles no seu tráfego
parao Oriente.
A legação ao duque, a qual durou até o dia 21 de janeiro de 1503,
é de suma importância, pois assinala não somente a fase culminante
do poderio de César Bórgia e das suas trágicas maquinações, mas
também o amadurecimento do gênio de Maquiavel, como escritor
político. A carta traduzida é a primeira das dezoito que relatam ao
governo florentino o desenvolvimento da legação. O desígnio de
Valentino era afastar Florença dos conjurados de La Magione e, caso
possível, atraí-la para um acordo. Quanto às instruções que tinha
Maquiavel, podem ser resumidas nesta passagem da Commissione:
“E no que se refere a isso (as garantias de que Florença negará
apoio aos conjurados) podes alargar-te quanto te parecer a propósiio;
mas se Sua Excelência procurar saber mais de ti, cingir-te-ás a infor-
,
mar-nos e esperar a resposta”,
MAGNIFICI et excelss Domi-
ni, Domini mei singularissimi?.
Logo à minha partida daí não me
sentia muito bem montado, e
como me parecesse que a minha
comissão requeresse rapidez,
mudei de cavalo na Scarperia e,
trocando de montaria, viajei sem
interrupção, de sorte que cheguei
aqui hoje às dezoito horas mais
ou menos. Tendo deixado atrás
cavalos e criados, apresentei-me
logo que me apeei a Sua Excelên-
cia, a qual me acolheu cordial-
mente, e apresentando-lhe eu as
cartas credenciais, expus-lhe as
razões da minha missão e agra-
deci-lhe a restituição dos tecidos.
Depois vim a falar-lhe da cisão
dos Orsini, da dieta deles e dos
seus aderentes, e de como V.Sas.
estavam sendo destramente re-
questados e sobre qual lhes seja o
animo a respeito da amizade que
têm pelo rei de França e da devo-
ção que conservam para com a
2 Magníficos e excelentíssimos Senhores, Se-
nhores meus prezadíssimos. (N. do E.)
Igreja, e ilustrei amplamente com
todas as palavras que me ocorre-
ram as razões que obrigam
V.Sas. a conservar a amizade
destes últimos e a evitar a dos
adversários deles. Atestei-lhe que
em qualquer situação V.Sas. res-
peitariam todas as ações de Sua
Excelência, as quais fossem com-
patíveis com a amizade do rei de
França e com a antiga devoção à
Igreja, e a afeição que mostraram
à Sua Senhoria, tratando como
amigos todos os amigos e aliados
de França.
Sua Excelência, quanto ao ne-
gócio da restituição, nada res-
pondeu; mas referindo-se a ou-
tras particularidades, agradeceu
a V.Sas. aqueles oferecimentos e
gratas demonstrações. Disse de-
pois ter sempre desejado a amiza-
de de V.Sas., não a tendo conse-
guido mais por malignidade de
outros do que por sua própria
culpa; e ainda que queria contar-
me particularmente aquilo que
nunca dissera a alguém a respeito
da sua vinda a Florença com o
140 MAQUIAVEL
seu exército. E disse como, de-
pois de conquistada Faenza e
tentada a campanha de Bolonha,
os Orsini e os Vitell o instiga-
vam, querendo persuadi-lo de que
ele devia voltar a Roma por Flo-
rença, o que foi recusado por ele,
pois o papa lhe tinha ordenado
coisa diferente. Chorando, Vitel-
lozzo lançara-se-lhe aos pés, su-
plicando que seguisse aquele ca-
minho e prometendo-lhe não
fazer ao país nem às cidades vio-
lência alguma. Nem assim con-
descendia ele, mas ansistiram
tanto nisso, que afinal Sua Exce-,
lência prometeu assim fazer, sob
a condição, porém, de não ser
feita violência ao país e de não se
procurar favorecer aos Médicis.
Mas querendo tirar proveito da
sua vinda a Florença, pensou
fazer amizade com V.Sas., e
valer-se da ocasião, o que se
prova pelo fato de, em qualquer
negociação, ter falado pouco ou
nada, a respeito dos Médicis,
como sabem aliás os comissários
que trataram com ele, e o de
nunca ter consentido que Piero
viesse ao seu campo. E disse
mais que muitas vezes, quando
estavam em Campi, os Orsini e
os Vitell lhe pediram licença
para apresentar-lhe projetos de
fácil execução, ao que ele nunca
quis aceder, e antes fez-lhes ver
mil vezes que os combateria.
Depois, feita a composição com
V.Sas., pareceu-lhes, aos Orsini e
Vitelli, que ele tivesse obtido tudo
o que desejava e que a expedição
tivesse resultado em seu exclu-
sivo benefício, e em seu dano
deles, e aplicaram-se a prejudicar
aquela combinação por todas as
desonestidades e danos para que
V.Sas. o suspeitassem e fosse per-
turbado o acordo. O que não lhe
fora dado reparar, pois não podia
ele estar em todo lugar e também
por não lhe terem ainda V.Sas.
concedido o empréstimo, como
tinha sido combinado ou antes
indicado. Ficaram assim as coi-
sas até junho passado, quando
houve a rebelião de Arezzo, da
qual ele afirma, como já disse ao
Bispo de Volterra, não ter sabido
coisa alguma antes. Mas que a
tinha considerado até um bem
porque lhe parecera ocasião
azada a que se manifestassem os
sentimentos de V.Sas. a respeito
dele. Nem então se fez alguma
coisa, ou pela má sorte comum,
ou por não ter a vossa cidade a
disposição de tratar e concluir
aquilo que teria sido a salvação
de cada um, o que disse não lhe
haver dado grande aborreci-
mento. E disposto a beneficiar-
vos, tendo em vista a boa vonta-
de do rei, escreveu a Vitellozzo e
mandou-lhe portadores para que
se retirasse de Arezzo. Não con-
GR e
ESCRITOS POLÍTICOS 141
tente com isso, foi a Citta di Cas-
tello com a sua tropa. E poderia
ter tomado aquele a cidade, pois
os principais homens da terra ti-
nham vindo oferecer-se-lhe, de
onde disse que se originou a pri-
meira ira e descontentamento
seu.
Disse também não saber a ori-
gem da indignação dos Orsini
contra nosso senhor? na corte do
rei de França. Depois de haver
visto que Sua Majestade o tinha
tratado com maior consideração
do que ao Cardeal Orsini, e isso
ao mesmo tempo que corriam
certos rumores de que o rei inten-
tava tirar-lhe o poder, eles ti-
nham partido e tinham marcado
encontro nessa dieta de falidos. E
se bem que tivesse havido mais
de uma embaixada de parte do
Senhor Giulio Orsini, o qual lhe
assegurava não lhe fazer oposi-
ção alguma, etc., e se bem que
não fosse razoável que eles des-
cobrissem, quando lhes tirou o
seu dinheiro, o próprio jogo, logo
que tivessem de fazê-lo, reputa-
“va-os mais loucos do que poderia
esperar, pois é certo que não ti-
nham escolhido bem a oportuni-
dade para ofendê-lo, estando na
Itália o rei de França, e vivendo a
santidade de nosso senhor, duas
coisas que o animavam tanto,
3 Opapa.(N.doT.)
que para fazê-lo esfriar nos seus
planos seriam necessárias outras
águas que não os Orsini. Nem lhe
importava que o perturbassem no
ducado de Urbino, porque não
esquecera o meio de readquiri-lo,
- quando o perdesse; a isso ajun-
tando que era tempo agora de, se
V.Sas. quisessem ser seus ami-
gos, fazerem-se-lhe obrigados,
pois ele bem podia, sem preocu-
par-se com os Orsini, ligar-se por
amizade com V.Sas., o que não
pudera fazer antes. Mas se V.Sas.
adiassem isso e ele neste ínterim
se tivesse reconciliado com os
Orsini, os quais o procuram
anda, repetir-se-ia a situação,
pois estes só poderiam ser satis-
feitos com a reposição dos Médi-
cis, isto é, V.Sas. encontrar-se-
iam na mesma dificuldade e
temor; daí pensar ele que V.Sas.
devem sem tardança declarar-se
seus amigos ou deles, porque
adiando-se a decisão pode acon-
tecer que se faça acordo com
dano de V.Sas. ou seguir-se a
vitória de uma das partes, a qual
se lhes tornaria inimiga ou deso-
brigada para com V.Sas. E quan-
do tenham de tomar partido, o
que julga ele coisa que tem de
acontecer, não vê como V.Sas.
possam tomar outro que não
aquele onde estão a majestade do
rei e a santidade de nosso senhor,
ajuntando ainda que lhe será
142
muito grato que, se Vitellozzo ou
os outros se dirigirem a um dos
seus Estados dele, façam V.Sas.
demonstração de suas milícias
nas bandas do Borgo ou nas fron-
teiras para que assim se lhe dê
prestígio.
Pus-me a escutar atentamente
de Sua Excelência as referidas
coisas, as quais mencionei, não
só no seu sentido mas também
nas mesmas palavras que escrevi
difusamente para que S.Sas. pos-
sam melhor ajuizar de tudo. Não
escrevo o que respondi, pois não
é necessário fazê-lo: esforcei-me
por não sair dos limites da minha
missão, e quanto ao negócio
daquela demonstração não res-
pondi coisa alguma. Apenas dis-
se-lhe que escreveria a V.Sas. a
respeito das suas boas intenções
dele e que estas lhes seriam
sngularmente gratas. E se bem
que Sua Excelência, como vêem,
mostrasse desejar que se faça
depressa o acordo entre V.Sas. e
ele, não obstante ter eu procu-
rado fazê-lo falar para tirar do
que dizia ele alguma particulari-
dade, andou sempre ao largo e
nem pude saber senão o que
acima escrevi. Tendo eu ouvido à
minha chegada que houvera algu-
ma coisa no ducado de Urbino e
tendo Sua Excelência dito que
não lhe importava a alteração
naquele ducado, pareceu-me
MAQUIAVEL
oportuno perguntar-lhe qual era
a situação. Ao que Sua Exce-
lência me respondeu: “A minha
clemência e pouca estimação dos
fatos prejudicaram-me. Tomei,
como sabes, em três dias aquele
ducado, e não arranquei um fio
de cabelo a ninguém, salvo a
Messer Dolce e outros dois, que
tinham ofendido a santidade de
nosso senhor; antes, o que é
melhor, tinha combinado certas
coisas com vários funcionários
daquele Estado, com um encarre-
gado de construir um muro. que
mandei fazer na Fortaleza de São
Leão, e há dois dias este tramou
com alguns camponeses do lugar,
sob pretexto de puxar para o alto
uma trave, certa maquinação, de
modo que, forçada a cidadela, se
rendeu. Todos a proclamam sua:
os venezianos, os Vitelli, os Orsi-
ni, mas por enquanto ninguém se
descobriu. Embora tenha eu por
perdido aquele ducado, porque se
trata de um Estado débil e mal
ordenado e por estarem os seus
homens descontentes e fatigados
pelo serviço da milícia que lhes
impus, espero porém a tudo pro-
ver, € escreverás aos teus senho-
res que pensem muito bem no
que vão fazer e decidam depres-
sa, porque se volta de Veneza o
duque de Urbino, não será em
proveito deles nem no nosso, O
ESCRITOS POLÍTICOS 143
que faz prestarmos maior fé um
no outro”.
Isto é, com efeito, o que por
enquanto posso escrever a V.Sas.
e conquanto devesse eu escreve-
ver-lhes sobre as tropas que tem
Die 7 Octobris 1502.
Servitor
este senhor, os seus alojamentos
e muitos outros pormenores
daqui, todavia, tendo eu chegado
hoje, não posso saber a verdade,
e por isso me reservo para uma
outra vez e recomendo a V.Sas.
NicoLAUS MACHIAVELLUS Imolac.
Escrevo-lhes ainda esta manhã
porque o mensageiro até agora
não encontrou cavalo para a via-
gem, e réstame escrever que
ontem, na conversa que tivemos,
Sua Excelência me disse que, na
véspera, Pandolfo Petrucci lhe
tinha mandado alguém disfar-
çado para assegurá-lo de que não
daria apoio a quem conitrariasse
Sua Excelência, e disso lhe falou
muito longamente.
Ontem, quando chegava. en-
Die 8 Octobris 1502.
contrei-me, ainda a coisa de duas
milhas daqui, com Messer Agapi-
to, com sete ou oito cavalos, do
qual fui reconhecido, dizendo-lhe
eu para onde ia e quem me man-
dava. Acolheu-me muito bem e,
fazendo um pouco de caminho,
voltou. Esta manha, soube que o
dito Messer Agapito tinha sido
mandado daqui a V.Sas. pelo
duque, e que voltava do caminho
com a minha chegada.
Iterum valete.
Dei ao portador dois ducados para que esteja aqui amanha, dia 9,
antes do amanhecer.
Vespucci.
Peço-lhes que reembolsem a Ser Agostino
DESCRICÃO
DO MODO DE QUE SE SERVIU
O DUQUE VALENTINO
PARA MATAR
VITELLOZZO VITELU
OLIVEROTTO DA FERMO
E O DUQUE DE GRAVINA ORSINI
Nota do Tradutor
Esta Descrizione foi composta por Maquiavel como uma espécie
de resumo do que vira na sua legação à Romanha. Não para dar um
exato testemunho histórico, diz P. Villari, mas para fazer ressaltar “a
maravilhosa prudência e arte do duque”, o que explica a diversidade
“do tom e mesmo da informação de como Valentino preparou o “bel-
lissimo inganno” — expressão de ingênua admiração usada por um
biógrafo de César Bórgia no século XVI — da versão por assim dizer
oficial dos acontecimentos, dada pelo próprio Maquiavel nas suas
cartas aos ez. Foi “sob a influência de Valentino que, na sua
mente (de Maquiavel), surgiu primeiro e começou a formular-se assaz
claramente o pensamento, o qual devia depois ocupar toda a sua
vida, de uma ciência do Estado, separada, independentemente de todo
conceito moral” (P. Villari, op. cit., pág. 388). Assim, o Valentino da
Descrizione é o precursor do Príncipe, forma teórica à qual chegou
Maquiavel mas que já se acha implícita na idealização do perfil do
duque.
Havia regressado da Lombar-
dia o Duque Valentino, aonde
fora desculpar-se para com o Rei
Luis de França de muitas calú-
nias que lhe haviam feito os
florentinos devido à rebelião de
Arezzo e das outras cidades do
vale do Chiana; e foi a Ímola,
onde intentava com a sua gente
atacar Giovanni Bentivogli, tira-
no de Bolonha, porque o duque
queria reduzir esta cidade ao seu
domínio e torná-la capital de seu
ducado da Romanha. O que,
conhecido dos Vitelli e dos Orsi-
ni e seus sequazes, lhes pareceu
fazer o duque muito poderoso, e
que se devia temer que, ocupada
Bolonha, não procurasse ele eli-
miná-los para ficar o único bem
armado na Itália. E a este res-
peito reuniram-se em conselho
em La Magione, no Perugino, ao
qual estiveram presentes o car-
deal, Pagolo e o Duque de Gravi-
na Orsini, Vitellozzo Vitell, Oli-
verotto da Fermo, Giampagolo
Baglioni, tirano de Perúgia, e
Messer Antônio da Venafro,
mandado por Pandolfo Petrucci,
chefe de Siena: ali se travaram
debates sobre a grandeza do
duque e de seus propósitos e
como era necessário frear-lhe o
apetite; ao contrário, corria-se o
perigo da ruína comum. E delibe-
raram não abandonar os Bentivo-
gli e procurar o apoio dos floren-
tinos; e a um lugar e outro
mandaram seus homens, prome-
tendo a um ajuda, ao outro con-
citando a unir-se a eles contra o
inimigo comum.
Desta reunião se soube logo
em toda a Itália; e os povos que
sob o domínio do duque não esta-
vam satisfeitos, entre os quais os
urbineses, tiveram esperança de
poder renovar as coisas. Daí nas-
ceu que, estando assim suspensos
os ânimos, certos chefes de Urbi-
no. decidiram que se ocupasse o
Forte de São Leão, o qual estava
com o duque, e disso tiveram eles
oportunidade. O castelão fortifi-
cava-se e, fazendo para ali trans-
portar madeira, fizeram os con-
jurados com que. as traves,
150
apoiando-se na fortaleza, estives-
sem sobre a ponte, a fim de que,
impedida esta, não pudesse ser
levantada pelos que estavam den-
tro; e assim saltaram na ponte e,
em seguida, na fortaleza. Por
causa da conquista da fortaleza,
logo que foi conhecida, rebelou-
se todo aquele Estado e tornou a
chamar o duque antigo; tinha-se
esperança, não tanto pela ocupa-
ção da fortaleza como pela reu-
nião de La Magione, em conse-
“quência da qual pensavam ser
ajudados. Conhecida à rebelião
de Urbino, julgaram os conjura-
dos que não se devia perder tal
ocasião, e, reunindo: sua gente,
marcharam para tomar alguma
cidade daquele Estado que hou-
vesse ficado em poder do duque;
e novamente mandaram a Flo-
rença solicitar daquela república
que os auxiliasse a apagar esse
incêndio comum, mostrando o
perigo vencido e fazendo ver que
não se deveria aguardar outra
ocasião. Mas os florentinos, pelo
ódio que votavam aos Vitelli e
aos Orsini, por diversas razões,
não só não aderiram a eles mas
mandaram Nicolau Maquiavel,
seu secretário, para oferecer ao
duque conselho e auxílio contra
estes novos inimigos; o duque es-
tava tomado de medo em Ímola,
porque, repentinamente e fora de
MAQUIAVEL
qualquer precaução sua, tendo-
se-lhe tornado inimigos seus pró-
prios soldados, encontrava-se de-
sarmado e" com a guerra
iminente. Mas reanimando-se
com as ofertas dos florentinos,
deliberou contemporizar reali-
zando acordos, pois tinha pouca
gente, e também preparando au-
xílios. Preparou-os dé duas ma-
neiras: mandando pedir tropa ao
rei de França; e estabelecendo
soldo para alguns homens de
armas e outros que, de qualquer
maneira, militassem à cavalo, e à
todos dava dinheiro. Não obstan-
te, ossinimigos avançaram, mar-
chando em direção a Fossom-
brone, onde se haviam fortificado
elementos do duque cujas fileiras
foram rompidas pelos Vitelli e
Orsini. Isto fez com que o duque
procurasse remediar a situação
com acordos. E sendo grande
simulador, não déixou de, por
todas as maneiras, fazer com que
acreditassem que desejava que
fosse deles o que haviam con-
quistado pelas armas; que lhe
bastava ter o título de principe,
mas que desejava que o princi-
pado fosse deles — e tanto os
persuadiu que mandaram ao
duque o Senhor Pagolo para tra-
tar do acordo e sustaram a guer-
ra. Mas o duque não interrompeu
as suas próprias providências e
ESCRITOS POLÍTICOS 151
por todos os meios aumentava o
número de cavalos e soldados; e
para que tais providências não
fossem notadas mandava separa-
damente suas tropas para todos
os lugares da Romanha. Haviam,
entretanto, chegado quinhentas
lanças francesas, e embora se
encontrasse já tão forte de modo
a poder, com guerra aberta, vin-
gar-se de seus inimigos, julgou
que seria mais seguro e mais útil
enganá-los e não firmar, por isso,
as cláusulas do acordo. E tanto
trabalhou pela coisa que assinou
com eles um tratado de paz onde
se confirmavam as normas referi-
das. Deu-lhes quatro mil ducados
de presente, prometeu não ofen-
der aos Bentivogli e fez amizade
com Giovanni; e, mais, que não
os pudesse constranger a ir pes-
soalmente à sua presença a não
ser que assim o quisessem. Por
outro lado, eles prometeram res-
tituir-lhe o ducado de Urbino e
todas as outras coisas por eles
ocupadas, e servi-lo em todas as
suas expedições, nem sem seu
consentimento mover guerra ou
auxiliar a alguém. Feito este
acordo, GuidUbaldo, duque de
Urbino, de novo se retirou para
Veneza, tendo feito, antes, des-
truir todas as fortalezas daquele
Estado; porque, confiando nos
povos, não queria que aquelas
-gaglia.
fortalezas que não julgava pudes-
se defender fossem ocupadas pelo
inimigo e por meio delas pudesse
manter freados seus inimigos.
Mas, tendo feito esta conven-
ção, e tendo-se dispersado a sua
gente por toda a Romanha, o
Duque Valentino, com: os ho-
mens de armas franceses, em fins
de novembro partiu de Ímola e
foi a Cesena; aí esteve muitos
dias em conversações com os
enviados de Vitell e dos Orsini,
que se encontravam com suas
tropas no ducado de Urbino,
sobre a nova empresa que se
deveria levar avante. E não con-
cluindo coisa alguma, Oliverotto
da Fermo foi mandado a ofere-
cer-lhe que, se desejasse realizar
o empreendimento de Toscana,
ali estavam para ajudá-lo e que,
se não quisesse, iriam à tomada
de Sinigaglia. Ao que respondeu
o duque que à Toscana não que-
ria fazer guerra por serem os
florentinos seus amigos, mas que
estaria satisfeito se fossem a Sini-
Em conseguência, não
muito depois, veio notícia de
como a cidade se lhes havia ren-
dido; mas que a fortaleza não
havia querido render-se porque o
castelão queria entregá-la ao
duque e não a outrem; e por isso O
concitavam a apresentar-se. ÀÃo
duque pareceu que a ocasião era
152
boa, pois, sendo chamado por
eles, não poderiam ter a descon-
fiança que teriam se ele tivesse
ido por si mesmo. E para mais
garantir-se licenciou toda a tropa
francesa, que voltou à Lombar-
dia, exceto cem lanças do Senhor
de Cindales, seu cunhado; e par-
tindo em meados de dezembro de
Cesena, foi a Fano, onde com
toda a astúcia e sagacidade de
que era capaz persuadiu os Vitel-
l e os Orsini que o esperassem
em Sinigaglia; fez-lhes ver como
aqueles selvagens não fariam
acordo com eles, nem fiel nem
permanente, e que ele próprio era
homem que queria poder valer-se
das armas e do conselho dos ami-
gos. E embora Vitellozzo esti-
vesse muito renitente e a morte
do irmão lhe houvesse ensinado
que não se deve ofender um prín-
cipe e depois fiar-se nele, persua-
dido por Paolo Orsino, subju-
gado por meio de favores e de
promessas, corrompido pelo
duque, consentiu em esperá-lo.
Assim, o duque, na véspera (que
foi o dia trinta de dezembro de
1502, quando devia partir de
Fano), comunicou sua intenção a
oito dos seus mais fiéis, entre os
quais Dom Michele e Monsenhor
d'Euna, que depois foi cardeal; e
lhes deu a incumbência de, logo
que Vitellozzo, Paolo Orsino, o.
Duque de Gravina e Oliverotto
"MAQUIAVEL
lhe fossem ao encontro, fazer
com que entre cada dois deles se
interpusesse um daqueles (desig-
nando o homem certo aos ho-
mens certos), e que ós entreti-
vessem até Sinigaglia; que não os
deixassem partir enquanto não
houvessem chegado ao aloja-
mento do duque, e presos. Orde-
nou, em seguida, que todos os
seus homens, infantes e cavalei-
ros, que eram mais que dois mil
cavalos e dez mil infantes, esti-
vessem às primeiras horas da
manha no Metauro (rio distante
de Fano (cinco milhas), onde
deveriam esperá-lo. Encontran-
do-se, pois, no fim de dezembro
no Metauro com aquela gente,
fez caminhar para a frente cerca
de duzentos cavalos: depois
moveu a infantaria; depois desta
a sua pessoa com o resto dos ho-
mens de armas.
Fano e Sinigaglia são duas
cidades da Marca, situadas na
margem do mar Adriático, dis-
tantes uma da outra quinze mi-
lhas: de modo que quem vai para
Sinigaglia tem à mão direita os
montes; as raízes destes por
vezes se limitam com o mar, pois
deles à água é pequeníssimo o
espaço; e onde mais se alargam,
“não se alcança a distância de
duas milhas. A cidade de Siniga-
glia da raiz dos montes afasta-se
pouco mais que um tiro de arco e
ESCRITOS POLÍTICOS
do mar estã distante menos de
uma milha. Junto a esta corre um
pequeno rio que lhe banha a
parte dos muros que está na dire-
ção de Fano, olhando a estrada.
Portanto, quem chega próximo
de Sinigaglia vem, durante bom
espaço de caminho, ao longo dos
montes; e alcançando o rio que
passa ao longo de Sinigaglia vol-
ta-se à mão direita ao longo da
margem daquele; tanto que, an-
dando o espaço de uma arcada,
chega a uma ponte que passa
aquele rio e está quase defronte à
porta que entra em Sinigaglia,
não por linha retá, mas transver-
salmente. Diante da porta há um
burgo de casas com uma praça
que a margem do rio borda por
um dos lados.
Tendo, portanto, os Vitelle os
Orsini dado ordem de esperar o
duque e pessoalmente honrá-lo,
para dar lugar à tropa deste ha-
viam retirado a sua para certos
acampamentos distantes seis mi-
lhas de Sinigaglia; e só haviam
deixado em Sinigaglia Oliverotto
com o seu bando, que era de mil
infantes e cento e cinquenta cava-
los, os quais estavam alojados no
burgo a que acima se fez referên-
cia. Dispostas, assim as coisas, O
Duque Valentino dirigiu-se para
Sinigaglia, e quando chegou à
ponte, com os primeiros cavalos,
não a transpós; mas, detendo-se,
[5
voltaram os cavaleiros as garu-
pas das suas montadas parte para
o rio € parte para o campo; e dei-
xaram caminho de permeio, por
onde as tropas de infantaria pas-
savam, as quais, sem se deter,
entravam na cidade. Vitellozzo,
Pagolo e o Duque de Gravina,
montados em mulas, foram ao
encontro do duque, acompa-
nhados de poucos cavaleiros: e
Vitellozzo, desarmado, com uma
capa forrada de verde, todo afli-
to, como se soubesse de sua pró-
xima morte, dava de si, conhe-
cida a coragem do homem e sua
fortuna passada, alguma admira-
ção. E se diz que, quando ele se
separou da sua gente para ir a
Sinigaglia ao encontro do duque,
ele o fez como se fosse a sua últi-
ma partida; aos membros da sua
casa recomendou-a e a sua gló-
ria; e advertiu os sobrinhos que
não da fortuna de suas casas mas
da virtude de seus pais se lem-
brassem.
Chegados enfim os três diante
do duque e saudando-o civil-
mente, foram por ele recebidos de
bom grado; e logo por aqueles a
quem fora cometida a tarefa de
observá-los foram cercados. Mas
vendo o duque que faltava Olive-
rotto, o qual havia ficado com os
seus homens em Sinigaglia ou
atendia diante da praça do seu
alojamento sobre o rio a mantê-
154
los em ordem e exercitá-los na-
quilo, fez um sinal com os olhos
a Dom Michele, ao qual fora
confiada a parte referente a Oli-
verotto, que agisse de maneira a
que este não se livrasse. Então,
Dom Michele, no seu cavalo,
adiantou-se: e chegando junto a
Oliverotto disse-lhe de como não
era oportuno ter a sua gente reu-
nida fora do alojamento porque
este seria tomado pelo duque; e
assim concitou-o a alojá-las e a
que fosse com ele ao encontro do
duque. E tendo Oliverotto segui-
do tal ordem, veio o duque, que,
vendo-o, o chamou: a isso, Olive-
rotto, tendo feito reverência, jun-
tou-se aos outros. E entrados em
Sinigaglia, e apeados todos no
alojamento do duque, e entrando
com ele numa sala secreta, pelo
duque foram feitos prisioneiros.
Este logo montou a cavalo e
mandou que fossem saqueadas as
tropas de Oliverotto e dos Orsini.
Assim foi com as de Oliverotto,
por estarem próximas: as dos Or-
sini e Vitelli, estando mais distan-
tes e tendo pressentido a ruína de
seus senhores, tiveram tempo de
reunir-se; e lembrando-se da vir-
tude e da disciplina das casas dos
Orsini e dos Vitell, as quais
eram estreitamente aliadas con-
tra Os inimigos, se salvaram. Mas
os soldados do duque, não estan-
MAQUIAVEL
do contentes com o saque das
forças de Oliverotto, começaram
a saquear Sinigaglia; e se não
fosse ter o duque, com a morte de
muitos, refreado a imsolência
deles, tê-la-iam saqueado toda.
Mas chegando a noite e cessados
os tumuitos, ao duque pareceu
bem mandar matar Vitellozzo e
Oliverotto; e conduzindo-os jun-
tamente a um lugar, mandou
estrangulá-los. Tem-se que não
foram usadas por nenhum deles
palavras dignas de sua vida pas-
sada: porque Vitellozzo rogou
que por ele se suplicasse ao papa,
que lhe desse dos seus pecados
indulgência plena; Oliverotto,
toda a culpa das injúrias feitas ao
duque, chorando, atirava-a a Vi-
tellozzo; Pagolo e o duque de
Gravina Orsini foram conser-
vados vivos, até que o duque
soube que em Roma o papa
havia prendido o Cardeal Orsini,
o arcebispo de Florença e Messer
Iacopo da Santa Croce. Depois
desta nova, aos dias dezoito de
janeiro, em Castel della Pieve,
foram ainda aqueles estrangu-
lados da mesma maneira.
Termina aqui a descrição do
modo de que se serviu o Duque
Valentino para matar Vitellozzo,
Oliverotto da Fermo, Pagolo Or-
sino e o Duque de Gravina Orsi-
ni, em Sinigaglia.
DISCURSO SOBRE AS COISAS
DA ALEMANHA
ESOBREO IMPERADOR
Nota do Tradutor
Francesco Vettori, embaixador florentino junto à corte de Maximi-
liano, escrevia ao seu governo em fins do ano de 1507 que era neces-
sário pagar os cinquenta mil ducados que o imperador pedira, pois do
contrário se podia contar com a inimizade dele. Discutiu-se muito em
Florença o valor que podiam ter a amizade do imperador e a do rei
de França, as quais eram incompatíveis. Em dezembro de 1507, par-
tia para a Alemanha Maquiavel, que levava novas instruções: ofere-
cer a Maximiliano trinta mil ducados e, somente em extrema necessi-
dade, dar-lhe os cinquenta mil pedidos. Mas, em todo caso, só se
começaria a fazer o pagamento quando houvesse a certeza de que ele
viria a Itália. |
Voltando a Florença, escreveu Maquiavel, a 17 de junho de 1508,
o Rapporto di Cose della Magna, onde faz um fiel retrato de Maximi-
liano e uma descrição geral do país. Os Ritratti delle Cose
del? Alemagna são de data posterior (1512), e ficou interrompida a
sua composição. Seria uma versão literariamente mais apurada do
Rapporto e aumentada com observações inéditas. O Discorso sopra
le Cose di Alemagna e sopra PImperatore é de 1509, sendo também
quase um resumo do Rapporto.
Por HAVER escrito quando
aqui cheguei, ano passado, sobre
o imperador e a Alemanha, não
sei que dizer mais. Direi somente
de novo da natureza do impera-
dor; como é homem pródigo do
seu, sobre todos os outros que em
nossos tempos ou antes existi-
ram: o que faz com que sempre
tenha necessidade, nem soma al-
guma exista que lhe baste, em
qualquer grau que a fortuna se
encontre. É vário, porque hoje
quer uma coisa e amanhã não:
quer as coisas que não podê ter e
daquelas que pode ter se afasta, e
por isso toma sempre o partido
inverso. É, por outro lado,
homem belicosíssimo; comanda e
conduz bem um exército, com
Justiça e com ordem. Pode supor-
tar qualquer fadiga, mais que ne-
nhum outro homem trabalhador;
animoso nos perigos: de tal modo
que, como capitão, não é inferior
a nenhum outro. É humano quan-
do dá audiência, mas a quer dar à
sua vontade; nem quer ser corte-
jado pelos embaixadores, senão
quando lhes manda fazê-lo. É
reservadissimo. Está sempre em
contínuas agitações de alma e de
corpo; mas frequentemente des-
faz de noite o que conclui pela
manha. Isto torna dificeis as
legações junto a ele; porque a
parte mais importante que tenha
alguém que seja enviado dum
principe ou república é inter-
pretar bem as coisas futuras,
assim os tratados como os fatos:
porque quem deles conjetura sa-
biamente e os faz compreender
bem ao seu superior é razão para
que este possa adiantar-se sempre
e assegurar-se a seu devido
tempo. Isso, quando bem feito,
honra a quem está fora e benefi-
cia quem está em casa: e o con-
trário acontece quando é mal
feito. E para vir a descrevê-las
particularmente, vós estareis em
lugares onde se manejarão duas
coisas: guerra e tratados. A que-
rer desempenhar bem vosso ofi-
cio, vós deveis dizer que opinião
se tenha de uma e de outra coisa.
160
A guerra deve-se medir com a
tropa, com o dinheiro, com o
govemo e com a fortuna; e quem
tem mais das mencionadas coisas
deve-se crer que vencerá. E consi-
derado por isso quem possa ven-
cer, é necessário que se entenda
aqui, a fim de que vós e a cidade
possais melhor deliberar. Os tra-
tados são concluídos de várias
“maneiras: isto é, parte entre os
venezianos e o imperador, parte
entre o imperador e a França,
parte entre o imperador e o papa,
MAQUIAVEL
parte entre o imperador e vós.
Pelos vossos próprios acordos
deveria ser-vos fácil fazer a sua
interpretação, e ver qual é o
intento do imperador para con-
vosco, o que deseje, para onde es-
teja voltado o seu ânimo e o que
seja necessário fazer para fazê-lo
recuar ou ir por diante; e encon-
trado isso, ver se está mais a pro-
pósito temporizar que concluir.
isso estará em vós deliberaá-lo,
com relação a quanto se estende-
rã à vossa comissão.
RELATÓRIO SOBRE
AS COISAS DA ALEMANHA
RATO.
17 DE JUNHO DE 1508 +
O IMPERADOR reuniu,
Junho passado, em Constança, a
Dieta, composta por todos os
príncipes da Alemanha, a fim de
que lhe fossem garantidos meios
de invadir a Itália e coroar-se
imperador. O que fez por sua
vontade própria e, ainda, por ter
sido solicitado pelo enviado do
pontífice, que lhe prometia gran-
de ajuda por parte deste. Pediu o
imperador à Dieta, para tal em-
presa, três mil cavalos e dezesseis
mil infantes; e prometeu juntar
nesse total, por si mesmo, até
trinta mil pessoas. À razão de ter
ele pedido tão pouca gente para
tao grande empresa foi: a pri-
meira porque ele julgou que bas-
tassem, persuadindo-se de que se
poderia valer dos venezianos e de
outros da Itália, como adiante se
dirá; nem julgou nunca que os.
venezianos lhe faltassem, tendo-
os servido pouco antes, quando
temiam a França, depois da to-
mada de Gênova, porque havia, a
pedido deles, mandado cerca de
dois mil homens a Trento. Decla-
em
rara que queria reunir os prínci-
pes e que tinha ido à Suábia para
ameaçar os suíços se estes não
rompessem com a França: o que
fez com que o Rei Luis, logo de-
pois da conquista de Gênova,
regressasse a Lião de modo que,
parecendo ao imperador que lhes
tirara a guerra de cima, acredi-
tava que em tudo o devessem
apoiar; e se comprouve em dizer
mais de uma vez que in Italia non
habebat amicos propter Vene-
tos*. As outras razões ainda por
que pediu tão pouca gente foram
que o império lhas prometesse e
cumprisse; ou que condescen-
desse de mais bom grado em pô-
las todas sob sua obediência e
não procurasse dar-lhe capitães
nomeados pelo império e que fos-
sem seus iguais. Porque não fal-
tou quem na Dieta relembrasse
(entre os quais estava o arcebispo
de Mogúncia) que conviria fazer
grande a expedição, provendo
* Por causa dos venezianos não tinha amigos
na Itália. (N. do E.)
164
pelo menos a quarenta mil ho-
mens e lhes dar em nome do
império quatro capitães, etc. *O
que encolerizou o imperador, que
disse: Ego possum ferre labores,
volo etiam honores*: tanto que
pediu os referidos dezenove mil
homens e mais, que lhe dessem
cento e vinte mil florins para su-
prir à necessidade do acampa-
mento e para pagar soldo a cinco
mil suíços por seis meses, como
melhor lhe parecia. Propôs o
imperador que as tropas estives-
sem reunidas no dia de São Galo;
parecendo-lhe tempo mais que
suficiente para tê-las prontas e
cômodo ao modo pelo qual elas
faziam a guerra. E em seguida
declarou que dentro do tempo
referido teria realizado três coi-
sas: uma, O ter-se ganho o apoio
dos venezianos, dos quais não
desconfiou até a última hora, não
obstante haver sido depois expul-
so o enviado deles, como se sabe;
a outra, ter firmes os suíços; a
terceira, ter tirado do pontífice e
de outros da Itália boa quanti-
dade de dinheiro.
Foi, portanto, combinando
estas coisas: chegou o dia de São
Galo; as tropas começaram a
reunir-se e ele, das três, não havia
realizado nenhuma. E parecen-
S Eu posso enfrentar as dificuldades, quero
também as honras. (N. do E.) ,
MAQUIAVEL
do-lhe não poder mover-se nem
deixando ainda de esperar condu-
zi-las a termo, enviou as forças,
parte para Trento, parte para ou-
tros lugares; e não deixava as
suas pretensões; de modo que ele
se encontrou em janeiro é consu-
mida a metade do tempo previsto
pelo império, sem ter feito coisa
alguma. Vendo-se chegado a este
extremo, fez ultimatum de po-
tentiaº para ter os venezianos;
“aos quais mandou Fra Bianco,
mandou o Padre Luca, mandou o
déspota da Morea e os seus arau-
tos várias vezes. E eles, quanto
mais eram solicitados, tanto mais
o percebiam fraco e mais lhes
fugia a vontade. Nem aí perce-
biam alguma daquelas coisas
pelas quais as alianças de Esta-
dos se fazem; que são, ou para
ser defendido, ou por medo de ser
ofendido. ou por lucro: mas viam
que entravam para uma aliança
onde a despesa e perigo era deles
e o lucro de outros. Portanto, o
imperador, sem ter outro partido
a tomar, sem perder mais tempo,
“deliberou atacá-los, acreditando,
talvez, fazê-los recuar, e talvez
lhe tenha sido dada a intenção
disso pelos seus enviados: ou,
pelo menos, com a desculpa de
tal ataque, fazer com que o impé-
rio afirmasse e acrescesse as suas
8 Ultimatum de autoridade. (N. do E.)
|
|
ESCRITOS POLÍTICOS
tropas de reforço, percebendo
que as primeiras não haviam bas-.
tado. E como sabia que, antes de
ter recebido maiores reforços,
não podia estar fazendo a guerra,
para não deixar o país à discri-
ção, reuniu, antes do assalto, no
dia 8 de janeiro, em Buggiano,
lugar que fica a um dia de Tren-
to, a Dieta do condado do Tirol.
É este condado toda a parte que
era de seu tio, e lhe rende mais de
trezentos mil florins, sem imposi-
ção de nenhum tributo, dá mais
de dezesseis mil homens de guer-
ra e os seus habitantes são muito
ricos. Esteve essa dieta em ativi-
dade dezenove dias; e afinal con-
cluiu por dar mil infantes para
sua vinda à Itália, e, não chegan-
do, até cinco mil em três meses; e
finalmente dez mil para a defesa
do país, sendo necessário. E de-
pois de tal conclusão, foi para
Trento; e no dia 6 de fevereiro
realizou aqueles dois ataques
contra Roveredo e. Vicenza, com
cerca de cinco mil homens ao
todo. Depois partiu logo; e com
cerca de mil e quinhentos infan-
tes e camponeses entrou no vale
de Codaura em direção do Trivi-
giano: apoderou-se de: um vale e
de diversas fortalezas; e vendo
que os venezianos não se me-
xiam, deixou avisadas aquelas
tropas de que deviam entrar em
ação e voltou para tomar conhe-
165
cimento das disposições do impé-
rio. Os infantes foram mortos em
Codaura e ele mandou o Duque
de Brunswick, do qual nunca se
soube coisa alguma. Reuniu a
Dieta na Suábia” no terceiro
domingo da Quaresma; e porque
tudo lhe parecia ir mal, dirigiu-se
a Gueldre e mandou o Padre
Luca aos venezianos para tentar
a trégua, que se concluiu no dia 6
do presente mês de junho, per-
dendo ele o que possuía no Friul,
tendo quase perdido Trento, a
qual foi defendida pelo condado
do Tirol; porque pelo imperador
e pelas forças imperiais pouco
faltou para que se perdesse, pois
todos partiam nos maiores peri-
gos da guerra, quando se esgo-
tava o prazo de seus seis meses.
Sei que os homens, que ouvi-
ram e viram estas coisas, confun-
dem-se e divergem em muitas
partes; nem sabem por que não
se viram estas dezenove mil pes-,
soas que o império prometeu,
nem por que a Alemanha não se
tenha ressentido da perda de sua
honra, nem por que razão o
imperador se tenha enganado
tanto: e assim cada qual tem opi-
nião diferente sobre aquilo que se
dêva temer ou esperar para Oo
futuro, e para onde as coisas se
podem orientar. Eu, tendo estado
7 Em Ulm. (N. do T.)
166
no local, e tendo ouvido falar
muitas vezes a muitos, nem tendo
tido outra tarefa que não esta,
referirei todas as coisas que guar-
dei; as quais, se não distinta-
mente, todas -juntas, misturadas,
responderão aos quesitos acima:
nem as apresento como verda-
deiras e ponderáveis, mas comc
coisas ouvidas; parecendo-me
que o ofício de um servidor seja
colocar diante do seu senhor tudo
quanto ele apura, para que, da-
quilo que seja bom, ele possa
fazer cabedal.
Cada um daqueles a quem eu
ouvi falar está de acordo em que
se o imperador tivesse uma das
duas coisas, sem dúvida lhe teria
saído bem qualquer desígnio na
Itália, sabendo-se como ela está
condicionada: as quais são, ou
que mudasse de natureza, ou que
a Alemanha o ajudasse deveras.
E começando-se pela primeira,
dizem que, considerados os seus
fundamentos, se ele deles se sou-
besse valer não seria inferior a
nenhum outro potentado cristão.
Dizem que os seus Estados lhe
dao de renda seiscentos mil flo-
rins sem requerer qualquer tribu-
to e cem mil florins lhe vale o ofií-
cio imperial. Esta renda é toda
sua, e não a tem por necessidade
obrigada a nenhuma despesa.
Porque em três coisas onde os
outros príncipes são obrigados a
MAQUIAVEL
despender, ele não gasta um
soldo; porque não tem gente de
armas, não paga guarnições de
fortalezas nem oficiais de terra:
porque os gentis-homens do país
estão armados às próprias
custas; as fortalezas compete
guardá-las ao país; e as cidades
têm os seus burgomestres, que se
interessam por elas.
Poderia, portanto, se fosse um
rei de Espanha, em pouco tempo
criar tão grande base por si
mesmo, que lhe sairia bem qual-
quer coisa: porque, com um capi-
tal de oitocentos ou novecentos
mil florins, o império não seria
tão desprezível; e o país por
pouco que fizesse não deixaria de
resultar em grande aumento: e
tendo a possibilidade de fazer
guerra de súbito, por ter gente ar-
mada em toda parte, poderia,
encontrando-se provido de di-
nheiro, mover campanha sem
detença e encontrar, em matéria
de armas, quem quer que fosse,
desprevenido. Acrescente-se a
isto a reputação que advém do
fato de ter ele, por sobrinhos, o
rei de Castela, o duque de Borgo-
nha e o conde de Flandres; a
aliança que tem com a Ingla-
terra: estas coisas lhe seriam de
grande utilidade quando fossem
bem empregadas, de modo que
sem dúvida todos os projetos na
Itália lhe resultariam bem. Mas
ESCRITOS POLÍTICOS
mesmo com todas as arrecada-
ções mencionadas, ele nunca tem
dinheiro algum; e, o que é pior,
não vê aonde o dinheiro vai.
Quanto ao manejar as outras
coisas, o Padre Luca, que é um
dos principais homens de que ele
se utiliza, disse-me estas pala-
vras: o imperador não pede con-
selho a ninguém e é aconselhado
por todos; quer fazer tudo por si
e nada faz a seu modo; porque,
não obstante não descobrir ele
nunca os seus segredos esponta-
neamente, como o assunto os
descobre, o imperador volve as
costas aos que lhe estão ao derre-
dor e se afasta daquela sua pri-
meira ordem. E são estas duas
coisas: a liberalidade e a facili-
dade, que o fazem louvado de
muitos que o arruínam. Nem a
sua vinda à Itália é por outra
razão tão espantosa quanto -por
esta: porque com a vitória as
necessidades lhe cresciam, não
lhe convindo haver firmado pé
assim depressa; e não mudando
de maneiras, se as frondes das ár-
vores da Itália se lhe tivessem
transformado em ducados, não
lhe bastariam. Não há coisa que,
com dinheiro na mão, não se
tivesse então obtido: e contudo
muitos julgavam prudentes aos
que custavam mais a dar-lhe
dinheiro a primeira vez, porque
estes não teriam de custar ainda
167
mais a dar-lho a segunda. E.
quando eles não tivessem tido ou-
tras ações contra o príncipe, este
lhes teria pedido dinheiro em
empréstimo; e se não lhe fosse
emprestada a soma pedida até
então, ter-se-iam eles tirado fora.
Eu vos quero dar disto uma veris-
sima demonstração. Quando
Messer Pagolo, a 29 de março,
fez aquela pergunta, eu, despa-
chado que foi Francisco por ele,
fui visitá-lo com o capítulo feito
relativamente à vossa petição; e
quando ele chegou aquela parte
que diz non possit Imperator pe-
tere aliam summam pecuniarum,
etc., queria que antes de petere se
pusesse iureº: e perguntando-lhe
eu por quê, respondeu que queria
que o imperador vos pudesse
solicitar dinheiro em emprés-
timo; então lhe respondi de ma-
neira que ele se contentou. E
notai isto: que das suas fre-
quentes desordens nascem as
suas frequentes necessidades, e
das frequentes suas necessidades
os frequentes pedidos, e destes as
frequentes Dietas, e do seu pouco
critério as fracas resoluções e
fraquíssimas execuções.
Mas se tivesse vindo à Itália,
vós o não teríeis podido satisfa-
8 ...parte que diz: “O imperador não pode
exigir outra soma de dinheiro, etc., queria que
antes de exigir se pusesse por direito. (N. do
E.)
168
zer nas reuniões da Dieta como
faz a Alemanha. E tanto mais o
prejudica esta sua liberalidade,
quanto para fazer a guerra lhe é
necessário mais dinheiro .que a
qualquer outro príncipe: porque
OS seus povos, por serem livres e
ricos, não são instados nem pela
necessidade nem atraídos por
qualquer afeição, mas o servem
pela determinação da sua comu-
nidade e pelo seu preço; de
maneira que, se ao fim de trinta
dias o dinheiro não aparece, logo
partem e não os podem reter
rogos ou esperança ou ameaça,
faltando-lhes o dinheiro. E se
digo que os povos da Alemanha
são ricos é que assim é a verdade;
e o que os faz ricos, em grande
parte, é o viver como pobres;
porque não edificam, não vestem
e não têm mantimentos em casa,
e lhes basta ter pão e carne em
' abundância e uma estufa para
fugir do frio. Quem não tem ou-
tras coisas, passa sem elas e não
as procura. Gastam consigo dois
florins em dez anos, e cada qual
vive segundo a sua vontade a esta
proporção, e ninguém se importa
com aquilo que lhe falta e sim
com aquilo que tem de necessá-
rio; e as suas necessidades são
muito menores do que as nossas:
e deste costume resulta que não
sai dinheiro de seu país e eles
estão contentes com o que lá se
MAQUIAVEL
produz; e gozam sua vida rústica
e livre e não querem ir à guerra se
não são bem pagos, e isto tam-
bém não lhes bastaria se as
comunidades assim não lhes de-
terminassem: e assim ao impera-
dor seria necessário muito mais
dinheiro do que ao rei de Espa-
nha ou a outros que tenham orde-
nado o seu povo de modo dife-
rente.
A sua fácil e boa natureza faz
com que cada um que ele tem ao
seu redor o engane: e declarou-
me um dos seus que cada homem
e cada fato o pode enganar uma
vez quando ele o percebeu: mas
são tantos os homens, tantos os
fatos, que lhe pode suceder ser
enganado todos os dias, mesmo
que ele sempre se apercebesse do
engano. Possui infinitas virtudes;
e se combinasse as duas partes
mencionadas, seria um homem
perfeitíssimo: porque êle é per-
feito capitão; mantém o país com
grande justiça; acessível às au-
diências e benéfico, e muitas ou-
tras qualidades de ótimo prínci-
pe: concluindo que se temperasse
aquelas duas podem todos perce-
ber que todas as coisas lhe da-
riam bom resultado.
Da potência da Alemanha nin-
guém pode duvidar; porque tem
ela abundância de homens, . de
riquezas e de armas. E quanto à
riqueza, não há comunidade que
i
|
ESCRITOS POLÍTICOS
não tenha dinheiro economizado;
e todos dizem que Estrasburgo
sozinha tem vários milhões de
florins em prata: e isto lhe vem
de não terem despesa que os faça
gastar mais dinheiro do que a que
fazem para se fornecer de muni-
ções; nas quais, tendo despen-
dido certa soma de uma vez, des-
pendem pouco em mantê-las. E
nisso são bem ordenados porque
têm sempre em público o que
fazem para se fornecer de muni-
ções; nas quais, tendo despen-
dido certa soma de uma vez, des-
pendem pouco em mantê-las. E
nisso são bem ordenados porque
têm sempre em público o que
- comer, beber, queimar durante
um ano; e da mesma maneira, O
que por um ano trabalhar nas
suas indústrias, para poder, em
caso de necessidade, dar de
comer à plebe, e áqueles que
vivem dos braços, por um ano
inteiro, sem perda. Em soldados
não gastam porque têm os seus
homens armados e exercitados.
Em salários e em outras coisas,
gastam pouco: de tal forma que
cada comunidade se encontra
rica. Resta agora que as cidades
se unam aos príncipes para favo-
recer os empreendimentos do im-
perador ou que, por si mesmas,
sem os príncipes, o desejem levar
adiante, pois que bastariam a
isso. E aqueles que falam disso
169
dizem que a causa da desunião
está no fato de existirem muitos
temperamentos contrários naque-
la província, o que produz desu-
nião geral, dizendo que os suíços
estão em inimizade com a Ale-
manha, as comunidades com os
principes e os príncipes com o
imperador. E parece talvez coisa
estranha dizer que os suíços e as
comunidades sejam inimigos,
atendendo ambos ao mesmo de-
signio de salvar a liberdade e
guardar-se dos príncipes: mas
esta sua desunião existe porque
Os suíços não somente são inimi-
gos dos príncipes como das co-
munidades, mas também são ini-
migos dos gentis-homens; porque
no seu país não existe nem de
uma nem de outra espécie, e
gozam de uma verdadeira liber-
dade sem distinção nenhuma nos
homens, salvo aqueles que exer-
cem a magistratura. Este exem-
plo dos suíços faz medo aos
gentis-homens que permane-
ceram nas comunidades; e toda a
sua indústria está em mantê-los
desunidos; e pouco amigos deles.
São ainda inimigos dos suíços
todos aqueles homens das comu-
nidades que atendem aos miste-
res da guerra, movidos por uma
inveja natural, parecendo-lhes ser
menos estimados nas armas que
aqueles; de modo que não se.
pode reunir num campo pequeno
170 | MAQUIAVEL
um grande número desses, que
não briguem entre si.
Quanto à inimizade dos prínci-
pes com as comunidades e com
os suíços, não é preciso falar
mais, sendo coisa conhecida; e
assim também que existe entre o
imperador e os ditos príncipes. E
deveis compreender que, tendo o
imperador seu Ódio principal
contra os príncipes e não poden-
do por si mesmo rebaixá-los,
valeu-se dos favores das comuni-
dades e por esta mesma razão, de
um tempo a esta parte, entreteve
os suíços, com os quais lhe pare-
cia ultimamente ter chegado a
um certo grau de confiança.
Tanto que, consideradas, em
geral todas estas divisões, e jun-
tando-se depois as que existem
entre um príncipe e outro, e uma
comunidade e outra, tornam difi-
cil a união, de que o imperador
teria necessidade. E aquilo que
fazia com que todos confiassem,
que tornava gloriosas as ações do
imperador e plausíveis as suas
empresas, é que não se via prin-
cipe na Alemanha que pudesse
opor-se aos seus desígnios, como:
antigamente houve: o que era e é
a verdade. Mas aquilo em que os
outros se enganavam é que não
somente o imperador pode ser re-
tido se se lhe mover guerra e
tumulto na Alemanha, mas ele
pode ser ainda retido se não for
ajudado; e aqueles que não
ousam mover-lhe a guerra ousam
retirar-lhe os auxílios; e quem
não ousa negar-lhos ousa, prome-
tidos que os tem, não observar a
promessa; e quem ainda não
ousa isso ousa diferir-lhos, de
modo que não cheguem em
tempo útil. E todas estas coisas o
ofendem e o perturbam. Sabe-se
disto por ter-lhe a Dieta prometi-
do, como se disse acima, deze-
nove mil homens, e por não se
terem visto nunca tantos que che-
gassem a cinco mil. Pode-se con-
siderar que se origine tal fato das
razões mencionadas, ou de ter ele
tomado dinheiro em vez de gente,
e talvez por ter tomado cinco por
dez. E para chegar a outra afir-
mação relativamente à potência
da Alemanha e da sua união,
digo que este poder está mais nas
comunidades que nos príncipes.
Porque os príncipes são de duas
naturezas: ou temporais ou espi-
rituais. Os temporais estão como
que reduzidos a uma grande debi-
lidade; parte por eles mesmos,
sendo cada principado dividido
em diversos príncipes pela divi-
são igual da herança que eles
observam, parte por havê-los re-
baixado o imperador com o favor
das comunas, como se disse, de
tal maneira, que são amigos inú-
teis e inimigos pouco -temíveis.
Existem ainda, como foi dito, os
|
|
|
ESCRITOS POLÍTICOS
príncipes eclesiásticos: os quais,
se as divisões hereditárias não os
aniquilaram, os reduziu a ambi-
ção das suas comunidades, com
o favor do imperador; de tal
maneira que os arcebispos eleito-
res e outros semelhantes nada
podem nas grandes comunidades
próprias: do que advém que nem
eles nem as suas terras, sendo
divididas juntamente, podem fa-
vorecer empresas do imperador
quando bem o desejassem.
Mas venhamos às comuni-
dades francas e imperiais, que
são o nervo daquela província;
onde há dinheiro e ordem. Estas
têm muitas razões de não se mos-
trar solicitas em prover o impera-
dor de dinheiro, pois lhe é inten-
ção principal manter a própria
liberdade e não conquistar mais
império; e aquilo que não dese-
jam para si não cuidam para que
outrem o tenha. Além disso, por
serem tantas, e cada qual gover-
nar-se por si, as suas provisões,
quando o desejam fazer, são tar-
das e não possuem a utilidade
que seria de desejar. Por exem-
plo, há isto: os suíços, nove anos
faz agora, assaltaram o Estado
de Maximiliano e a Suábia. Con-
veio o rei com estas comunidades
em reprimi-los; e eles se obriga-
ram a manter em campo catorze
mil homens, mas destes nunca se
viu nem a metade; porque quan-
“conhecer
11
do os de uma comunidade vi-
nham os da outra se retiravam.
Assim, o imperador, desesperado
daquela empresa, fez acordo com
os suíços e lhes deixou Basiléia.
Ora, se nos seus próprios interes-
ses as comunas têm usado destes
termos, pensai no que fariam
quando se tratasse de empresas
de outrem. Donde todas estas
coisas reunidas fazem com que
esta potência se torne pequena e
pouce útil ao imperador. E por-
que os venezianos, no comércio
que mantêm com os mercadores
das comunas da Alemanha, com-
preenderam isso melhor do que
quaisquer outros da Itália, me-
lhor se opuseram; porque se eles
houvessem temido esta potência
não se lhe teriam oposto, e
mesmo se, quando se lhe tives-
sem oposto, tivessem Julgado
possível que aquelas comunas se
pudessem unir, nunca a teriam
feido; mas porque lhes parecia
esta impossibilidade,
foram fortes como se viu. Não
obstante, quase todos os italianos
que estão.na corte do imperador
(dos quais ouvi dizer as mencio-
nadas coisas) permanecem agar-
rados a esta esperança, a saber,
de que a Alemanha se empenhe
em unir-se agora e b imperador
atirar-se-lhe ao ventre, e manter
agora aquela ordem de capitães e
Jr?
das gentes de que se falou no ano
passado na Dieta de Constança;
e que o imperador agora cederá
por necessidade, e eles o farão de
bom grado, para reaver a honra
do império; e a trégua não os
iricomodará, pois será feita pelo
imperador e não por eles. Ao que
responde alguém não dar muita
fé a que isto esteja para aconte-'
cer; porque se vê todos os dias
que as coisas que numa cidade
pertencem a muitos são descura-
das: tanto mais deve acontecer
numa província. Além disso, as
comunidades sabem que a con-
quista da Itália seria para os
príncipes e não para eles; poden-
do estes vir a gozar pessoalmente
MAQUIAVEL
as cidades da Itália e eles não: e
onde a recompensa deva ser desi-
gual, os homens pouco se .esfor-
çam, e de mã vontade. Assim,
permanece esta opinião indecisa,
sem poder resolver-se sobre o que
há de acontecer.
E isto é o que eu entendo da
. Alemanha, Com relação às ou-
tras coisas, do que poderia haver
de paz e de guerra entre os prínci-
pes, ouvi dizer muitas coisas;
que, por serem fundadas todas
em conjeturas (do que se tem
aqui mais verdadeira notícia e
melhor Juízo), deixá-las-ei de
parte. Valete”.
3 Saudações. (N. do E.)
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AS TROPAS alemãs são muito
bem montadas, mas são pesadas,
e outrossim são muito bem arma-
das na parte que usam armar.
Mas deve-se notar que num pré-
lo de armas contra italianos ou
franceses nada valeriam; não
pela qualidade dos homens, mas
porque não usam nos cavalos
armadura de nenhuma espécie, e
as selas pequenas, fracas e sem
estribos, de maneira que qualquer
pequeno choque os atira por
terra. Eis outra coisa que os
torna mais débeis: do busto para
baixo, isto é, coxas e pernas, não
se resguardam em nada; de modo
que, não podendo agúentar a pri-
meira investida, e nisso consiste a
importância das tropas e do feito
de armas, não podem mais com-
bater com arma curta; porque
podem ser atingidos, assim como
os seus cavalos, nos lugares des-
guarnecidos, e está nas possibili-
dades de qualquer peão com
lança arrancá-los dos cavalos ou
destripá-los; e além disso, pelo
seu próprio peso, mal se agúen-
tam, quando se agitam os cava-
los.
As tropas de infantaria são óti-
mas, e compostas de homens de
bela estatura; ao contrário dos
suíços, que são pequenos, e não
são limpos nem belos: mas não
se armam, ou poucos, com mais
do que a lança ou adaga, para ser
mais àgeis, prestos e leves. E cos-
tumam dizer que fazem assim
por não ter outro inimigo que
não a artilharia, da qual uma
armadura, couraça, cota de
malha não os defenderia. Outras
armas não temem, pois afirmam
possuir tal ordem, que não é pos-
sível entrar entre eles, nem apro-
ximar-se-lhes quando a lança é
longa. São ótimos homens nas
batalhas campais, mas para o
assalto a fortalezas não valem, €
pouco para defendê-las; e em
geral, onde não podem manter a
ordem da sua milícia, não valem.
Disto se teve a experiência depois
que tiveram que se avir com os
italianos; e máxime onde tiveram
176
que conquistar cidadelas, como
aconteceu em Pádua e outros
lugares, no que provaram mal; e,
ao contrário, onde se encon-
traram em campo, fizeram boa
figura. De modo que, se na jorna-
da de Ravena, entre os franceses
e os espanhóis, aqueles não tives-
sem contado com os lansquene-
tes, teriam perdido a batalha;
porque enquanto uma parte da
tropa se empenhava com a outra,
os espanhóis haviam já rompido
MAQUIAVEL
a infantaria francesa e a gasca; e
se os alemães com a sua presteza
não os socorressem, ali teriam
todas sido mortas e tomadas. E
assim se viu. que, ultimamente,
quando o Rei Católico declarou
guerra à França na Guiena, as
tropas espanholas temiam mais
um grupo de alemães que o rei
tinha, de dez mil, do que a todo o
resto da infantaria, e evitavam as
ocasiões de encontrar-se com
eles.
Rd! ú a
DA NATUREZA
DOS FRANCESES
Nota do Tradutor
Maquiavel tem evidente antipatia pela França e pelos franceses e a
manifesta nos Ritratti delle Cose di Francia, escrito que data da sua
última legação à França, em 1510, e principalmente no Della Natura
dei Francesi, pequeno escrito composto de breves conceitos sobre a
psicologia do povo francês.
Júlio II, fazendo a paz com Veneza e recuperando a Romanha,
rompia com a França e lançava as bases da Lega Santa. Florença
via-se em situação embaraçosa. Luís XII exigia da república formais
promessas de auxílio na guerra que fazia a Veneza. O papa, por outro
lado, requestava o apoio de Florença à liga antifrancesa. O interesse
da república era, assim, contemporizar, deixando de ajudar efetiva-
mente a qualquer dos campos adversos.
Nos primeiros dias de julho partia Maquiavel para a França muni-
do da commissione dos “Dez” e instruções reservadas do Gonfalo-
neiro. Apesar das dificuldades da situação, conseguiu ele justificar
perante o rei a política de Florença, tolhida entre a necessidade de
cumprir as suas obrigações para com a França e o temor de chocar-
se contra a Igreja.
Durante esta terceira legação à França póde Maquiavel estudar o
caráter da organização política e econômica do reino, como já o fize-
ra para a Alemanha. Os Ritratti tiveram sucessivas redações, a últi-
ma das quais é de 1510 ou 1511, e onde, apesar da desordem da
segunda parte e de algumas inexatidões, revela Maquiavel a mesma
acurada observação das linhas essenciais e características dos
Estados.
EsTIMAM tanto a utilidade e o
dano presentes, que lhes fica
pouca lembrança das injúrias e
benefícios passados e pouco cui-
dado do bem ou do mal do
futuro.
São antes retrógrados que pru-
dentes. Não se importam muito
do que se escreva ou se diga
deles. São mais cúpidos de di-
nheiro do que de sangue. São
liberais somente em ouvir.
A um senhor ou gentil-homem
que desobedeça ao rei numa
coisa que pertença a um terceiro
não resta remédio que não o de
lhe obedecer de qualquer manei-
ra, quando ainda está em tempo;
e quando não, ficar quatro meses
sem aparecer na corte. E isto vos
arrebatou Pisa duas vezes: uma
quando Entraigues tinha a cida-
dela; a outra quando o campo
francês nos veio.
Quem quer levar um negócio a
bom termo na corte precisa de
muito dinheiro, grande diligência
e boa fortuna.
Pretendendo um benefício,
pensam antes na utilidade que
dele podem tirar, do que no servi-
ço que poderão prestar.
Os primeiros acordos com eles
são sempre os melhores.
Quando nao te podem fazer
bem, to prometem; quando
podem fazer, fazem-no com difi-
culdade ou nunca.
São humilimos na má sorte; na
boa, insolentes. |
Tecem bem as suas intrigas
urdidas com a força. Quem vence
estã, por isso mesmo e quase
sempre, com o rei; quem perde,
raríssimas vezes: e por isso; quem
tem que realizar uma empresa
deve logo considerar se ela lhe
sairá bem ou não. É” este capítulo
conhecido de Valentino, pois o
fez vir a Florença com o exército.
Estimam em muitas coisas sua
honra grosseiramente e de manei-
ra desconforme à dos senhores
italianos: e por isso bem pouco se
importam de haver mandado a
Siena a pedir Montepulciano e
não ser obedecidos.
182 MAQUIAVEL
São incoústantes e levianos. Dos italianos, não tem bom
Têm fé no vencedor. São inimi- tempo na corte senão quem não
gos do falar romano e da sua tem mais o que perder e navega
fama. por perdido.
“RELAÇÃO
SOBRE A FRANÇA
A COROA e os reis de França
são hoje mais ricos e mais pode-
rosos do que nunca, pelas razões
abaixo mencionadas; e antes:
A coroa, sendo . transmitida
por sucessão de sangue, tornou-
se rica; porque às vezes, o rei não
tendo filhos, nem quem o suce-
desse na própria herança, os seus
haveres e os Estados ficaram
para a coroa. E tendo acontecido
isto a muitos reis, a coroa veio a
ser muito enriquecida pelos muii-
tos Estados que lhe couberam;
como aconteceu com o ducado
de Anjou, € no presente, como
acontecerá ao atual rei, que, por
não ter filhos varões, deixará
para a coroa o ducado de Or-
leans e o Estado de Milão: de
modo que hoje todas as boas ter-
ras de França são da coroa e não
dos seus barões particularmente.
Uma outra razão existe, pode-
rosíssima, da força daquele rei: é
que no passado a França não es-
tava unida devido aos poderosos
barões, que tudo ousavam e lhes
bastava a vontade para se entre-
gar a qualquer empreendimento
contra os. reis: como acontecia
com um duque de Guiena e de
Bourbon: os quais são hoje todos
muito obsequiosos. Veio a ser
assim o mais forte.
Eis uma outra razão: que a
qualquer outro príncipe vizinho
bastava somente a vontade de
atacar o reino de França, e isto
porque sempre havia um duque
da Bretanha, ou um duque de
Guiena, de Borgonha, ou de
Flandres, que lhe servia de ajuda,
cedia-lhe o passo e o fazia de
amigo, como acontecia quando
os ingleses estavam em guerra
com a França, que sempre por
intermédio de um duque de Bre-
“tanha davam que fazer ao rei; e,
da mesma maneira um duque de
Borgonha por meio de. um duque
de Bourbon. Agora sendo a Bre-
tanha, a Guiena, o Bourbonês e a
maior parte da Borgonha súditos
obsequiosíssimos da França, não
só faltam a tais príncipes estes
meios de poder invadir o reinado
de França, mas os têm hoje por
186 MAQUIAVEL
inimigos; também o rei, por pos-
suir estes Estados, é mais pode-
roso e O inimigo mais fraco.
Eis ainda uma outra razão:
que hoje os mais ricos e os mais
poderosos barões de França são
de sangue real e da linha heredi-
tária, de modo que, faltando
algum dos superiores e ascen-
dentes seus, a coroa lhe pode ser
outorgada. E por isso cada qual
se mantém unido à coroa, espe-
rando que ou ele mesmo ou um
de seus filhos possam chegar
aquele grau. E o rebelar-se ou
tornar-se inimigo poderia ser
mais prejudicial do que benéfico:
como esteve para acontecer a
este rei, quando foi preso na jor-
nada de Bretanha, aonde fora em
favor daquele duque e contra os
franceses!º:; e se discutiu se,
morto que foi o Rei Carlos, por
aquela falta e defecção ele deves-
se ter perdido o direito de suce-
der. E se não fosse ser ele homem
de dinheiro pelas economias que
fizera, e pôde gastar, e depois
aquele que podia ser rei, afastado
ele próprio, era menino, isto é, o
Senhor de Angoulême; este rei,
pelas razões expostas, e por me-
recer também algum favor, foi
feito rei.
10 Luís XII tinha tomado armas contra a
regência de Ana, duquesa de Bourbon, na
minoridade de Carlos VIII, dos quais era
cunhado. (N. do T.)
A última razão que existe é
esta: que os Estados dos barões
de França não se dividem entre
os herdeiros, como se faz na Ale-
manha e em outras partes da Itá-
ha; antes cabem sempre aos
primogênitos e eles são os verda-
deiros herdeiros: e os outros
irmãos ficam em paz; e ajudados
pelo primogênito e irmão deles,
dão-se todos às armas, e se empe-
nham na tarefa de chegar ao
ponto e em condições de poder
comprar para si um Estado, e
com essa esperança vivem. Disto
advém que os homens de armas
franceses são hoje os melhores
que existem, pois que são todos
nobres e filhos de senhores e
estão em condições de chegar a
tal grau.
As tropas de infantaria que se
formam na França não podem
ser boas porque faz muito tempo
que não têm guerra, e por isso
não têm experiência alguma. E
além disso os seus homens estão
pelas cidades, todos de condição
popular e trabalhadores; e estão
de tal maneira submetidos aos
nobres e tornam-se tão abatidos
na ação, que chegam a ser des-
prezíveis. Assim se vê que o rei
nas guerras não se serve deles,
porque provam mal, havendo
entretanto os gascões, dos quais
O rei se serve, pois são um pouco
melhores que os outros; e isto
ESCRITOS POLÍTICOS 187
advém do fato de serem vizinhos
das fronteiras de Espanha,. de
modo que têm um pouco do cará-
ter espanhol. Mas deram, pelo
que se viu há muitos anos a esta
parte, mais provas de serem
ladrões do que de homens valen-
tes. Entretanto, no defender e
assaltar fortalezas provam muito
bem; mas em campanha dão mau
resultado: assim vêm a ser o con-
trário dos alemães e dos suíços,
os quais no campo não têm igual,
mas para defender e ofender for-
talezas nada valem. E por isso o
rei de França se serve sempre dos
suíços ou dos lansquenetes!!
porque os seus homens de armas,
onde se tenha inimigo, não se
fiam dos gascões. E se a infanta-
ria fosse da qualidade que são os
homens de armas franceses, não
hã dúvida que lhes bastaria o
animo para defender-se de todos
os príncipes.
Os franceses são por sua natu-
reza mais valentes que fortes ou
destros; e no primeiro impeto, se
se lhes puder resistir à sua feroci-
dade, tornam-se tão humildes e
perdem de tal maneira o ânimo
que se tomam iguais a fracas
mulheres. E também não supor-
tam aborrecimentos e incômo-
dos; e com o tempo descuram as
1 Lansquenetes = tropa de infantaria merce-
nária composta de soldados alemães armados
de lança. (N. do T)
coisas de modo que é fácil,
encontrando-os em desordem, su-
perá-los. Disto se teve a expe-
riência no reino de Nápoles tan-
tas vezes, e ultimamente no
Garigliano; onde eram superiores
ao dobro dos espanhóis; e se jul-
gava que os devessem a cada
momento aniquilar. Contudo,
porque começava o inverno e as
chuvas eram fortes, começaram
Os franceses a retirar-se um a um
para as cidades circunvizinhas,
para viver com mais conforto; e
assim o campo ficou desfalcado e
com pouca ordem, de maneira
que os espanhóis foram vitorio-
sos, contra todas as razões. Teria
acontecido o mesmo aos venezia-
nos; não teriam perdido a jorna-
da de Vaila, se tivessem ido
seguindo os franceses pelo menos
dez dias: mas o furor de Barto-
lommeo d'Alviano encontrou um
furor maior. O mesmo aconteceu
em Ravena aos espanhóis, que
não se aproximavam dos france-
ses e os desorganizavam, consi-
derando a indisciplina e a falta de
víveres, que lhos impediam os
venezianos através de Ferrara, e
os de Bolonha teriam sido impe-
didos pelos espanhóis; mas por-
que tiveram pouco conselho uns,
-€ os outros menos juízo, O exér-
cito francês foi vencedor; embora
a sua vitória fosse sangrenta. E se
o conflito foi grande, maior teria
88 | MAQUIAVEL
sido se a força principal de um
campo e de outro tivesse sido da
mesma categoria, tanto um como
outro. Mas o exército francês era
forte na gente de armas, o espa-
nhol na infantaria; e por isso não
houve grande carnificina. E con-
tudo, quem quiser superar os
franceses deve guardar-se do seu
primeiro ímpeto; que, com o ir
entretendo-os, pelas razões acima
mencionadas, os vencerá. E por
isso César disse que os franceses
são no princípio mais do que ho-
mens e, no fim, menos do que
mulheres.
A França, pela sua grandeza e
pela comodidade de grandes rios,
é fértil e opulenta; donde os reba-
nhos e os trabalhos manuais
valerem pouco ou nada, pela
falta de dinheiro que têm as
populações, as quais apenas
podem reunir o suficiente para
pagar ao seu senhor os impostos,
ainda que sejam baixíssimos. Isto
acontece porque não têm onde
vender os seus rebanhos deles;
porque todo homem colhe para
vender: de maneira que, se em
uma cidade houvesse alguém que
quisesse vender uma medida de
grão, não encontraria. compra-
dor, porque todos têm grão que
vende. E os gentis-homens, do
dinheiro que recebem dos súdi-
tos, fora o que gastam em vestir-
se, não gastam nada: porque têm
eles próprios gado suficiente para
consumir, assim como criações
de aves, lagos, lugares cheios de
caça de toda a espécie; e assim
em geral cada um deles nas cida-
des, de modo que todo o dinheiro
se concentra na mão dos senho-
res; por isso hoje sua riqueza é
grande: e assim, quando os do
povo têm um florim, parece-lhes '
que são ricos.
Os prelados de França tiram
dois quintos das rendas daquele
reino, porque existem muitos bis-
pados que têm o temporal e- o:
espiritual: e além disso, tendo
bastante para a sua subsistência,
todas as prestações e dinheiros
que lhes vão às mãos não lhes
saem mais, segundo a natureza
avara dos prelados e religiosos; e
aquilo que vai aos capítulos e
colégios das igrejas é gasto em
pratas, jóias, riquezas para orna-
mento das igrejas. Assim, o que
possuem as igrejas e o que têm os
prelados em particular, entre di-
nheiro e prataria, vale tesouros
infinitos.
No consultar e governar as
coisas da coroa e Estado de
França, os prelados sempre inter-
vêm em maior parte; e os outros
senhores não se importam porque
sabem que eles próprios é que
têm de executar as medidas pro-
postas pelo governo. E assim,
cada qual se contenta, um com o
' ESCRITOS POLÍTICOS
ordenar, outro com o executar:
embora intervenham ainda ve-
lhos e já experimentados homens
de guerra, para que, quando se
deve tratar de coisas semelhan-
tes, possam orientar os prelados,
que não têm prática disso.
Os beneficios! 2 de França, em
virtude “da pragmática obtida
pelos pontífices hã muito tempo,
são conferidos pelos seus colé-
gios: de maneira que os cônegos,
quando o seu arcebispo ou bispo
morre, reunidos todos, conferem
o benefício a quem deles lhes
parecer que mereça. Dessa ma-
neira, frequentemente têm algu-
ma dissensão, pois há sempre
quem se favoreça com o dinheiro
e alguém com a virtude e boas
obras. A mesma coisa fazem os
monges ao eleger os abades. Os
outros pequenos benefícios são
conferidos pelos bispos aos quais
estão submetidos. E se por acaso
o rei quisesse contrariar tal prag-
mática, elegendo um bispo a seu
modo, seria necessário que usas-
se de força, porque negariam
posse a este; € mesmo que sejam
a isso obrigados, costumam,
morto que seja o rei, desapossar
o prelado para dar o beneficio a
outro, eleito por eles.
A natureza dos franceses é
ambiciosa do que pertence aos
12 Os cargos episcopais. (N. do T.)
189
outros: do que, juntamente com o
seu e o dos outros, é, depois, pró-
“diga. E assim o francês roubaria
alguém e, no mesmo instante, iria
gozar a coisa roubada com aque-
le de quem a roubou. Natureza
contrária à espanhola, que, da-
quilo que te rouba; nunca mais
coisa alguma verás.
Teme muito a França aos
ingleses, pelas grandes incursões
e danos que outrora fizeram ao
reino: de maneira que, entre o
povo, o nome de “inglês” é temi-
vel, pois não distingue ele que a
França estã hoje bem ordenada,
ao contrário do que era naqueles
tempos, porque estã armada, ex- '
periente e unida, e tem em seu
poder aqueles Estados nos quais
.os ingleses se fundavam, como
acontecia com o ducado de Bre-
tanha e o de Borgonha, e, por
outro lado, os ingleses não são
disciplinados; porque há tanto
tempo que não entram em guerra
que, dos homens que vivem hoje,
não há um que tenha jamais visto
inimigo pela frente; e além disso
lhes falta quem os sustente no
continente, salvo o arquiduque! *.
Temeriam muito dos espa-
nhóis, pela sua sagacidade e vigi-
lância. Mas se por acaso o seu rei
13 Alusão ao Arquiduque Carlos d'Áustria,
que foi depois Carlos V, o qual então era sobe-
rano dos Países Baixos sob a regência de
Maximiliano, seu avô. (N. do T.)
190 MAQUIAVEL
quiser atacar a França, o fará
com grande desvantagem: porque
do seu Estado, de onde partiria
até as bocas dos Pireneus, que
penetram no reinado de França, é
tão longo o caminho e tão estéril
que toda a vez que os franceses
visassem aquelas saídas dirigidas
a Perpignan, como as que se diri-
gem à Guiena, o exército espa-
nhol poderia ser desorganizado,
senão -pela falta de socorro, ao
menos no que diz respeito aos vi-
veres, tendo que caminhar por
tão longa estrada; porque as ter-
ras que se deixam para trás são .
como que inabitadas, devido à
sua esterilidade: e as que são
habitadas têm apenas o suficiente
para a vida dos habitantes. E por
isso os franceses da vertente dos
Pireneus temem pouco os espa-
nhóis.
Dos flamengos os franceses
não temem; e isto porque os fla-
mengos não produzem, devido à
fria natureza do país, nem com
que viver; e principalmente trigo
e vinho, que é necessário impor-
tar da Borgonha e da Picardia e
de outros Estados de França.
Além disso, os povos de Flandres
vivem de trabalhos manuais que
vendem nos mercados de França,
isto é, de Lião e de Paris; porque
do lado do mar, não há onde
comerciar, e para O lado da Ale-.
manha, acontece o mesmo, por-
que tem este povo também ditas
mercadorias e até as fabricam
mais que eles. Assim, sempre que
deixassem de comerciar com: os.
franceses, não teriam eles onde
vender as mercadorias; e assim
não somente sofreriam a-falta de
mantimentos como também de
mercado para o que produzissem.
O que faz com que os flamengos
nunca, senão forçados, terão
guerra com os franceses.
Teme muito a França dos suí-
ços pela sua vizinhança e pelos
repentinos ataques que lhe
podem fazer; ao que não é possi-
vel, pela sua presteza, prover a
tempo. E fazem, antes, mais
depredações e correrias que outra
coisa: porque, não tendo nem
artilharia nem cavalos e estando
as cidades francesas que lhes são
vizinhas bem defendidas, não
conseguem grandes progressos.
Além disso a natureza dos suíços
é mais apta à guerra de campo do
que ao expugnar e defender forti-
ficações: e de má vontade os
franceses naqueles confins com-
batem os suíços; porque não têm
infantaria boa que lhes façá fren-
te, e os homens de armas sem
infantaria de nada valem. E
ainda o terreno é aí tão aciden-
tado que as lanças e cavaleiros
mal se movimentam: e os suíços
só de má vontade deixam as suas
fronteiras dirigindo-se à planície,
|
ESCRITOS POLÍTICOS
deixando para trás, como se
disse, cidades muito povoadas e
bem fortificadas, o que os faz
duvidar de poderem eles voltar
aos seus lugares se descessem à
planície, e de que não lhes faltas-
sem os víveres.
Da parte que fica em direção à
Itália não temem, devido aos
montes Apeninos, e para as gran-
des cidades que têm nas raízes
daqueles; cada vez que alguém
quisesse atacar o Estado de Fran-
ça, teria que avançar em país tão
estéril que seria necessário, ou
que assediasse pela fome ou que
deixasse para trás fortalezas (o
que seria loucura), ou que se dis-
pusesse a expugná-las. Dessa ma-
neira, do lado da Itáliá não
temem pelas razões menciona-
das, e por.não haver na Itália
príficipe em condições de atacá-
los, e por não estar a Itália unida,
como acontecia no tempo dos
romanos.
Do lado do Meio-Dia, nao
teme absolutamente o reinado de
França, por ter aí os marinhei-
ros: e naqueles portos há conti-
nuamente navios em número bas-
tante, do rei e de outros
reinícolas, para poder defender a
região de um inopinado assalto.
': Porque a um premeditado tem-se
tempo de reparar, pois é neces-
sário tempo a quem o quiser
fazer, para prepará-lo e pó-lo em
191
ordem, e vem a saber-se por
todos; e em todas estas provin-
cias o reino de França, ordinaria-
mente, tem guarnições de homens
de armas para jogar seguro.
Gasta pouco para guardar as
terras, porque os súditos lhe são
obsequiosissimos e de fortalezas
não usa para fazer guardar o
remo. E nos confins, onde have-
ria alguma necessidade de gastar
estando aí as guarnições de ho-
mens de armas, está livre dessa
despesa: porque um ataque em
grande escala têm-se tempo de
“prevê-lo, pois ele requer tempo
para poder ser feito e organizado.
São os povos de França humil-
des e obedientíssimos, e têm em
grande veneração o seu rei.
Vivem com pouquissima despesa,
pela abundância dos rebanhos: e.
também cada qual tem qualquer
coisa de estável para si mesmo.
Vestem grosseiramente e de
panos de pouco dispêndio; e não
usam seda de nenhuma qualida-
de, nem eles nem as suas mulhe-
res, porque seriam notados pelos
gentis-homens.
Os bispados do reino de Fran-
ça, segundo o moderno recensea-
mento, são em número de cento e
quarenta e seis computados os
arcebispados, em número de de-
zoito.
As paróquias, um milhão e
192
setecentas! *, computadas sete-
centas e quarenta abadias. Os
priorados não interessam.
A receita ordinária e extraordi-
nária da coroa não o pude saber;
porque interroguei a muitos e
todos me disseram ser tão grande
quanto o rei o deseje. Tamen! 8
alguém diz uma parte da receita
ordinária, isto é, o que se diz ser
o dinheiro do rei, e é produto da
gabela, como sejam os impostos
do pão, vinho, carne e similares,
tem ele um milhão e setecentos
escudos; e -a receita extraordi-
nária tira-a ele como-talha quan-
to desejar; e estas rendas se
pagam altas ou baixas, como
bem parecer ao rei. Mas não bas-
tando, lançam-se empréstimos e
raramente se devolvem, e são
pedidos por cartas régias, desta
maneira:
“O rei nosso senhor
recomenda-se a vós; €
como hã falta de di-
nheiro, vos roga lhe em-
presteis a soma que
contém a carta”.
E esta se paga em mãos do
recebedor do lugar; em cada ci-
dade há um, que recebe todos os
14 Esta cifra é evidentemente errônea: mas se
encontra em todas as edições e manuscritos.
(N. do T)
15 Entretanto. (N. do E.)
MAQUIAVEL |
proventos, sejam de gabela como
de talha e empréstimos.
As terras súditas da coroa não
têm entre elas outra ordem que a
que lhes dá o rei de fazer dinhei-
ro, OU pagar impostos ut supra.
A autoridade dos barões sobre
os súditos é nula. O seu imposto
é sobre o pão, vinho, carne, como
se disse; tanto por fogo anual-
mente, mas não passa de seis ou
oito soldos por fogo, de três em
três meses. Talhas ou emprés-
timos não podem eles impor sem
o consentimento do rei; e isto
raramente se consente. |
A coroa não tira deles outra
utilidade que a entrada do sal;
nem nunca os faz pagar talha
senão em alguma grandíssima
necessidade.
A ordem do rei nas despesas
extraordinárias, tanto nas guer-
ras como em outras coisas, é que
ordena aos tesoureiros que pa-
guem os soldados; e eles pela
mão dos contrar! 8 que os regis-
tram. Os pensionistas e gentis-ho-
mens vão aos generais e fazem
com que se lhes dê o desencargo;
isto é, a apólice do seu paga-
mento de mês em mês; os gentis-
homens e pensionistas de três em
três meses; e vão ao recebedor da
18 Talvez contraroli, isto é, controllori
controladores, do francês controleur. Outras
edições trazem “por mão daqueles, etc.” (“per
mono di coloro ").
ESCRITOS POLÍTICOS
província onde habitam e são
logo pagos.
Os gentis-homens do rei são
duzentos: o seu soldo é de vinte
escudos por mês, pagos ut supra:
e cada cem têm um chefe, que
costumava ser Ravel de Vidames.
Não há número fixo para os
pensionistas; e são poucos ou
muitos, como agrada ao rei, é
alimenta-os a esperança de alcan-
Çar maior posto: € por isso aí não
há ordem.
O ofício dos generais de Fran-
ça é tomar tanto por fogo e tanto
por talha, com o assentimento do
rei; e ordenar que as despesas,
tanto as ordinárias como extraor-
dinárias, sejam pagas no tempo
certo; isto é, os desencargos ut
dictum est supra” 7.
Os tesoureiros ficam com o
dinheiro, e pagam segundo a
ordem e desencargos dos gene-
rais.
O oficio do grão-chanceler é
merum imperium; e pode fazer
graça e condemnare suo libito,
etiam in capitalibus, sine con-
sensu regis'8. Pode repor os liti-
gantes contumazes em bons ter-
mos. Pode conferir os benefícios
cum consensu regis tantum!º:
1? Como ficou dito acima (N. do E.)
18 O ofício do grão-chanceler é de legitima
autoridade; e pode fazer graça e condenar a
seu alvitre, mesmo à pena capital, sem o prévio
consentimento do'rei. (N. do E.)
1º Somente com o consentimento do rei. (N.
do E.)
193
porque as graças se fazem por
cartas reais, lacradas com o
grande selo real: mas ele tem o
grande selo. Seu salário é de dez
mil francos ao ano, e onze mil
francos para “ter mesa”. Por ter
mesa entende-se dar de comer e
de cear àqueles tantos homens do
Conselho que seguem o grão-
chanceler; isto é, advogados e ou-
tros gentis-homens que o acom-
panham, quando eles o desejem,
do que se usa muito. |
A pensão que o rei de França
dava ao rei de Inglaterra era de
cinquenta mil fraricos por ano; e
era como recompensa de certas
despesas feitas pelo pai do atual
rei de Inglaterra no ducado de
Bretanha: a qual terminou e não
se paga mais.
Presentemente na França não
existe mais do que um senescal-
mor, mas quando há mais de um
(não digo grandes, que não existe
mais que um), seu ofício se exer-
ce sobre os homens de armas
ordinários e extraordinários; os
quais, por dignidade de seu ofi-
cio, são obrigados a obedecer-
lhe.
Os governadores da província
são tantos quantos o rei queira, e
pagos como ao rei melhor pare-
çay e são feitos annuatim et a
vita, ut regibus placet?º: e os ou-
2º Anualmente ou vitalícios, segundo bene-
plácito real. (N. do E.)
194
tros governadores, e ainda os
lugar-tenentes das cidades peque-
nas são todos colocados pelo rei.
- E deveis saber que todos os ofi-
cios do reino são ou doados ou
vendidos pelo rei, e não por
outrem.
O modo de reunir os Estados
gerais é, cada ano, em agosto, em
outubro, ou janeiro, como o rei
deseja: e se ordenam a despesa e
a receita ordinárias daquele ano
pelas mãos dos generais; e então
distribui-se a entrada conforme a
saida; e se elevam ou diminuem
as pensões e pensionistas, como o
rei ordena.
Da quantia que se distribui
. pelos gentis-homens e pensio-
nistas não há número fixo; mas
nada se aprova pela Câmara de
Contas, e lhes basta a autoridade
do rei.
A função da Câmara de Con-
tas é rever as contas de todos
aqueles que administram dinhei-
ros da coroa; como sejam gene-
rais, tesoureiros, recebedores.
A Universidade de Paris é
paga pelas entradas das funda-
ções dos colégios, mas magra-
mente.
Os Parlamentos são cinco:
Paris, Rouen, Toulouse, Bordéus
"e Delfinato, e de nenhum se
apela. j
Os principais centros de estu-
dos são quatro: Paris, Orleans,
MAQUIAVEL
Bourges e Poitiers: e depois,
Tours e Angers, mas de pouco
valem.
As guarnições permanecem
onde o rei quiser, e são tantas
quantas bem lhe parecer, tanto
com relação à artilharia como
aos soldados. Entretanto, todas
elas têm algumas peças de arti-
lharia, municiadas; e de há dois
anos a esta parte construiram-se
muitas em muitos lugares do '
reino, a expensas das cidades, e
ISSO Se conseguiu com o aumen-
tar a renda de um dinheiro por
animal ou por medida. De ordi-
nário, quando o reino não teme
nada de ninguém, as guarnições
são quatro; isto é, na Guiena,
Picardia, na Borgonha e na Pro-
vença: e depois se vão mudando
e alargando mais num lugar do
que noutro, segundo as suspeitas
que se tenham.
Esforcei-me por saber quanto
está estipulado para o rei, por
ano, para as despesas de sua casa
e para ele pessoalmente; e sei que
o dinheiro é tanto quanto o rei
desejar.
' Os archeiros são quatrocentos,
designados para a guarda do rei;
entre estes há cem escoceses; e
recebem por ano trezentos fran-
cos por homem e um saio, pois
usam a libré do rei. Os do Corpo
do Rei, que sempre estão ao seu
lado, são vinte e quatro, com
ESCRITOS POLÍTICOS
quatrocentos francos para cada
um por ano. O seu comandante é
o Senhor D'Aubigny, e o capitão,
Gabriel.
A guarda dos homens a pé é
constituída de alemães; dos quais
cem são pagos a doze francos por
mês, e era costume ter até trezen-
tos com pensão de dez francos;
demais, a todos, duas vesti-
mentas por ano para cada um;
isto é, uma para o verão e uma
para o inverno, isto é, túnica,
meias e libré; e os do Corpo ti-
nham túnicas de seda: isto no
tempo.do Rei Carlos.
Foreiros são os que estão
designados para alojar a corte; e
são trinta e dois e têm trezentos
francos e um saio por ano cada
libré. Os seus menescais são qua-
tro e recebem seiscentos francos
cada um; e para os alojar obser-
vam esta ordem: dividem-se em
quatro, e um quarto, com um
menescal ou seu lugar-tenente, se
ele não estiver na corte, fica no
lugar para onde a corte parte,
para que seja feito o que é neces-
sário pelos chefes dos alojamen-
tos; um vai com a pessoa do rei;
e um quarto onde, no dia, deve
chegar o rei; e o outro quarto vai
onde o rei deve ir no dia seguinte.
E observam uma ordem admirá-
vel; de modo que, ao chegar,
cada qual tem seu lugar, até as
meretrizes.
195
O alcaide-mor é o funcionário
que acompanha sempre a pessoa
do rei; e sua função é de mero
império; e em todos os lugares
aonde vai a corte seu lugar é o
primeiro, e podem os da.cidade
mesma onde se encontra ele so-
frer sua ação como do próprio
lugar-tenente. Aqueles que por
causa de crime caem sob sua
mão não podem apelar para os
Parlamentos. O seu salário é
geralmente de seis mil francos.
Têm dois juízes no cível, pagos
pelo rei a seiscentos francos ao
ano por homem: assim um lu-
gar-tenente no criminal, que tem
trinta archeiros pagos como se
disse acima. E dispõe tanto no
cível como no criminal; e uma só
vez que o autor se defronte com o
réu em sua presença é suficiente
para expedir a causa. ;
Mestres da casa do rei há oito,
mas não há ordem firme sobre
seu salário; porque há quem rece-
ba mil francos, quem mais e
quem menos, como o rei queira.
E depois do grao-mestre que
sucedeu ao Senhor de Chaumont,
está o Senhor de La Palice, cujo
pai teve já o mesmo ofício; rece-
be onze mil francos e não tem
outra autoridade que a de estar
acima dos outros mestres da
casa.
O almirante de França está no
governo de todas as armadas do
196
mar e tem a seu cuidado todas
elas e todos os portos do reino.
Pode tomar navios e agir como
lhe parece quanto aos navios da
armada, e atualmente é Prejanne
e recebe dez mil francos de
salário. | |
Cavaleiros da ordem não têm
número certo; porque são tantos
quantos o rei deseje. Quando são
criados, juram defender a coroa e
não se voltar nunca contra ela; e
não podem nunca ser destituídos
senão na morte. A sua pensão é,
quando muito, de quatro mil
francos, e há alguns de menos; e
tal grau não se dá a qualquer um.
A função dos camareiros é dis-
trair O rei, entrar nos seus apo-
sentos, aconselhá-lo; e, de fato,
são os primeiros do reino pela
sua reputação. Têm grande pen-
| são: seis, oito, dez mil francos; e
alguns nada, porque o rei os no-
meia frequentemente para honrar
algum homem de bem, ainda que
forasteiro. Mas têm o privilégio
no reino de não pagar gabela; e
sempre na corte têm as suas
despesas pagas pela mesa dos
camareiros, que é a primeira de-
pois da do rei.
O .escudeiro-mor está sempre
Junto do rei. Sua função é estar
sempre governando os doze escu-
deiros do ret, como acontece com
o senescal-mor, grão-mestre.e o
camareiro-mor para com os seus
MAQUIAVEL
subordinados: e tem que tomar
conta dos cavalos do rei, montá-
lo e apeá-lo do cavalo, guardar
os apetrechos do rei, e levar-lhe a
espada.
Os senhores do Conselho do
Rei têm todos pensão de seis a
oito mil francos, como o rei quei-
ra: e são o Senhor de Paris, o Se-
nhor de Bouvines, o bailio de
Amiens, o Senhor de Bussy, € O
grão-chanceler. E, efetivamente,
Rubertet e o Senhor de Paris
governam tudo.
Não se mantém presentemente
mesa para ninguém, depois que
morreu o cardeal de Rouen.
Como já não existe o chanceler-
mor, faz suas vezes o Senhor de
Paris.
O direito que pretende ter o rei
de França sobre o Estado de
Milão é que seu avó teve por mu-
lher uma filha do duque de
Milão, o qual morreu sem filhos
varões.
O Duque Giovanni Galeazzo
teve duas filhas e não sei quantos
filhos varões. Entre as mulheres
houve uma que se chamou Ma-
donna Valentina e foi casada
com o Duque Luís de Orleans,
avô deste rei? !, descendente tam-
bém da estirpe de Pepino. Morto
o Duque Giovanni Galeazzo,
sucedeu-lhe o Duque Filipe, seu
21 Luís XII. (N. do T))
ESCRITOS POLÍTICOS
filho, o qual morreu sem ter fi-
lhos legítimos, e deixou apenas
uma filha bastarda. Foi depois
aquele Estado usurpado por estes
Sforza ilegitimamente, segundo
se diz: porque estes dizem que
aquele Estado deveria ir as mãos
dos sucessores e herdeiros daque-
la Madonna Valentina; e desde o
dia em que os Orleans se aparen-
taram com a casa milanesa,
acrescentaram às suas armas dos
três lírios uma serpente, e assim
ainda é.
Em cada paróquia de França
há um homem bem pago pela
dita paróquia, e se denomina o
franco archeiro; o qual é obri-
gado a ter um bom cavalo e estar
provido de armas para todas as
requisições do rei quando o rei
estiver fora do reino devido a
guerras ou qualquer outra razão.
São obrigados a cavalgar para a
província onde o reino tenha sido
assaltado ou onde houvesse sus-
peita disso: que, segundo as paró-
quias, são um milhão e setecen-
tos.
Os alojamentos, por obrigação
de seu ofício, dao-no os foreiros a
quem acompanha a corte, e co-
mumente cada homem de bem ou
- destaque da terra hospeda os
cortesãos. E para que ninguém
tenha motivo para queixar-se,
tanto o que aloja como o que é
alojado a corte fixou uma taxa,
197
que universalmente se usa para
cada um; isto é, um soldo por
"quarto, ao dia; onde deve haver
cama e travesseiro, e muda cada
oito dias. Dois dinheiros por
homem ao dia para a roupa bran-
ca (isto é, toalhas, guardanapos),
vinagre, vinho de uva, e eles são
obrigados a mudar a dita roupa
branca pelo menos duas vezes
por semana, mas, por ter abun-
dância delas a cidade ou país,
mudam mais ou menos, con-
forme a pessoa pedir. Além disso
são obrigados a dirigir, varrer e
arrumar as camas. Dois dinhei-
ros cada um, por dia, e para cada
cavalo na estalagem; e não são
obrigados a dar coisa alguma aos
cavalos, a não ser esvaziar a
estrebaria da sujeira. São tantos
que pagam menos, ou pela sua
boa natureza ou pela do patrão:
mas geralmente esta é a taxa
ordinária da corte.
Os direitos que pretendem ter
os ingleses sobre o reinado de
França, as mais novas procuro e
penso que são estas. Carlos VI
deste nome, rei de França, despo-
sou Catarina, filha legitima e
natural de Henrique, filho legi-
timo e natural do rei de Ingla-
terra: e no contrato, sem fazer
qualquer menção a Carlos VII,
que foi depois rei de França,
além do dote dado a Catarina,
instituiu herdeiro do reino de
198 MAQUIAVEL
França depois de sua morte, isto
é, de Carlos VI, Henrique, seu
genro e marido de Catarina; e no
caso de que o dito Henrique mor-
resse antes de Carlos VI, seu
sogro, e deixasse filhos varões
legítimos e naturais, que em tal
caso ainda os filhos de Henrique
sucedessem a Carlos VI. O que.
por ter sido preterido do pai,
Carlos VII, não teve efeito, por
estar contra as leis. Ao contrário
disso os ingleses dizem que o
referido Carlos VII nasceu ex
incestuoso concubito?2.
Os arcebispados da Inglaterra
são dois.
Bispados, vinte e dois.
Paróquias, cingienta e duas
mil.
22 Nasceu de união incestuosa. (N. do E.)
Fe nser os
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GA o aan E
ns DISCURSO AO
“+ MAGISTRADO DOS DEZ SOBRE
AS COISAS DE PISA
E”
a
eme
v ae
Nota do Tradutor
Em 1499, a Maquiavel fora confiada a sua primeira legação (em
Forli, a Catarina Sforza). Durante a sua ausência, a guerra de Flo-
rença contra Pisa se tinha exacerbado e a situação era delicada para
o exército florentino. O Discorso Fatto al Magistrato dei Dieci sopra
le Cose di Pisa foi composto provavelmente por esse tempo. É assim,
talvez, o primeiro escrito de Maquiavel, que, embora examinando a
questão versada do ponto de vista técnico-militar, tem caráter bem
evidente de composição histórico-política.
neste Trranguio, manteri
QUE SEJA necessário reaver
Pisa se se quiser manter a paz,
porque ninguém disso duvida,
não me parece que seja preciso
demonstrar com outras razões
que aquelas que por vós mesmos
conheceis. Examinarei somente
os meios que conduzam ou que
possam conduzir a esse resulta-
do: e estes me parecem ou a força
ou o amor; isto é, ou recuperá-la
por assédio ou que ela vos venha
às mãos voluntariamente. E por-
que este seria o mais seguro e,
consequentemente, mais desejá-
vel caminho, examinaremos se é
possível ou não, e trataremos
desse ponto. Quando Pisa, sem
empreendimento armado, nos
deva ir às mãos, convém que por
si mesmos voltem aos vossos bra-
ços; ou que outrem que dela seja
senhor dela vos faça presente.
Como mal se pode crer que eles
mesmos estejam para voltar para
o vosso patrocínio, isso vo-lo
demonstram os tempos presentes,
em que, destituíidos de qualquer
força, tendo ficado sós e muito
fracos, súditos não aceitos por
Milão, separados dos genoveses,
mal vistos pelo pontífice, e pelos
saneses, pouco estimados, man-
têm-se pertinazes, confiando na
vã esperança de outros e na debi-
lidade e desunião vossa, nem
nunca quiseram aceitar (tamanha:
é a sua perfidia) qualquer penhor
vosso e embaixada. Portanto,
estando eles em tamanha calami-
dade no presente e não lhes
esmorecendo o ânimo, não se
pode nem se deve de qualquer
maneira acreditar que por súa
própria vontade venham sob
vosso jugo. Sobre que pudesse:
ser-vos concedida a cidade.por
quem a possuísse, devemos con-
siderar que aquele - que a pos-
suísse ou entrou chamado por
eles ou pela força. Se tivesse
entrado pela força, nenhuma
razão viria justificar que a conce-
desse: porque quem pode entrar -
pela força poderá também guar-
dá-la para si e preservá-la; por-
que Pisa não é cidade que dei-
xasse de boa vontade a alguém
Geres em San Piero in Grado, ou
| força,
204
assenhorear-se dela. Se tivesse
entrado por amor e chamado
pelos pisões, baseando-me no
recente exemplo dos venezianos,
não me parece se deva crer que
alguém desejasse destruir a sua
confiança e, a pretexto de querer
defendê-los, os traísse e vo-los
desse prisioneiros. Mas mesmo
que tal possuidor quisesse que ela
voltasse para o vosso nome,
abandoná-la-ia e vo-la deixaria.
como presa, como fizeram os
venezianos: de modo que, por
estas razões, não se vê nenhum
caminho pelo qual Pisa, sem se
usar da força, possa ser recupe-
rada.
Sendo, portanto, necessária a
parece-me que convém
considerar se se deve dela usar
nestes tempos ou não. Para ulti-
mar o empreendimento de Pisa é
preciso conquistá-la ou por assé-
dio e fome, ou por expugnação,
levando a artilharia aos seus
muros. E tratando-se da primeira
parte do assédio, deve-se conside-
rar se os luguenses estão a ponto
de desejar ou de poder considerar
que de sua cidade não saiam
mantimentos para Pisa; e quando
desejassem ou pudessem, todos
“se lembram que bastaria somente
206
res supramencionados, em
Sant'lacopo um, o outro. ..?º
ou ainda... E aqui haveria des-
noca mainr de um mada qm
MAQUIAVEL |. |
|
sobre o Arno, mediante a qual
vossa gente pudesse estar, a um
determinado aviso, na foz do rio
Morto ou Serchio, enfim, onde
fosse necessário; tendo alguma
cavalaria e infantaria em Libra-
fatta ou em Cascina. Mas porque
se duvida da vontade dos luquen-
ses e porque se deve também
duvidar de que, quando estes esti-
vessem de acordo, não lhes fosse
possivel manter fechada a sua ci-
dade por ser ela que se deve man-
ter a distância e por não terem os
seus súditos uma obediência
total; pensa-se que, querendo as-
sediar Pisa, não se deve confiar
inteiramente que esta parte seja
guardada pelos luquenses, mas
que é necessário aos florentinos
refletir; e é por isso que não é
suficiente organizar um único
acampamento em San Piero in
Grado; mas que se deve pensar
em realizar ou um outro ou dois
outros, como melhor se julgue ou
como melhor se possa. Contudo,
dizem que a mais certa e firme
maneira seria fazer três acampa-
mentos; um em San Piero im
Grado, o outro em Sant'lacopo,
o outro na Beccheria ou antes
em...23%. E considerando os
couraceiros e cavalaria ligeira
|
MAQUIAVEL
basta, porque crêem que eles te-
nham víveres até a próxima co-
lheita, pelas notícias havidas dos
nne vam de Pica e nelnae einaie
ESCRITOS POLÍTICOS
les cem homens da cavalaria
ligeira e oitocentos infantes: e
estes acampamentos, estando
neste triângulo, manteriam Pisa
assediada, embora contra a von-
tade dos luguenses; estariam se-
guros, fortificando-se com fossos,
como saberiam fazer; e deixa-
riam perplexos os pisões de tal
maneira que se pode crer que se
entregassem logo. E como em
San Piero in Grado o ar é mau,
onde, se por acaso se devesse
manter um acampamento, a
tropa adoeceria; e porque parece-
ria talvez muito pesado manter
os mencionados três acampa-
mentos, poder-se-ia manter o re-
ferido acampamento de San
Piero in Grado, enquanto naque-
le lugar se construísse um grande
bastião com capacidade para tre-
zentos ou quatrocentos homens
em guarda, o que se poderia fazer
num mês; e, construído o bastião,
levantar o acampamento e deixar
o bastião e a guarda e ficar com
aqueles doóis acampamentos; e
assim não se viria a ter a despesa
de três acampamentos senão por
um mês. Um destes dois modos
referidos, ou de três acampa-
mentos ou do bastião com dois
acampamentos, é o mais apro-
vado por estes senhores condot-
tieri, e o que consideram mais
útil e mais apto para deixar Pisa
à fome. Mas se não desejásseis
tanta despesa e quisésseis fazer
Justamente dois acampamentos, é
muito necessário manter um
deles em San Piero in Grado, ou
mesmo não se construindo o
forte, ou construindo-o, até que
ele: fosse construído. O outro
acampamento dizem que se dese-
Jjaria mantê-lo em Poggiolo, na
ponte Cappellese; e porque ele
deveria guardar Casoli e os mon-
tes, duvida alguém que desse
campo Casoli pudesse ser bem
guardada: e quanto aos montes
seria necessário manter na Verri-
ca duzentos infantes, ou manter
em Val di Calci quatrocentos; e
construir um forte entre Lucinari
e Arno, com capacidade para
cem homens em guarda, e manter
pelo menos cinquenta cavaleiros
em Cascina. E este seria outro
modo de assediar Pisa; mas não
tão potente quanto um dos dois
primeiros — o dos três acampa-
“mentos ou do bastião com dois
acampamentos. É verdade que
enquanto se constrói o bastião
poder-se-iam manter três acam-
pamentos; e, construído o bas-
tião, reduzi-los a dois: ou ainda,
enquanto se constrói o bastião,
manter dois acampamentos,
acrescidas aquelas outras coisas
anteriormente mencionadas; e,
construído o bastião, deixar aí a
guarda e reduzir-se com os dois
acampamentos aos postos e luga-
205 D.
206
TES supramencionados, em
Sant'lacopo um, O outro... .??
ou ainda... E aqui haveria des-
pesa maior, de um modo ou
outro, quanto se gasta num mês
com mil infantes mais. Veio-lhes
à consideração outra coisa: se se
deve fazer este bastião em San
Piero in Grado ou não. Alguém
fez esta distinção e disse: se os
florentinos estão com o ânimo de
forçar Pisa, não podendo fazê-la
render-se pela fome, julgo supér-
fluo construir o bastião; porque
depois de um mês que o bastião
esteja construído, será chegado o
tempo de dirigir-se aos muros da.
cidade, isto é, pelos princípios .de
maio; e assim a despesa com o
bastião vem a ser inútil: se não
têm o ânimo de tentar a força,
mas de se manter no assédio,
todos julgam que se deva cons-
truir o bastião. Alguns dizem
também que se os florentinos
desejam tentar a força, devem
construir o bastião, porque pode-
ria não lhes ser possível a con-
quista; e, não conseguindo, eles
estarão com o bastião cons-
truíido, de modo que possam
manter-se no assédio. Exami-
nou-se ainda se é possível crer
que o assédio seja suficiente sem
a força; e são de parecer que não
24 Lacuna no manuscrito. (N. do T.)
MAQUIAVEL
basta, porque créem que eles te-
nham víveres até a próxima co-
lheita, pelas notícias havidas dos
que vêm de Pisa, e pelos sinais
vê-se que lá o pão se vende e,
pelo obstinado ânimo deles e
estando para sofrer muito, não se
vê que sofram há já tempo aquilo
que seu ânimo obstinado os pode
induzir a sofrer: e por isso pen-
sam que vós sereis obrigados a
tentar a força. Pensam bem que
será impossível que vos resistam,
tendo vós estes modos de mantê-
los presos possivelmente uns qua-
renta ou cinquenta dias: e neste
meio tempo tirar de lá quantos
homens de gúerra vos seja possí-
vel; e não somente tirar de lã
quem queira sair, mas também
premiar a quem não desejaria
“sair para que saia depois; passa-
do esse tempo, reunir então rapi-
damente quantos infantes seja
possivel; organizar duas baterias,
e quanto mais seja neessário para
aproximar-se dos muros; dar li-
cença livre para que saia quem o
deseje, mulheres, crianças, rapa-
zes, velhos, todos, porque todos
servem para defendê-la. E assim,
encontrando-se os pisões sem
defensores, batidos por dois lados,
em três ou quatro assaltos, seria
impossível que resistissem, senão
por milagre; segundo o que os
mais entendidos nesta matéria
disseram. |
DISCURSO SOBRE -
A MANEIRA DE PROVER-SE
DE DINHEIRO
Nota do Tradutor
Por volta de 1503, 0 governo florentino achou-se em péssima situa-
ção financeira e era urgente aliciar novas tropas, porquanto os Bór-
gia, de um lado, e os pisões, do outro, ameaçavam a segurança da
república. O novo gonfaloneiro (Soderini) expós perante o Conselho
Maior a situação e os perigos iminentes. É provável que o escrito de
Maquiavel, Discorso sulla Provvisione del Danaio, composto nessa
ocasião, o tenha sido a mandado de Soderini, e seja o mesmo de que
há notícia que fez o gonfaloneiro.
(Palavras que se devem dizer sobre a provisão do
dinheiro, fazendo-se primeiro um pouco de proêmio e
de escusa.)
ToDas as cidades que por
algum tempo foram governadas
por príncipe absoluto, pelos aris-
tocratas ou pelo povo, como se
governa esta, têm tido por defesa
as forças combinadas com a
prudência; porque esta não é
suficiente; e aquelas ou não
levam a bom termo as coisas, ou,
quando as levam, não as man-
têm. São, pois, estas duas coisas
o nervo de todas as senhorias que
existiram e que existirão sempre
no mundo: e quem observou as
mutações dos reinos, as ruínas
das províncias e das cidades não
as viu causadas por outra coisa
senão pela falta das armas ou do
dinheiro. Dado que vós conce-
dais que isto possa ser verdade,
como é, segue-se, necessaria-
mente, que deveis querer, na
vassa cidade, uma e outra destas
duas coisas; e procurar bem, se
elas existem, conservá-las; e se
não existem, consegui-las. E, na
verdade, há dois meses que tive
esperanças de que podieis vós
conseguir este fim; mas vi, de-
pois, tanta dureza de vossa parte
que fiquei de todo consternado. E
vendo que podeis ouvir e ver mas
não ouvis nem vedes aquilo de
que se admiram os vossos inimi-
gos, e só disso; persuado-me que
Deus não vos castigou ainda a
seu modo e que vos reserva para
maior flagelo. A razão pela qual
há dois meses eu estava confiante
era o exemplo que vós tivestes
pelo perigo que correstes, há pou-
cos meses, e as decisões que de-
pois disso tinheis tomado: porque
vi como, perdida Arezzo e outras
cidades e depois recuperadas,
assumistes o governo; e supus
que estivésseis convencidos de
que, pelo fato de não ter havido
212
lá força nem prudência, as tínheis
retomado; e julguei que, como
vós tínheis dado lugar à prudên-
cia por virtude disso, devêsseis
ainda dar lugar à força. Supuse-
ram isto mesmo os nossos excel-
sos senhores: e assim também
“todos aqueles cidadãos que tan-
tas vezes se cansaram inutilmente
' para vos aprésentar uma provi-
dência. Nem quero discutir se
isto que acontece atualmente é
bom ou não; porque acredito em
quem se achou para organizá-lo
e, depois, quem se achou para
aprová-lo. Desejaria bem que
ainda fósseis da mesma opinião e
não acreditásseis em quem vos
diz o que é necessário; e repito-
vos que sem força as cidades não
se mantêm, mas vêm a seu fim; e
o fim é a desolação ou a servi-
dão. Estivestes este ano perto
duma e doutra; e para aí voltareis
se não mudardes de pensamento,
eu vo-lo afianço; não digais de-
pois: “não me avisaram”, e se
vós respondeis: “para que quere-
mos forças? Estamos sob a pro-
' teção do rei; os inimigos desapa-
receram; Valentino não tem
motivos para provocar-nos”, res-
ponderei que tal opinião não
poderia ser mais temerária: por-
que toda cidade, todo Estado
deve reputar inimigos todos
aqueles que pensam poder ocu-
par o seu próprio Estado e aque-
encontrar-vos-eis
MAQUIAVEL |
les de quem não seja possível
defender-se. E nem hã exemplo
de senhoria ou república pru-
dente que quisesse manter o seu
Estado à discrição de outros ou
que, se fosse este o caso, lhe pare-
cesse estar em situação segura.
Não nos enganemos: examine-
mos detidamente a nossa situa-.
ção e a encaremos seriamente.
Se vós vos achais desarmados,
vereis desconfiados os vossos sú-
ditos; e disso há poucos meses
tivestes a experiência. E é natural
que seja assim; porque os ho-
mens não podem e nem devem
ser fiéis servidores do senhor por
quem não possam ser nem defen-
didos nem castigados. Como vós
pudestes ou podeis dominar, tal-
vez, Pistóia, Romanha, Barda:
províncias que se tornaram ni-
nhos e covis de toda qualidade de
“latrocínios. Como vós pudestes
defendê-las sabem-no bem as re-
giões que foram assaltadas: não
existindo agora mais ordem do
que existia antigamente, deveis .
saber que não mudaram nem de
opinião nem de ânimo: e não po-
deis chamá-los vossos súditos, e
sim daqueles que os assaltaram
primeiro.
Saí, agora, de casa e conside-
rai O que vos está em derredor;
no meio de
duas ou três cidades que desejam
mais a vossa morte do que a sua
ESCRITOS POLÍTICOS
própria vida. Ide mais para dian-
te; saí da Toscana e considerai
toda a Itália: vê-la-eis passar da
dominação do rei para a dos
venezianos, a do papa e a de
Valentino. Começai a considerar
o rei. Aqui é preciso dizer a ver-
dade e eu vo-la direi. Para este
não existe outro empecilho senão
vós, na Itália. E aqui não hã
remédio, porque todas as forças,
todas as providências não vos
salvariam: ou ele terá outros
empecilhos, como bem se vê que
há, e neste caso há remédio, ou
não, segundo a vossa vontade ou
não. E o remédio é fazer com que
exista tal relação das forças, que,
em qualquer deliberação sua,
tenha ele de contar convosco
como com os outros da Itália; e,
por estardes vós desarmados, não
dar ânimo a algum poderoso de
pedir-vos ao rei como presa; e
nem dar ocasião ao rei de que
este vos deixe entre os perdidos,
mas comportar-se de modo que
ele tenha de estimar-vos e nem
outrem julgue fácil subjugar-vos.
Considerai, agora, os venezianos.
Aqui não é necessário esforçar-se
muito para entender: todos
sabem a sua ambição; e que
devem receber de vós cento- e
oitenta mil ducados e que eles só
esperam oportunidade; e que é
melhor gastá-los fazendo-lhes a
guerra do que dar-lhos para que
213
eles vô-la façam. Passemos ao
papa e ao seu duque. Esta parte
não tem necessidade de comentá-
rio. Todos sabem quais sejam a
natureza e o apetite destes; e os
seus processos e que confiança se
pode ter neles e deles receber.
Direi somente isto: que não se
concluiu com eles ainda acordo
algum; e direi mais adiante o que
não ficou para nós. Mas supo-
nhamos que concluíssemos um
acordo amanha. Disse-vos que
aqueles senhores são amigos vos-
sos, que não vos podem ofender,
e novamente vos digo: porque
entre os cidadãos, as leis, os con-
tratos, os pactos obrigam a fé; e
entre os senhores, as armas. E se
vós disserdes: “recorreremos ao
rei”, parece-me que vos disse
também isso: que todavia O rei
não estã em condições de defen-
der-vos, porque os tempos não
são os mesmos e nem sempre se
pode evitar a ação armada de
outrem; e contudo é conveniente
ter a espada ao alcance da mão e
cingilla quando o inimigo estã
distante; que, de outro modo, já
não chega em tempo e nem
encontra remédio. E deve-se re-
cordar neste ponto o que aconte-
ceu quando Constantinopla foi
tomada pelos turcos. O impera-
dor previu a sua ruína; chamou:
os seus súditos; não podendo.
prover à defesa com as rendas
214
ordinárias, expôs-lhes os perigos,
mostrou-lhes os remédios e estes
não lhe deram importância. Veio
o cerco. Aqueles cidadãos que
não quiseram ouvir os apelos de
seu senhor, quando ouviram soar
a artilharia nas suas muralhas e
avançar o exército inimigo, cor-
reram chorando ao imperador
com sacos cheios de dinheiro;
este os expulsou dizendo: “podeis
morrer com o vosso dinheiro,
porque não quisestes viver sem
ele”
Mas não é necessário ir à Gré-
cia para ter exemplos, tendo-os
em Florença: Em setembro de
1500, Valentino partiu de Roma
com seus.exércitos e nem se sabia
se ele devia passar pela Toscana
ou pela Romanha, cujas cidades
ficariam à sua mercê porque esta-
vam desguarnecidas, e todos ro-
gavam a Deus para que lhes
desse tempo. Mas Valentino vol-
tou na altura de Pesaro, e como
assim o perigo se afastara, entra-
ram a ter uma confiança temerá-
ria, de modo que não se pôde
nunca tomar mais nenhuma pro-
vidência. Não faltou quem avi-
sasse, recordasse e previsse todos
os perigos que depois vieram: nos
quais vós, obstinados, não acre-
ditastes até que chegaram, em 26
de abril do ano de 1501; sofrestes
a perda de Faenza e vistes as lá-
grimas do vosso gonfaloneiro,
MAQUIAVEL
que chorou sobre a incredulidade
e obstinação vossa e vos obrigou
a ter compaixão de vós mesmos.
Não chegastes a tempo, pois ten-
do-o vencido seis meses antes,
ter-se-iam colhido frutos, e ven-
cendo-o seis dias antes pouco
pudestes tirar da vitória para
vossa própria salvação; porque a
4 de maio ouvistes que o exército
inimigo chegara a Firenzuola;
“houve grande confusão na cida-
de: começastes a ver as conse-
quências da vossa obstinação;
vistes arder as vossas casas,
saquear tudo, matar OS vossos sú-
ditos, fazê-los prisioneiros, violar
as vossas mulheres, estragar as
vossas propriedades, sem que
pudésseis remediar de algum
modo, e aqueles que, havia seis
meses, não tinham querido con-
correr para o pagamento de vinte
ducados, lhes foram cobrados
duzentos e pagaram os vinte de
qualquer maneira. E quando de-
vieis acusar a vossa increduli-
dade e obstinação, acusáveis a
malícia dos cidadãos e a ambição
dos aristocratas; como aqueles
que, errando sempre, pretendem
nunca haver errado; e quando
vêem o sol não acreditam nunca
mais que haja chuva: como acon-
tece agora; e não pensais que em
oito dias Valentino pode estar
com o seu exército sobre vós, e os
ESCRITOS POLÍTICOS 215
venezianos, em dois dias. Não
considerais que o rei esteja muito
ocupado com os suíços na Lom-
bardia e que não terminou ainda
a sua guerra nem com a Alema-
nha nem com a Espanha, e que
foi derrotado no reino. Não vedes
a vossa atual própria fraqueza
nem a variação da fortuna. Os
outros costumam tornar-se pru-
dentes pelos perigos que os vizi-
nhos sofrem; vós não vos tornais
prudentes nem pelos vossos; não
confiais em vós mesmos; não sa-
beis o tempo que perdeis e que
perdestes, o qual chorareis ainda,
e sem proveito, se não mudais de
opinião. Porque eu vos digo: a
fortuna não muda de sentença
onde não se muda de ordem; e
nem os céus querem ou podem
sustentar uma coisa que queira
de qualquer modo arruinar-se. O
que eu não posso crer que seja o
caso, vendo-vos florentinos livres
e estar nas vossas mãos a vossa
própria liberdade. A esta eu creio
que tendes aquele respeito que
tem sempre quem nasceu livre e
deseja viver livre.
EEE SEE EEE SE SEE
BREVE DESCRIÇÃO
DO GOVERNO DA CIDADE
DEINICÇA
Nota do Tradutor
Depois de terem os Medici reconquistado o poder em Florença,
Maquiavel conhece o ostracismo, o exílio, escreve O Principe e pro-
cura ganhar as boas graças dos novos governantes. Mas só em 1520
obteve ele nova commissione, e ainda em um negócio sem importân-
cia. Alguns mercadores florentinos tinham em Luca créditos que
somavam mil e seiscentos florins e os quais, não pagos, deram origem
a questões judiciais e depois a negociações entre os dois governos.
Maquiavel, enviado a Luca, conseguiu encontrar uma fórmula de
acordo. Enquanto desenvolvia a sua missão, ele, como de costume,
observava a forma de governo dos luquenses. Destas observações,
ficou um escrito esboçado apenas, mas cheio de finas e oportunas
considerações, o Sommario delle Cose della Cittá di Lucca.
A ciDADE de Luca está divi-
dida em três partes, das quais
uma é denominada San Martino,
a outra San Paolino e a terceira
San Salvadore. A primeira e
suprema magistratura da cidade
é exercida por nove cidadãos elei-
tos, três em cada uma das partes
mencionadas: os quais, junta-
mente com um outro que é chefe,
ao qual denominam gonfaloneiro
de justiça, compõem-o que se
chama a Senhoria, ou melhor,
querendo-se chamá-los por um
antigo nome, se denomiram An-
ciães. Têm junto a este um conse-
lho de trinta e seis cidadãos, o
qual é assim nomeado pelo pró-
prio número: têm, ainda, um con-
selho de setenta e dois cidadãos,
que tem o nome de Conselho
Geral. Em torno destas três instJ-
tuições gira toda a atividade do
seu Estado, acrescidas as cir-
cunstâncias que no prossegui-
mento deste sumário serão men-
cionadas.
A autoridade da Senhoria
sobre o seu condado é amplis-
sima; sobre os cidadãos é nula;
mas somente dentro da cidade ela
corivoca os Conselhos, neles pro-
põe as coisas sobre as quais se
deve deliberar, escreve aos em-
baixadores e recebe cartas; reúne
as práticas, que eles chamam
colóquios, dos seus mais sábios
cidadãos (o que prepara a delibe-
ração que se deva adotar nos
Conselhos); fiscaliza as coisas,
relembra-as; e, efetivamente, é
como um primeiro motor de
todas as ações que se promovem
no governo da cidade. Funciona
esta Senhoria dois meses, e quem
“dela participa não pode, durante
dois anos, ser reeleito. O Conse-
lho dos trinta e seis e a Senhoria
distribuem todas as honras € uti.
lidades do Estado; e como que-
rem. que sempre se encontrem
trinta e seis cidadãos em exerci-
cio, afora a Senhoria, cada se-
nhor em toda reunião do Conse-
lho pode chamar dois suplentes,
Os quais exercem o oficio'com a
mesma autoridade que os trinta e
seis.
2
O modo de distribuir é este.
Eles sorteiam cada dois anos
todos os senhores e gonfaloneiros
que nos dois anos próximos
devem entrar em exercício. E
para fazer isto, reunidos que este-
jam os senhores com o Conselho
dos trinta e seis num salão, para
isso preparado, colocam em
outro salão próximo aquele os
secretários das votações, com um
frade, e um outro frade fica à
porta que está entre as duas
salas. A ordem é que cada qual
que assuma-nomeie outro à sua
escolha. Começa, então, o gonfa-
loneiro por se levantar, e segreda
ao ouvido do frade que está à
porta de entrada dos secretários
o nome daquele em quem vota €
- em quem ele deseja que os outros
votem. Depois, dirige-se aos se-
crétários, e coloca na urna o seu
voto. Regressando o gonfaloneiro
ao seu lugar, dirige-se-lhe um dos
senhores mais antigos: depois, os
outros, cada qual por sua vez.
Depois dos senhores, vai todo o
Conselho, e cada qual, quando
chega ao frade, pergunta quem
foi nomeado e a quem ele deve
entregar o partido; e não antes,
de modo que para deliberar não é
necessário mais tempo, senão o
-Que se emprega para ir do frade
aos secretários. Depois que cada
qual votou, esvazia-se a urna, €
se há três quartos a favor ele é
MAQUIAVEL
inscrito para um dos senhores; se
não há, fica entre os que perde-
ram. Feito isto, o mais antigo dos
senhores vai e nomeia outro em
segredo, ao frade. Depois cada
qual vai entregar-lhe o voto. E
cada qual, por sua vez, nomeia
um, e as mais das vezes consti-
tuem eles mesmos a Senhoria em
três turnos de Conselho. E para
que vençam é necessário que haja
cento e oito senhores vencidos, e
doze gonfaloneiros; assim sendo,
designam entre eles por escru-
tínio os funcionários encarre-
gados do sorteio, os quais dis-
poem sobre a data deste; e assim,
os nomes sorteados cada dois
meses se publicam.
Na distribuição dos outros ser-
viços obram de maneira diferen-
te. Fazem o escrutínio deles uma
vez por ano, de maneira que,
para o serviço que funciona seis
meses, fazem, em cada escruti-
nio, dois oficiais. Mantêm, para a
eleição, esta ordem: mandam pri-
meiro uma comunicação de que,
devendo-se proceder à escolha
dos oficiais do ano futuro, quem
quiser postos que providencie
para sua inscrição. Quem desejar
O cargo vai inscrever-se com o
chanceler e este coloca todas as
inscrições dos nomes numa
bolsa. Depois, reunido que esteja
o Conselho para distribuir os ser-
viços, o chanceler vai tirando os
ESCRITOS POLÍTICOS
nomes da bolsa, um de cada vez.
Se o inscrito está presente, diz:
“Quero ser votado para tal servi-
ço”; e assim continua a eleição.
Se vence por três quartos, tal ofi-
cio está provido e é posto de
lado; e para esse serviço não se
procede mais à eleição; se não
consegue os três quartos, a inscri-
ção é rasgada e não pode mais
entrarem competição. Tira-se da
bolsa outra inscrição e assim por
diante, até que sejam providos
todos os serviços do ano futuro;
sendo, como disse, dois para
cada um dos serviços que duram
seis meses. É de notar-se, portan-
to, a diferença destes modos com
relação ao dos florentinos e os
outros; porque no escrutínio da
Senhoria, quem escrutina vai ao
encontro da urna; e em outros
lugares a uma é que vai ao
encontro dos escrutinados. Na
escolha dos serviços em outros
lugares, propõe-se que serviço se
vai escolher e depois se trata do
sorteio dos homens que concor-
rem; e querem que muitos con-
corram, e ainda que muitos dis-
putem e o serviço seja dado a
quem tem mais merecimento.
Mas os luquenses fazem o con-
trário: primeiro se procede ao
sorteio do homem e depois decla-
ram a que ofício ele deve ir; e
querem que tal declaração fique a
critério do escolhido, e quem é
DS
escolhido avalia suas próprias
forças e segundo estas escolhe o
ofício. E se escolhe mal, sofre o
dano, e perde por aquele ano a
faculdade de ir à eleição; se
vence, é seu o ofício; nem querem
que vá a concurso um outro, para
dá-lo a quem merece mais, por-
que lhes pareceria injúria que
outro lhe pudesse tirar o que lhe
fora dado. De qual seja a melhor
destas maneiras, ou a luquense
ou a vossa, ou a dos venezianos,
deixarei a outrem o juizo.
O Conselho Geral, como disse,
são setenta e dois cidadãos, os
quais se reúnem com a Senhoria;
e mais, cada um dos senhores
pode nomear três cidadãos, os
quais, reunidos a eles, têm a
mesma autoridade. Este conselho
permanece por um ano; o dos
trinta e seis, seis meses: e têm
somente a proibição de não
poderem ser eleitos de novo os que
pertenceram ao anterior. O Con-
selho dos trinta e seis se renova
“por si mesmo; o Geral é refor-
mado pela Senhoria e por doze
cidadãos eleitos pelos trinta e
seis. Este Conselho Geral é o
principe da cidade, porque faz e
desfaz leis; faz tréguas, amiza-
des; exila e mata cidadãos; afi-
nal, não há apelo possível nem.
nada que o freie, uma vez que a
coisa tenha sido resolvida pelos
três quartos dele. Têm, além das
|
224 | MAQUIAVEL |
ordens mencionadas, três secretã-
rios, Os quais exercem as funções
seis meses. O ofício destes é o
que chamamos espiões, ou, com
nome mais honesto, guardas do
Estado. Estes podem, sem qual-
quer consulta, deportar um foras-
teiro ou matá-lo: vigiam as col-
sas da cidade; examinam coisas
que ofendam o Estado e que
digam respeito aos cidadãos-e as
referem ao gonfaloneiro, à Se-
nhoria, aos “colóquios”, para
que sejam examinadas e corrigi-
das. Têm, além disso, mais três
cidadãos que exercem as funções
seis meses e que chamam condot-
tieri: têm autoridade de contratar
infantes e outros soldados. Têm
uma autoridade (podesta) foras-
teira, que tem autoridade nas coi-
sas civis e militares sobre os
cidadãos e sobre quem quer que
seja. Têm, ainda, magistratura
sobre os comerciantes, sobre as
artes, sobre as vias e edifícios pú-
blicos, como têm todas as outras
cidades: com as quais viveram
até agora e entre tantos podero-
sos Inimigos se mantiveram.
Nem se pode com efeito senão
geralmente louvá-los. Mas quero
que consideremos o que neste |
governo há de bom ou de mau.
O tão ter a Senhoria autori-
dade sobre os cidadãos está
muito bem feito, porque assim o
observaram as boas repúblicas.
Os cônsules romanos, o doge e a
Senhoria de Veneza não tinham e
não têm autoridade nenhuma
sobre os seus cidadãos, porque
este é reputado o primeiro sinal
de uma república, e tão evidente
é, que se se lhe ajuntar autori-
dade, é preciso convir que em
brevíssimo tempo surjam maus
efeitos. Fica bem mal ao governo
de uma república a duscncia de
majestade, como : acontece em
Luca, porque durando ele só dois
meses e sendo longo o impedi-
mento de reeleição, necessaria-
mente aí têm assento homens mal
reputados: cuja ordem não é boa;
porque aquela majestade e pru-
dência que não está na coisa pú-
blica procura-se nos particulares.
Dai advém a necessidade que eles
têm de fazer os colóquios com o
parecer dos cidadãos que não
estão nem entre os magistrados
nem nos conselhos: do que nas
repúblicas bem constituídas não
se usa. E se se considerar quem:
participava da Senhoria em Ve-
neza ou quem podia ser cônsul
em Roma, ver-se-à que os chefes
destes Estados, se não tinham
autoridade, tinham majestade:
porque se é bom que lhes faltasse
uma, também seria mau que não
tivessem outra. A maneira como
distribuem os luquenses a Senho-
ESCRITOS POLÍTICOS
ria € Os serviços é boa, civil e
bem considerada. É verdade que
se desvia da constituição das
repúblicas passadas; porque na-
quelas a maioria distribuia os ofi-
cios, o meio-termo aconselhava,
a minoria executava: e em Roma
o povo elegia, o Senado aconse-
lhava, os cônsules e. os outros
magistrados menores executa-
vam. Em Veneza o Conselho dis-
tribui, os Pregai aconselham, a
Senhoria executa. Em Luca estão
confundidas estas ordens: porque
o número menor distribui; o
menor e o maior, parte aconselha
e parte executa; e embora na
república de Luca não resulte
mal, não deve imitar esta ordem
de coisas quem organiza uma
república. A razão por que não
resulta mal é porque as honras e
as utilidades naquela cidade são
procuradas com pouca ambição;
porque de um lado são fracas;
por outro, quem desejaria procu-
rá-las é rico e estima mais os seus
trabalhos que aquelas; e por isso
se vem a cuidar menos de quem
os administre. Ainda há que con-
siderar o pequeno. número de
cidadãos privados e o fato de não
serem os Conselhos vitalícios,
mas somente durarem seis meses,
o que faz com que todos queiram:
e esperem deles participar.
Além disso, a autoridade que
225
os sênhores têm de nomearem
cada Conselho dois ou três para
cada um assossega numerosos
amigos: porque muitos qué não
esperam vencer as eleições pen-
sam ter amizade com um que os
possa fazer convocar. Assim,
pouco lhes importa que distribua
o do grupo dos trinta e seis ou o
dos setenta e dois. Mantêm,
ainda, no reunir estes Conselhos,
uma outra ordem, que serve para
satisfazer o povo e abreviar os
trabalhos: que se quando eles se
reúnem em Conselho e tenha ter-
minado o prazo dentro do qual
os conselheiros devem apresen-
tar-se e faltar algum, a Senhoria
pode mandar aos seus homens
que conduzam os primeiros cida-
dãos que encontrem que tenham
sido do número dos inscritos
para preencher a vaga dos falto-
sos. É ainda bem estatuído que o
Conselho Geral tenha autoridade
sobre os cidadãos, porque isso
vale por um grande freio para
castigar os que desejassem tor-
nar-se muito grandes. Mas já não
é bom que não exista uma magis-
tratura de poucos cidadãos, qua-
tro ou seis, por' exemplo, que
possa castigar: porque qualquer
uma destas providências que falte
numa república causa desordem.
A maioria serve para castigar os
grandes e as ambições dos ricos;
226
a minoria serve para amedrontar
os...25 e para frear a insolência
dos jovens. Porque todos os dias
nesta cidade acontecem coisas
que a maioria não pode corrigir:
de onde advém que os jovens ga-
nham audácia, a juventude se
corrompe e, corrompida, pode
tornar-se instrumento da ambi-
ção. Luca, portanto, falha destes
elementos que freassem a juven-
tude, viu crescer esta insolência e
causar maus efeitos na cidade;
daí, para freá-la, fez uma lei, há
muitos anos, que se chama lei
dos díscolos, que quer dizer dos
nsolentes e malcriados, e pela
qual se proveu que no Conselho
Geral, duas vezes cada ano, em
setembro e março, todos os que
aí estão reunidos dispõem sobre
o que lhes parece deva ser exila-
do. Lêem-se depois as listas, e
aquele que é mencionado dez
vezes e mais, o seu nome é sub-
metido ao voto e se a inclusão
vence pelos três quartos ele é
mandado fora do país por três
anos. Esta lei foi muito bem
considerada e fez grande bem
aquelá república: porque por um
lado ela é grande freio para os
homens; por outro, não pode for-
mar multidão de exilados; por-
que, desde os primeiros três anos
25 Lacuna do manuscrito. Talvez “aos infe-
riores” ou coisa semelhante. (N. do T.)
MAQUIAVEL
em que a lei foi feita em diante,
tantos exilados voltam quantos
saem. Mas esta lei não basta,
porque os jovens que são nobres,
ricos e de alto parentesco, por
causa do caráter estrito da vota-
ção, não a temem: e vê-se que
nestes tempos houve uma família
— os Poggio — da qual surge
toda a sorte de exemplos não
bons numa república boa e para
o que, até agora, não encon-
traram remédio.
Parecerá talvez a alguém que
exista desordem, que todos os
partidos dos luquenses se devam
vencer pelos três quartos. A isto
se responde que desordenando-se
as coisas nas repúblicas sempre
do sim ao não, é muito mais peri-
goso naquele voto o sim do que o
não; e mais se tem que advertir
aqueles que querem que se faça
alguma coisa do que àqueles que
não o querem; e por isso julga-se
menos mau que alguns possam
contentar-se facilmente de que
não se faça um bem, do que eles
possam facilmente fazer um mal.
Contudo, se esta dificuldade está
resolvida, não existe bem geral,
porque são muitas as coisas que
seria bom facilitar. E castigar os
cidadãos é uma, porque se a sua
pena se devesse declarar pelos
dois terços, parentes e amizades
poderiam com maior dificuldade
impedi-los.
1
i
ESCRITOS POLÍTICOS 257%
Isto é, efetivamente, quanto se Luca e o que nele existe de bom e
pode dizer do governo dentro de de mau.
ÍNDICE
DOS NOMES CITADOS
Agapito (Messer) de Gherardi — Um
dos secretários de César Bórgia.
Agátocles (317-289 a.C.) — Principe
de Siracusa. Venceu os cartagineses na
África.
Alberico da Barbiano, Conde de Cunio
— Foi o primeiro condottiere de tro-
pas mercenárias, a Companhia de São
Jorge, que combateu a favor do Papa
Urbano VI. Morreu em 1409.
Albinus, Decius Claudius — Coman-
dante das legiões nas Gálias, derrotado
por Septímio Severo, proclamado im-
perador pelas legiões do Danúbio.
Alexandre, o Grande (356-323 a.C.)
— Rei da Macedônia, estendeu pela
Ásia o seu império.
Alexandre Severo — Imperador roma-
no, último da dinastia dos Africanos,
morto pela soldadesca, numa subleva-
ção no Reno.
Alexandre VI (Papa) — Rodrigo Bór-
gia, nascido a 1.º de janeiro de 1431
em Xativa, perto de Valência (Espa-
nha), era sobrinho do Papa Calisto HI
e estudou leis em Bolonha. O tio de
Rodrigo o fez sucessivamente bispo e
cardeal, vice-chanceler da Igreja. A 25
de julho de 1492, morria o Papa Ino-
cêncio VIII. Reunido o conclave a 6 de
agosto, a eleição do novo papa assu-
miu as proporções de um jogo de
bolsa, tal era o negócio que se fazia
com os votos dos cardeais. Os ban-
queiros de Roma forneciam o dinheiro
para a luta entre os três candidatos
mais prováveis: Giuliano della Rovere,
apoiado .pela França, Ascânio Sforza,
irmão de Ludovico, o Mouro, e Rodri-
go Bórgia, que, afinal, pela compra dos
votos de Ascânio, ganhou a partida.
Rodrigo Bórgia, riquíssimo, comprara,
à exceção de cinco, todos os votos do
conclave. Ao Papa Inocêncio sucedeu
com o nome de Alexandre VI, o ponti-
fice que passou à história pela fama
dos seus crimes.
É assim que Pasquale Villari retrata
Alexandre VI: “...e se bem que não
conseguisse sempre dominar as suas
paixões, deixando muito facilmente
ver-se o seu pensamento, sabia 'ser, no
entanto, ao mesmo tempo, simulador e
dissimulador impenetrável. Não era
homem de muita energia e nem de
propósitos firmes: tergiversava por
natureza e por sistema”. “A firmeza €
a energia que lhe faltavam no caráter
eram, porém, supridas pela constância
das mãs paixões que o cegavam.”
232
“Ambiciosíssimo de dinheiro, procura-
va-o por todos os meios e o gastava
largamente. À paixão pelas mulheres o
dominava sobre tudo; amava louca-
mente os filhos e queria fazê-los
poderosíssimos.” (Niccolô Machiavelli
e Suoi Tempi, I, cap. VI.)
Alexandre VI morreu a 18 de agosto
de 1503. No dia seguinte, o seu corpo
foi exposto, conforme o costume, em
São Pedro. “Foi o mais feio, mons-
truoso e horrendo cadáver jamais
visto”, diz o embaixador de Veneza,
Antônio Giustiniano; “não tinha
forma nem figura humana.” Conserva-
ram-no coberto e no mesmo dia o
sepultaram quase clandestinamente, de
temor da cólera do povo.
Amboise (d”), Georges (1510) — Car-
deal de Rouen, conselheiro político de
Luís XII, que o fez governador da
Lombardia. O cardeal impôs a Milão
um tributo de guerra de trezentos mil
ducados, sob pretexto de que “era me-
lhor tributar que saquear”.
Amílcar Barca — Chefe do exército
cartaginês na Sicília.
Angoulême (Senhor de) — O condado
de Angoulême era um apanágio dos
Valois. Francisco I, de quem se trata
aqui, teve esse título antes de subir ao
trono de França.
Anibal -—— General cartaginês, filho de
Amilcar Barca. Comandou os exérci-
tos de Cartago contra Roma.
Antioco III, da Síria — Da dinastia
dos Selêucidas, este príncipe projetou
restaurar o poderio dos seus antepassa-
dos. Concluiu, em 202 a.C., uma alian-
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
ça com Filipe da Macedônia. Conquis-
tou Éfeso (197 a.C.) e, transpondo o
Helesponto, ocupou Sestos e Lismá- -
quia, na “Trácia, entrando assim em
conflito com Roma. Aníbal, refugiado
na corte seléucida, instigava a forma-
ção de uma vasta coligação mediter-
rânea anti-romana (Síria, Cartago,
Macedônia e os insurretos de Espa-
nha). Antíoco foi completamente bati-
do em Magnésia (189) pelos exércitos
romanos. |
Antium (Anzio) — Porto ao pé do
cabo do mesmo nome, no Lácio.
Aqueus — A Liga Aquéia, a qual, fun-
dada em 281 a.C., estendeu a sua
influência por quase toda a Grécia,
tendo por fito combater as tiranias lo-
cais e resistir à hegemonia da Macedô-
nia.
Aquiles — Herói da mitologia grega.
Filho de Peleu e Tétis, participou da
guerra de Tróia.
Arcebispo de Florença (Antônio di
Santa Croce) — Partidário dos Orsini.
Assassinado pelos Bórgia.
Arezzo — Cidade da Toscana, no vale
do Chiana.
Aricianos — De Aricia, cidade do
Lácio, imediata a Roma, na Via
Appia. ER
Astura — Cidade ao sul de Roma, na'
foz do Astura.
Baglioni, Giovan Paolo — Senhor de
Perúgia, tomou parte na conspiração
de La Maggione contra César Bórgia,
|
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS | 233
que o expulsou (6 de janeiro de 1503).
Bentivoglo — Nome da casa dos
senhores de Bolonha. Em 1445, Batista
Canneschi, da família Canneschi, po-
derosa rival, assassinou Annibale Ben-
tivoglio e proclamou-se partidário do
duque de Milão, com o apoio de quem
desejava galgar o poder. Giovanni
Bentivoglio foi expulso de Bolonha
pelo Papa Júlio IX, em 1506, mas seu
filho, o segundo Annibale Bentivoglio,
voltou e governou de 1Sll a 1512.
Bibbiena -— Crdade da Toscana, a cin-
quenta e sete quilômetros de Florença,
ao pé do Arno.
Bispo Lucas Rainaldi — Embaixador
do Imperador Maximiliano.
Borgo — Cidade do Lácio, a vinte e
quatro quilômetros de Roma.
Bracceschi — Os partidários de Brac-
cio, rivais dos “Sforzeschi”.
Montone,
Condottiere.
Braccio di
(1368-1424) —
Joana de Nápoles.)
(Ver
Briçonnet (Guillaume, Cardeal) — Mi-
nistro de Carlos VIII, arcebispo de St.
Malo, criado cardeal por imposição da
França a Alexandre VI, fci depois
arcebispo de Reims. Excomungado por
Júlio II, de quem divergira. Morreu em
1535
Buggiano — Hoje Bolzano, cidade do
« Tirol italiano.
Camerino (Senhor de) — Giulio Cesa-
re de Varano, feito prisioneiro por
Andrea '
César Bórgia (1502) na conquista da
Romanha.
Camilo, M. — Furius Camillus, gene-
ral romano. Ditador em 395 a.C,,
apoderou-se de Veios, assediada havia
dez anos, e fez guerra contra os falis-
cos. Submetidos estes, voltou a Roma,
e, tendo sido acusado de desvio de
parte das riquezas conquistadas, exi-
lou-se voluntariamente. Nomeado dita-
dor segunda vez quando os gauleses
conquistaram Roma (389), libertou a
Itália, tendo reconstruído a cidade,
razão por que foi cognominado segun-
do fundador de Roma. Foi ainda dita- .
dor duas vezes: a primeira, bateu os
volscos, os hérnicos, os toscanos e os
latinos; a segunda, exterminou os gau-
leses, que tinham voltado a invadir a
Itália. Morreu em 365 a.C.
Canneschi — Família bolonhesa, rival
dos Bentivoglio.
Caracala, Antoninus (211-217 d.C) —
Imperador romano, filho de Septímio
Severo.
Carlos VI — Rei de França. No seu
reinado, os ingleses apoderaram-se da
Normandia pela vitória de Azincourt
(1415).
Carlos VII (1422-1461) — Rei de
França. Pôs termb à Gueira dos Cem
Anos, libertando a França da Ingla-
terra. Organizou o primeiro núcleo do
exército nacional francês.,
Carlos VII — Rei de França. Invadiu
a Itália em 1494, sem encontrar resis-
tência. Nos primeiros dias de março,
fez o rei entrada solene em Lião para
234 ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
assumir o comando dos exércitos, cuja :
vanguarda era comandada por
D'Aubigny. Apenas começado o assé-
dio de Sarzana, Piero de Medici ren-
deu-se incondicionalmente. Florença
-rebelou-se e Piero fugiu para Veneza.
A 17 de novembro os franceses entra-
ram na cidade, donde saíram a 28, de-
pois de receber um tributo em dinheiro.
Em Roma, sob a pressão dos. exércitos
franceses, o Papa Alexandre nomeou
cardeal o bispo de St.-Malo, e concor-
dou em que os franceses avançássem
para Nápoles. Aí, Afonso de Aragão
renuncia ao trono e foge para a Sicília.
Os franceses entram na cidade em 22
de fevereiro de 1495. Os venezianos
tomaram então a iniciativa de expulsar
os franceses da Itália. A Liga de Vene-
za (Veneza, Milão, Espanha, o impera-
dor da Alemanha e o papa), formada
contra ele, forçou-o, depois da batalha
indecisa de: Fornovo, ou Taro (6 de
julho de 1495), a voltar à França. Em
1496, pela intervenção de Fernando,
rei de Espanha, os franceses deixaram
definitivamente o território de Nápoles.
Carlos VIII personifica o início da
política francesa de conquista. Até
Luís XI a política de França se reduzia
à luta contra vassalos poderosos e pela
unidade nacional. A conquista da Itá-
lia representava para os franceses a
hegemoniano Mediterrâneo.
Carmagnola (Conde de), Francesco
Bussone (1390-1432) — Combateu
por Filippo Maria Visconti, duque -de
-Milão, passando depois, em 1425, ao
serviço de Veneza, e chegou a coman-
dar os exércitos de Florença e Veneza,
aliadas contra Milão. As forças mila-
nesas, comandadas por Francesco
Sforza, foram desbaratadas por Car-
magnola em Maclódio (1427). Os
venezianos, suspeitando de Carmag-
nola, tiraram-lhe o comando e o
executaram.
Castiglione — Cidade toscana a quin-
ze quilômetros ao sul de Arezzo.
César Bórgia (1378-1507) — Filho de
Alexandre VI. Foi criado cardeal de
Valência (Espanha) em 1493. Tendo
abandonado a carreira eclesiástica, foi
feito, pelo rei de França, duque de
Valentinois (donde lhe veio o nome
que o povo lhe dava, de “Duque Valen-
tino”), quando foi à França levar a
- bula de anulação do casamento de
Luís XII e o chapéu cardinalício para
Georges d'Amboise, arcebispo de
Rouen (setembro de 1498). Logo de-
pois da entrada dos franceses em
Milão (outubro de 1499), César Bórgia
tomou Ímola e Forl, domínios de
Caterina Riario Sforza; em 1500,
apoderou-se de Rimini (Pandolfo Ma-
latesta) e Pesaro, governada por Gio-
vanni Sforza; em 1501, Faenza (As-
torre Manfredi) e Piombino caem sob
“o seu poder; em 1502, Urbino (Guido-
baldo da Montefeltro), Camerino (Giu-
lio Cesare da Varano) e Sinigaglia
(Francesco Maria della Rovere). A
esse tempo,: assumiu os títulos de
duque da Romanha, de Valença e
dºUrbino, Príncipe de Andria, senhor
de Piombino, gonfaloneiro e capitão-
general da Igreja. A queda de Urbino
ameaçava Florença, que apelou para O
auxílio dos franceses. Valentino desis-
tiu, assim, da conquista de Florença.
Depois reconciliou-se com Luis XII, e
empreendia a conquista de Bolonha
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
quando diversos capitães seus, na
maior parte pequenos tiranos da Itália
central, atemorizados pelos seus pro:
gressos, tramaram uma conspiração,
dirigida pelos Orsini. Os conjurados.
reunidos em La Magione, combina
ram uma liga contra Valentino, che:
gando as suas tropas a tomar O Forte
de São Leão de Urbino, e chamaram
em seu socorro a república de Flo-
rença (1502). As tropas de Valentino
foram derrotadas pelos Orsini em
Fossombrone. Aquele pediu, então. o
auxílio dos franceses, enquanto Flo-
rença recusava auxiliar os conspira:
dores, chegando-se assim a um com
promisso de paz, firmado entre o
duque e Paolo Orsini. Valentino,
pouco depois, vingou-se cruelmente
destes. Morto Alexandre VI (agosto;
1503), Valentino deixa Roma para
negociar o apoio dos franceses. Sua
situação era má: os Orsini, os Colon-
na, Gonsalvo, o comandante das for-
ças espanholas no sul, tinham feito
aliança contra ele. Rebentaram rebe-
lões em todas as cidades que conquis-
tara. Voltando a Roma sem ter obtido
o auxílio de Luís XII, Valentino viu-se,
obrigado, por causa da hostilidade dos
Orsini, a refugiar-se no Castelo de
Santo Ângelo. Também Júlio II, eleito
papa com o apoio de Valentino, pôs-se
em campo contra este, que estava
“virtualmente prisioneiro do papa. Em
agosto de 1504, foi embarcado para a
Espanha, mas, em 1506, tendo escapa-
do, refugiou-se na França. Combateui
ao lado do seu cunhado, o rei de
Navarra, contra Castela, tendo sido
morto, numa escaramuça, em 12 de
março de 1507.
“Valentino não era grande político
nem grande capitão, mas uma espécie
235
de capitão de bando cuja força proce-
dia principalmente do papa e da Fran-
ça. Soubera criar um Estado do nada,
nspirando terror a todos, enfim, ao
próprio papa. Rodeado de grande nú-
mero de inimigos poderosos e arma-
dos, livrou-se deles com grande audá-
cia e arte infernal.” (P. Villari, op. eit.,
I, cap. V.)
Chaumont (Senhor de) — Charles
d'Amboise, irmão do Cardeal
d'Amboise, ministro de Luís XII.
Chiana — Vale da Itália que, na anti-
ga fronteira da Toscana com o Estado
papal, divide as suas águas entre o
Arno e o Tibre.
Fundador da
Ciro (599 a.C.)
monarquia persa.
Cipião (Publius Comelius Scipio) —
General romano, vencedor de Aníbal,
Já tinha destruído o domínio cartaginês
na Espanha, quando, reforçado por
Massinissa, príncipe berbere aliado de
Roma, desembarcou com quarenta mil
homens na África. Pela vitória de
Zama ou Narragara (202 a.C.) os
romanos aniquilaram definitivamente
o império cartaginês. |
Colleoni da Bergamo, Bartolomeo
(1400-1475) — Célebre condottiere,
chefe dos exércitos de Veneza. Derro-
tado por Francesco Sforza, em Cara-
vaggia, em 1448.
Colonna -— Família romana rival dos
Orsini.
236
Colonna (Giovanni, Cardeal) — Inimi-
go do Papa Clemente VII, assaltou e
-saqueou Roma (1526).
Commodus Aurelius (180-192 a.C.)
— Imperador romano, filho de Marco
Aurélio, a quem sucedeu. Foi assassi-
" nado.
Cortona — Cidade toscana. Antes de
ser sujeita a Roma, era uma das princi-
pais da confederação etrusca.
D'Alviano de Todi (Bartolommeo) —.
Casado com uma Orsini. Prisioneiro
“do Papa Alexandre VI, tendo conse-
guido fugir (1497), preparou a resis-
tência e venceu as forças pontificais,
ficando de novo os Orsini senhores da
Campanha. Grande condottiere na Itá-.
lia central, foi batido pelos florentinos
(1505). Esteve depois a soldo dos vene-
zianos contra Maximiliano (1508) e
contra os franceses, que o fizeram
prisioneiro em Vailã. A serviço destes,
ganhou para Francisco I (1515) a
Batalha de Marignano.
Dario I (521-486 a.C.) — Rei da Pér-
sia. Submeteu a Trácia e a Macedônia.
Dario III (337-330 a.C.) — Derrotado
por Alexandre.
- D'Aubigny — Escocês comandante da
vanguarda das tropas francesas que
invadiram.a Itália sob Luís XII.
Davi — Rei de Israel.
D'Este — Nome de família dos duques
de Ferrara.
1) Ercole T dºEste (1471-1505), que
foi derrotado pelos venezianos
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
(1482-1484); 2) Afonso IT dEste
(1505-1534), que foi desapossado de
quase todos os seus domínios pelo
Papa Júlio II (durante a guerra movida
por este contra a França: 1510-1511).
A casa de Ferrara era talvez a mais an-
tiga casa reinante na Itália.
Dido — Rainha de Cartago.
Elna (Cardeal d) — Francesco Loris,
bispo de Elna.
Epaminondas — General tebano, fau-
tor máximo da hegemonia de Tebas
sobre a Grécia. Morreu na Batalha de
Mantinéia (362 A.C.), onde os seus
exércitos tiveram a vitória, contudo.
Etólios — Constituíida em 314 a.C ., a
Liga Etólia compreendia, além deste
povo, grande parte dos povos da Gré-
cia central, da Acarnânia à Tessália
meridional, chegando a granjear ade-
sões no Peloponeso e nas cidades
ultramarinas. Para intervir na Grécia,
Roma explorou as rivalidades locais
dos povos helênicos e, assim, formou -
uma aliança com os etólios e esparta-
nos, para aniquilar o poderio da Mace-
dônia, de quem era aliada a Liga
Aquéia. A Liga Etólia foi dissolvida
em 189 a.C.
Fabius Maximus — Ditador romano
no tempo da Segunda Guerra Púnica.
Passou à história com o cognome de
Cunctator, pela sua tática contempori-
zadora para com os exércitos de Ani-
bal, que saquearam durante quase um
ano a península Itálica, sem que os
romanos lhes fizessem frente.
Faenza (Senhor de) — Astorre Man-
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
fredi, filho de Galeotto Manfredi, as-
sassinado com a conivência da mulher,
da casa dos Bentivoglio, de Bolonha,
que esperavam dominar Faenza. Pela
intervenção de Florença foi assegurado
. O governo a Astorre, menino ainda.
Fano — Cidade papal, a onze quiló-
metros de Pesaro.
Fernando, o Católico — Rei de Espa-
nha (1469-1516). Com o casamento de
Fernando de Aragão e Isabel de Caste-
la começa um novo periodo da história
da Espanha. Com a conquista de Gra-
nada aos mouros, e da Navarra,
completou-se a unidade nacional, e
expandiu-se a força da Espanha como
potência européia. Fernando interveio
na Itália para fazer valer os seus direi-
tos sobre o reino de Nápoles. Luís XII,
de França, firmou, em 1500, com o rei
católico, um tratado secreto pelo qual
foi convencionada entre os dois a con-
quista do reino de Nápoles, governada,
então, por Frederico de Aragão. A par-
tilha prevista no tratado consignava a
parte norte do reino a Luís, e a parte
sul a Fernando. Os franceses, sob o
comando de D'Aubigny, marcharam
em 1501 sobre a Itália; os aliados rom-
peram o pacto, e os franceses foram
derrotados pelos espanhóis, na Batalha
de Cerignola (1503). Derrotados, pela
segunda vez, no Garigliano, os france-
ses desistiram da conquista, e o Trata-
“do de Blois sancionou a posse do reino
de Nápoles pela coroa da Espanha
(1504).
Filipe — Rei da Macedônia, pai de
Alexandre, o Grande. Pela vitória de
Queronéia, tornou-se árbitro de toda a
Grécia.
234
Filipe V, da Macedônia (221-179 a.C.)
— Aliado de Anibal contra os roma-
nos, derrotado pelo Cônsul Flaminius
na Batalha de Cinocéfalo (179 a.C.).
Filopêmenes (182 a.C.) — Chefe do .
partido nacional grego, que resistiu
durante toda a sua vida' ao regime de
protetorado romano sobre a Grécia.
Forli (Senhora de) — Caterina Sforza,
neta de Francesco Sforza, filha legi-
tima de Galeazzo Mario Sforza, ca-
sou-se com o Senhor de Forli, Giro-
lamo Riario, sobrinho do Papa Xisto
IV. Em 1488, Girolamo foi vítima de
uma conspiração. Caterina, usando do
estratagema de prometer aos conspira-
dores que iria induzir as tropas do
Castelo de Forli a render-se, conseguiu
Juntar-se a elas e aí resistiu até chega-
rem reforços mandados por seu tio,
Ludovico, o Mouro, duque de Milão.
Em 1499, a população revoltou-se con-
tra Caterina, que resistiu no castelo,
até janeiro de 1500, quando César
Bórgia atacou Forh.
Francesco Bella Casa — Embaixador
florentino em França, por ocasião de
preparar-se a invasão da Itália.
Friul — Ducado que os lombardos
cederam a Veneza, e foi depois em
parte conquistado pelos austríacos.
Garigliano — Rio da Itália que desem-
boca a catorze quilômetros de Gaeta e
à margem do qual os franceses foram
derrotados pelos espanhóis (1503).
Gracos — Tiberius Sempronius Grac-
chus e seu irmão Caius, tribunos roma-
nos, chefes da plebe, mortos, respecti-
vamente, em 133 e 121 a.C...
238
Gueldre — Cidade da Prússia renana
e antiga capital do ducado de Gueldre.
Já não se inclui mesmo na atual pro-
víncia de Gueldre, a qual pertence à
Holanda. O ducado foi vendido em
1471 pelo Conde de Egmont a Carlos,
o Temerário, duque de Borgonha,
sogro de Maximiliano T.
Guido Ubaldo ou Guidobaldo da Mon-
tefeltro, duque de Urbino — Foi expul-
so por Valentino em julho de 1502,
mas conseguiu voltar, com o apoio dos
Ursini e dos Vitell. Tendo entrado na
conspiração de La Magione contra
Valentino, escapou à vingança deste
fugindo para Veneza. Depois do declií-
nio dos Bórgia, voltou para o seu duca-
do, morrendo em 1508.
Hawkwood (Sir John) — Cavaleiro
inglês que se tornou condottigre na Itá-
lia. Em 1363, pertenceu à Companhia
Branca, na luta de Pisa contra Floren-
ça, permanecendo fiel âáquela quando a
Companhia passou ao serviço dos
florentinos. Depois, em 1390, comba-
teu por Florença contra Milão, tendo
sido obrigado a bater em retirada dian-
te das forças de Giovan Galeazzo Vis-
conti, duque de Milão. Morreu em Flo-
rença, em 1394.
Heliogábalo — Imperador romano,
sobrinho e sucessor de Caracala.
Hierão — (306-214 a.C.) — Tirano de
Siracusa.
Joana II, de Nápoles — Sucedeu ao
seu irmão Ladislau, morto em 1414.
Casou-se com Jaime de Bourbon, sob
a condição de contentar-se ele com o
título de príncipe de Taranto. Marido e
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
mulher desavieram-se, e enfim Joana
reinou sozinha, tendo tomado a soldo
o condottiere Múzio Attendolo Sforza
da Gotgnola. Em 1420, Joana adotou
como filho Afonso de Aragão, pois
Múzio tentara usurpar-lhe o trono. À
rainha tomou a seu serviço Braccio di -
Montone. Mas Afonso rompeu com a
rainha, e Braccio o seguiu. Esta apela
mais uma vez a Sforza, que expulsa
Afonso de Nápoles.
Julianus, Marcus Ovidius (193 d.C.)
— Imperador romano.
Júlio II, Papa (Giuliano della Rovere)
— Cardeal de S. Pietro ad vincula,
eleito papa, em 1503, depois do efe-
mero reinado de Pio III, sucessor de
Alexandre VI, com o apoio de César
Bórgia, de quem tinha sido adversário.
Nascido em Savona, de órigem humil-
de, tinha sessenta anos, quando foi le-
vado ao papado. Riquiíssimo, por ter
passado por muitos bispados, era
homem sem muitos escrúpulos. Tinha
a obsessão da potência e grandeza da
Igreja. De caráter impetuoso e violen-
to, contrário ao dos Bórgia, adversário
implacável destes, não hesitou, porém,
em combinar com Valentino a própria
eleição, prometendo deixar-lhe o go-
verno da Romanha. Júlio II, para alar-
gar o poderio da Igreja, empreendeu a
guerra contra Veneza, organizando,
em dezembro de 1508, a Liga de Cam-
brai, com Maximiliano, imperador da
Alemanha, os reis de França, Espanha
e Inglaterra, os duques de Sabóia e
Ferrara, e o marquês de Mântua. Na
batalha de Vailã (Agnadello), a 19 de
maio do ano seguinte, os venezianos
foram completamente derrotados pelos
franceses, tendo estes ocupado grande
|
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
parte da Lombardia, e as tropas impe-
riais avançado sobre Verona, Vicenza
e Pádua. O papa apoderou-se da
Romanha e das margens do Adriático..
Com a retirada de Luís XII da Liga,
Veneza recobrou Pádua e Vicenza. o
papa, fazendo-se amigo de Veneza,
dirigiu-se, em 1510, contra o duque de |
Ferrara, mas este, com o auxílio dos
franceses, derrotou as tropas papais
perto de Ímola, e entrou em Bolonha.
Júlio II, para anular a influência da.
França na península, organizou de-|
pois, com a Espanha, Veneza e Ingla-
terra, a Santa Liga. Abriu-se nova;
campanha, em 1512, sendo os france-|
ses vitoriosos em Ravena, sob o co-:
mando de Gaston de Foix. Não obs-;
tante, por pressão da infantaria suíça,
os franceses foram obrigados a reti-:
rar-se de Milão e abandonar, pouco |
depois, o território italiano, definitiva-|
mente vencidos que foram, em Novara. .
O papa voltou-se contra Veneza e,:
aliado à Espanha e a Milão, derrotou:
os exércitos venezianos, na batalha de.
Vicenza. Sobre as ações de Júlio II,.
lembre-se a passagem de P. Villari (op. :
cit., I, cap. XV), que as resume assim: |
“Não libertara (o papa) a Itália dos |
estrangeiros. Ao contrário, por obra!
sua estava ela ocupada, pisada por ale-
mães, espanhóis e suíços;
|
i
mas tinha:
expulso os franceses, frustrado o Con- |
ciliábulo (de Pisa), reunido o concílio |
lateranense, estendido e reforçado o:
domínio temporal da Igreja, a cujas:
armas dera reputação, feito de Roma o
centro principal de negócios da Itália e
do mundo. A esse ponto, caía doente e
morria a 20 de fevereiro de “1513.
“Digno de grande glória”, disse Guic-,
ciardini, “se ao invés de ser papa, tives-.
se sido príncipe secular” ...
239
La Palice (Senhor de), Jacques de Cha-
bannes — Marechal de França que se-
guiu Carlos VIII na conquista de Ná-
poles e depois participou das
expedições de Luís XII e de Francisco
I contra a Itália. Morreu em combate
na derrota de Pávia (1525).
Leão X, Papa (Cardeal Giovanni de
Medici) (1475-1521) — Voltando os
Medici a Florença, o primeiro cuidado
do cardeal foi reformar o governo, no
sentido de voltar o estado de coisas
existente sob Lorenzo, o Magnífico,
isto é, sob a aparência das velhas insti-
tuições republicanas, o governo era
controlado pelos Medici, que se intitu-
lavam patronos da república. Um
contemporâneo diz: “Reduziu-se a ci-
dade a não fazer senão a vontade do
Cardeal de Medici”. À morte de Júlio
IX, formou-se no conclave um partido
dos cardeais novos para elevar o Car-
deal de Medici ao papado. Adversário
dos franceses, favorito do papa defun-
to, liberal até a prodigalidade, letrado e
de feitio diplomático, era um candi-
dato já de antemão vencedor. Foi elei-
to a 1.º de março de 1513 com o nome
de Leão X.
Liverotto da Fermo (Oliverotto Effre-
ducci da Fermo) — Um dos que, sob a
direção dos Orsini, conspiraram con-
tra César Bórgia. Forçado pelas cir-
cunstâncias a entrar em entendimentos
com os conspiradores, Valentino não
se vingou: imediatamente, mas, pouco
depois, Oliverotto foi estrangulado em
Sinigaglia (31 de dezembro de 1502).
Lívio (Titus Livius) — Historiador ro-
mano nascido em Pádua em 59 a.C.
240
Da sua monumental História Romana
restam alguns livros completos e frag-
mentos. Amigo de Augusto, que lhe
confiou a educação de Cláudio.
Luís XI — Rei de França
(1461-1483). Iniciador da unidade na-
cional francesa.:
Luís XII — Rei de França. À morte de
Carlos VIII (1498) extinguira-se O
ramo primogênito dos Valois. Suce-
deu-lhe no trono o Duque de Orleans
com o nome de Luís XII. A casa de
Orleans, pelas suas ligações com os
Visconti, tinha pretensões ao ducado
de Milão, e isso foi pretexto para que
Luís XII continuasse a política de Car-
los VIII, de conquista da Itália. Subin-
do ao trono, Luís repudiou a irmã de
Carlos VIII para casar com a rainha
viúva Ana de Bretanha. A anulação do
casamento com aquela foi conseguida
de Alexande VI, Bórgia, em troca do
apoio da França à conquista da Roma-
nha pelo papa, que fez ainda cardeal
ao arcebispo de Rouen, conselheiro do
rei. Luís XII aliou-se, em 1499, a Ve-
neza para a conquista do ducado de.
Milão, que deveria ser repartido entre
ambos. A França mandou contra Lu-
dovico, o Mouro (Sforza), que gover-
nava Milão, um grande exército, sob o
comando de Gian Giacomo Trivulzio,
milanês, com que se apoderou de
Milão, enquanto os venezianos ocupa-
vam o resto dos domínios do ducado.
Ludovico refugiou-se na Alemanha,
donde voltou à frente de um exército
de suíços e alemães, reentrando em
Milão em 1500, com o apoio da popu-
lação descontente com o governo de
Trivulzio. Mas, traído pelos suíços, na
batalha de Novara, contra os france-
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
ses, no mesmo ano, o “Mouro” foi cap-
turado e enviado para a França, onde
morreu, dez anos depois. Luís XII
impôs a Milão e as outras cidades
pesados tributos de guerra, e prometeu
a Florença auxílios para a conquista
de Pisa, que resistiu ao ataque. O rei
rompeu com os florentinos, pois desva-
neceram-se as suas esperanças de fazer
com que a república pagasse uma
parte das despesas do exército francês.
Com os venezianos rompeu depois,
entrando na Liga de Cambrai, organi-
zada contra Veneza. Júlio II levantou-
se contra o predomínio da França na
Itália, depois de ter seguido no começo
do seu papado a política dos Bórgia,
simpática aos fránceses. Luis XII tenta -
reunir um concílio (Conciliábulo de
Pisa) que lhe dê licença de fazer guerra
ao papa. (Ver os nomes Alexandre VI,
César Bórgia e Júlio II.) Ao fim do seu
reinado, porém, chegou-se ao papa,
renunciando ao Conciliábulo de Pisa e
submetendo a Igreja galicana ao conci-
lio lateranense. Aliás, já Leão X suce-
dera a Júlio II. Luís XII morreu, em
1515, aos 53 anos, pcuco depois de
ter-se casado com Maria de Inglaterra,
jovem de dezesseis anos.
N
Macrinus (217-218 d.C.) — Imperador
romano.
Marcus Aurelius (161-180 d.C) —
Imperador romano.
Marranos — Os mouros e judeus, que
passavam ao cristianismo para evitar a
perseguição, eram assim chamados na
Espanha.
Maximiliano I — Imperador da Áus-
tria (1493-1519). Filho de Frederico
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
HI. Rival das casas reinantes da Espa-
nha. Genro de Carlos, o Temerário,
disputou à coroa de França a sucessão
deste ao ducado de Borgonha. É do seu
reinado que data a ascendência da:
casa de Habsburgo na Europa. A Ale-
manha era então “não tanto um impé-:.
rio como um agregado de pequenos,
Estados governados por soberanos que
não viviam em paz, uns com os outros,
nem se aliavam contra os inimigos
comuns, e eram presididos nominal-
mente por um imperador, o qual tinha;
diminuta autoridade legal e nem podia:
exercer de fato a pouca que tinha”,
(Bryce, The Holy Roman Empire, New,
York, 1886). Era Maximiliano o mais;
poderoso príncipe que se assentou no.
trono germânico desde Frederico II.
Arquiduque da Áustria, conde do
Tirol, duque da Estíria e da Caríntia,
senhor feudal da Suábia, da Suíça e da
. Alsácia, era poderoso por isso e não
por ser titular do Sacro Império Roma-
no-Germânico,
estranho sistema de,
doutrinas, parte religiosas, parte políti-
cas, o qual se tornara obsoleto. Quan-,
do Maximiliano se preparava para ir a
Roma coroar-se, esperando assim res-
taurar a autoridade e dignidade impe-
riais, Os franceses (Carlos VIII) invadi-
ram a Itália, pondo em xeque os
projetos de Maximiliano. A 27 de abril
de 1507, o imperador convocou em,
Constança a Dieta dos Príncipes e.
fez-lhes sentir a necessidade de travar-
se uma luta decisiva pela posse da
Itália. eo e
Maximinus, Julius Verus (225-228
d.C.) — Imperador romano. À morte
de Alexandre Severo, inaugura-se a-
anarquia militar, personificada pelo
trácio Maximino, que nem se deu ao
241
trabalho de ir a Roma pedir ao Senado
a sua confirmação. Toda a Itália ade-
riu à insurreição começada na África.
Embora assassinado Maximino pelos
seus próprios soldados, não pôde ser
assegurada a vitória da unidade do
império.
Medici — Família que dominou em
Florença desde o último quartel do sé-
culo XIV. Viveram contempora-
neamente com Maquiavel e são referi-
dos no Príncipe os três filhos de
Lorenzo, o Magnífico, dos quais dizia
o pai que o primeiro (Piero) era louco,
o segundo (Giovanni) esperto e o ter-
ceiro (Giuliano) bom.
Medici, Piero de — Sucedeu ao “Mag-
nífico” no governo de Florença (1492).
Tirano odioso, cuja conduta covarde
por ocasião da invasão dos franceses
lhe valeu o desprezo unânime dos
florentinos. Morreu afogado na passa-
gem do Garigliano (1503).
Medici, Giovanni de — Ver Leão X,
Papa.
Medici, Giuliano de — Depois da elei-
ção de Leão X, Giuliano foi feito capi-
tão e gonfaloneiro da Igreja, sendo
recebido em Roma com grandes festas.
Tornou-se pelo seu casamento Duque
de Nemours e aliou-se, desde então, ao
governo de Florença. “Dado aos pra-
zeres, além da medida, e por isso fisi-
camente enfraquecido, era de índole
fantástica, que lhe fazia perder tempo
na investigação do futuro; não lhe fal-
tavam, porém, vagas €, às vezes, gran-
des ambições, e nem impulsos genero-
sos” (P. Villari, op. cit., cap. XVI.
242
Recusou o ducado de Urbino, ofere-
cido pelo iifmão papa. Terminado o
“Príncipe, Maquiavel pensou em dedi-
cá-lo a Giuliano, mas hesitou em fazê-
lo, até que sobreveio a morte deste
(1516), e endereçou então a Lorenzo a
carta escrita a Giuliano.
Medici, Lorenzo de (1492-1519) —
Filho de Piero e sobrinho dos prece-
dentes. Sucessor do Duque de Urbino,
desapossado por Leão X, que conse-
guiu depois o casamento de Lorenzo
com Madalena de Latour d'Auvergne,
da casa real de França (1518). A via-
gem nupcial de Lorenzo revestiu-se
dum fausto que recordava a viagem de
César Bórgia à França. Dócil instru-
mento do papa, que pensava instituir
um Estado para Lorenzo, formado de
Módema e Parma. O breve governo de
Lorenzo em Florença encheu de espe-
ranças a cidade, mas, doente e cansa-
do, foi para Roma, onde morreu, pou-
cos dias depois do nascimento de uma
filha, a qual foi depois rainha de Fran-
ça (Catarina de Medici).
Metauro — Rio da Umbria, lança-se
no Adriático em Fano.
Michele (Dom) da Coregla —
Homem de confiança de César Bórgia.
A seu mando, matou o Duque de Bis-
ceglia, seu cunhado, e o Duque de
Gandia, seu irmão, e assaltou os apo-
sentos de Alexandre VI, agonizante,
para saqueá-los. Depois da queda dos
Bórgia, foi para Florença, onde chegou
a comandar a milícia. Assassinado em
1508.
Nábis (205-192 a.C) — Tirano de
Esparta.
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
Nomentanos — De Nomentum, cida-
de da Itália, sobre o Allia.
Orsini, Niccolo, Conde de Pitigliano
(1442-1510) — Comandante das for-
ças de Veneza, derrotado na batalha de
Vailá (Agnadello)..
Orsini — Nome de uma das duas mais
poderosas famílias de Roma. As lutas
dos Orsini com os Colonna foram uti-
lizadas pelos Bórgia em proveito do '
seu próprio poderio. Os Orsini quise-
ram fazer frente aos planos de domina-
ção de César Bórgia, e foram os princi-
pais instigadores da conspiração de La
Magione. Faziam parte da liga contra
Valentino o Cardeal Orsini, o Duque
de Gravina, Paolo e Frangiotto, todos
membros da família. O cardeal, prisio-
neiro no Castelo de Santo Ângelo, foi
envenenado a mando do papa; Valen-
tino atraiu os outros a Sinigaglia, onde
os mandou estrangular.
Pesaro (Senhor de) — Giovanni di
Costanzo Sforza, primeiro marido de
Lucrécia Bórgia.
Pescennius Niger — Proclamado im-
perador pelas legiões romanas, em
Antioquia, foi derrotado em Nicéia por
Septimio Severo e executado (195
dC).
Petrucci, Pandolfo — Senhor de Siena,
depois de ter mandado assassinar o
sogro Niccolô Borghese. Em 1503, en-
trou em luta com Valentino, sendo por
este expulso de Siena, mas reposto
logo depois com o apoio de Luís KII.
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
Piombino (Senhor de) — Jacópo degli
Appiani, que fugiu à aproximiáção das
forças de Valentino, as quais ocupa-
ram a cidade (1501).
Pirro (277 a.C.) = Rei do Epiro. Con- |
Í
quistou a Sicília por pouco teripo. |
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Quíron — Segurido a mitologiã grega, |
centauro preceptor de Hérculês e de:
Aquiles.
Ramiro de Orco
César Bórgia, foi poí este último feitô
mente com Giovanni Olivieri:
governador da Romariha (1501), junta:
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Riario da Savona, Cardeal Rafaelio -— |
Conspirou contra Leão X, que o
degradou e privou dos haáveres.
Rimini (Senhor de) — Sigismundo
Pandolfo Malatesta, condoitiere famo-
so pela sua crueldade. Cómbateu O |
Papa Pio II.
Roberto de San Severino — Capitão
das tropas de Veneza contra Ferrara, é
das forças do papa contra Nápoles. 7
Rohan — Antiga e ilustre casa a
nobreza remontava aos primeiros se-.
nhores da Bretanha. Os Rohan foram a:
princípio viscondes, condes e, depois, ;
no século XVII, tomaram o título de!
duques.
Roveredo — Cidade do Tirol, sobre o
Adige, a vinte quilômetros de Trento.
Rubertet (Senhor de) — À morte do
Cardeal d'Amboise, substituiu-o no |;
favor de Luís XII, de quem se tornou |
primeiro ministro.
— Mordorio de;
243
N
Saneses — De Sannio, antiga Sam-
nium, região da Itália central.
Santa Croce (Iacopo di) — Protono-
tário e partidário dos Orsini, preso
com o Cardeal Orsini. Assassinado
pelos Bórgia. .
Savonarola, Fra Girolamo —— Nascido
em Ferrara em 1452, chamado a Flo-
rença em 1480, por Lorenzo de Medi-
ci. Ao tempo da expulsão destes, orga-
nizou a nova república florentina sobre
bases democráticas. Em 1498, o parti-
do dos Medici (os “Palleschi”) dirigiu
o ataque contra o palácio do “Capi-
tano del Popolo”, Obizzo degli Alido-
si. Abandonado pelo povo, foi preso e
executado.
Serchio — Rio da Itália que deságua
o Mediterrâneo a doze quilômetros de
Pisa.
S. Pietro ad Vincula — Igreja em
Roma, dá qual Giuliano della Rovere
(o futuró Júlio II) tomou o nome para
O seu título de cardeal.
Septimits Severus (193-211 d.C). De-
posto o Imperador Pertinax, pela guar-
da pretoriana, as legiões impuseram os
seus tandidatos ao império: o exército
do Réfo aclamou Claudius Albinus, o
do Dãnúbio, Septimius Severus, e o do
Orierite, Pescennius Niger. Septimius
Severus chegou a Roma em primeiro
lugar, dissolveu a guarda pretoriana e
depois dirigiu-se para o Oriente, sitiou
Bizâncio e, tendo tomado Antioquia,
derrotou completamente a Pescennius
Niger. Voltando depois ao Ocidente,
desbaratou o exército dé Albinus,
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numa grande batalha, perto de Lião,
restabelecendo assim a unidade do
império. Fundou a última dinastia ro-
mana — a dos imperadores africanos.
Sforza, Francesco — Filho do grande
condottiere Muzio Attendolo Sforza
da Cotignola, a quem sucedeu na che-
fia dos “Sforzeschi”, facção militar
oposta à dos “Bracceschi”. Casado
com Bianca Maria, filha de Filipo
Maria Visconti, duque de Milão, gran-
jeou grande influência no ducado. À
morte de Filipo, formaram-se três par-
tidos em Milão: os adeptos do rei de
Nápoles (Afonso); os de Francesco
Sforza; e os partidários da constituição
de uma cidade livre em Milão. Estes
venceram a princípio, mas, depois da
revolta de Pavia e Parma, os milaneses
confiaram a Francesco Sforza a defesa
-do Estado contra os venezianos, que já
se tinham apoderado de Lodi e Piacen-
za. Sforza derrotou os venezianos na
batalha de Caravaggio (1448), ligan-
do-se, porém. logo após, aos vencidos,
contra Milão, onde entrou, como
duque, em 1450.
Sforza, Ludovico — Assassinado o
duque de Milão, Galeazzo Maria Sfor-
za (1476), o irmão Ludovico, Duque
de Bari, usurpou o ducado ao sobrinho
Giovan Galeazzo, menino de oito
anos, de quem se fez tutor. O
“Mouro”, como passou. à história,
ficou senhor de fato de Milão, mas
foi-lhe sempre negado geralmente o
direito à investidura ducal. (Ver o
nome Luis XII.)
Sforza, Ascânio (Cardeal) — Irmão de,
Ludovico, o Mouro, candidato ao
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
pontificado, vendeu os votos de que:
dispunha aos Bórgia. Destronado o
irmão pelos franceses, o Cardeal Asca-
nio foge de Milão, mas, preso logo .
depois, é mandado para a França. Vol-
tou a Roma depois da morte de Ale-
xandre VI.
Soderini (Francesco, Cardeal) —
Bispo de Volterra, enviado com Ma-
quiavel a César Bórgia em Urbino
(1502). Adversário de Leão X, aspirou
ao papado na sucessão deste.
Suábia — Região da Alemanha antiga,
dominada pela casa dos Hohenstaufen,
e depois pelos Habsburgo, estendia-se
da Turíngia à Suíça, da Floresta Negra
à Baviera.
Teseu — Herói da mitologia grega a
quem os atenienses atribuíram a funda-
ção do seu Estado.
Trivigiano (Trevigno) — Cidade da
íria a oitenta e cinco quilômetros ao
sul de Trieste.
Tusculanos -—- De Tusculum, cidade
do Lácio.
Vaila (Batalha de ) — No dia 19 de
maio de 1509, os venezianos foram
desbaratados em Vaila (atual Agnadel-
lo) pelos franceses, que ocuparam
grande parte da Lombardia. |
Valentino (Duque) — Ver César Bór-
gia.
Veliternos de Velitrae, cidade dos
volscos no Lácio, modernamente Vel-
letra.
ÍNDICE DOS NOMES CITADOS
Venafre, Antonio Giordano da
(1459-1530) — Famoso jurista e pro-
fessor na Universidade de Siena. Con-
selheiro de Pandolfo Petrucci.
Vicenza
sobre o Bacchiglione, a setenta quiló-
metros de Veneza.
Vidame (Vice dominus) — Oficial
Cidade da Lombardia
encarregado de promover judicial ou '
militarmente .a defesa de uma igreja, €
administrar a justiça civil em nome
dos bispos.
Visconti, Bernabô — Um dos três can-
didatos do Arcebispo Giovanni Vis-
conti que partilharam a sucessão do tio
no governo de Milão (1534). É lendá-
ria a figura de Bemnabo pela sua cruel-
dade. Foi envenenado em 1585 pelo
sobrinho Giovanni Galeazzo, que ob-
teve do Imperador Venceslau o título
de duque de Milão.
Vitelli, Paolo — Condottiere que com-
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bateu por Florença contra Pisa. Sus-
peito de traição, foi executado em
1499.
Vitelli, Niccol6 — Expulso em 1474
da Citta di Castello pelo Papa Xisto
IV, voltou a dominar aí em 1482.
Vitelli, Vitellozzo — Irmão de Paolo,
senhor da Cittaã di Castello, serviu sob
César Bórgia. Foi um dos conjurados
de La Magione, contra aquele. Es-
trangulado em Sinigaglia.
Xenofonte — Autor da Ciropédia (A
Educação de Ciro”).
Xisto IV, Papa (Francesco della Rove-
re 1414-1484) — Apoiou o ataque de
Veneza a Ferrara. Depois dos êxitos
militares daquela, o papa voltou-se
: contra Veneza, fundando a Liga San-
tíssima,
com Nápoles, Florença e
“Milão.
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- Este livro integra a coleção
OS PENSADORES — HIST ÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL
Composto e impresso nas oficinas da
Abril SA. Cultural e Industrial, caixa posa 23 2, São Paulo